Que Stan Lee era um homem bem sucedido e conhecido no mundo todo na hora de sua morte, ninguém discute. Algo que há muito se discute é o fato dele ter “roubado” os outros criadores da Marvel Comics, pessoas que estavam com ele na hora da criação e que não ganharam os créditos devidos posteriormente.

Não vale a pena entrar no mérito dessa questão, mas é importante relembrar os feitos dessas parcerias, e sua importância para os quadrinhos e um trabalho de destaque:

A capa do encadernado de Contos de Asgard, com imagem de Oliveir Coipel

1- Stan Lee e Jack Kirby: Contos de Asgard

O “Cara” e o “Rei” criaram praticamente todo Universo Marvel sozinhos. Jack Kirby desenhava as cenas de ação com mais energia que qualquer outro, e também os aparelhos e naves mais estranhas que qualquer um viu. Junto com a verborragia de Stan Lee, todo mês nascia um super-herói, vilão ou conceito novo. Quarteto Fantástico, Incrível Hulk, Homem Formiga, X-Men, Vingadores e por aí vai. Seria fácil colocar o Quarteto Fantástico como criação escolhida, mas já falamos deles nesse link.

Contos de Asgard é relevante porque foi a primeira vez que ambos trabalharam com mitologia. Apesar de Thor ser um deus nórdico, isso não tinha importância nenhuma em seus quadrinhos, que na época eram publicados na revista Journey Into Mistery. Claro que Loki, Odin e Asgard apareciam, mas esses eram os únicos elementos. Os próprios Stan Lee e Jack Kirby não participavam de todas as edições, com gente como Larry Lieber e Joe Sinnot escrevendo e desenhando a revista.

Isso muda em Journey Into Mistery #97 (outubro de 1963), quando nas últimas páginas começa os chamados Contos de Asgard. Em cinco páginas Stan Lee e Jack Kirby contam a criação do mundo, de acordo com a mitologia nórdica. Quer dizer, de acordo com a visão deles, que é bastante alterada, do que poderia ser a mitologia nórdica. Cedo ficou claro que a preocupação não era estar correto historicamente, mas ser divertido.

A partir daí, até a edição #145 da revista que então já era nomeada Thor, por cinco páginas o leitor iria encontrar uma história completamente diferente da que acontece na história principal. O próprio Thor demora a aparecer, tem aventuras criança e depois adolescente. Heimdal, Balder e outros tomam o protagonismo de algumas edições. Lutas com reis e dragões também aparecem. Dois gênios no seu auge criativo.

O fim de Se esse é o meu destino, clássico do Homem-Aranha

2- Stan Lee e Steve Ditko: Homem-Aranha

Enquanto Kirby ainda é reconhecido e idolatrado pelos fãs de quadrinhos, o outro “pai fundador” da Marvel é um mistério. Levou uma vida reclusa até sua morte, em julho desse ano. Apesar de ter uma contribuição menor em número, Steve Ditko pode se gabar de ter criado o mais famoso personagem da Marvel Comics: o Homem-Aranha.

Stan Lee e Steve Ditko trabalharam juntos até a edição 38 de The Amazing Spider-Man, com o desenhista se tornando co-roteirista, e no final, criando a história e desenhando, deixando para Lee apenas as falas. Algo que era assumido pelo próprio Stan na revista, que creditava o plot para Ditko.

Homem-Aranha era, junto com o Quarteto Fantástico, a revista mais vendida da casa, e teve momento clássicos nessa passagem, como o arco “Se esse é o meu destino“, que durou entre as edições 31 a 33. Os principais vilões do Aranha surgiram nessa época, tanto que na primeira edição de anual (The Amazing Spider-Man Annual #1, de outubro de 1964)  eles decidem reunir todos e criar o Sexteto Sinistro, com alguns inimigos que já haviam aparecido: Doutor Octopus, Electro, Kraven, Mysterio, Homem-Areia e Abutre. Os único vilões de destaque que faltaram foram o Duende Verde e o Lagarto. Sim, boa parte da galeria de vilões do Cabeça de Teia foi criada também por Ditko.

O grande destaque, porém, acabou sendo o conto de origem do Aranha. Publicado na revista Amazing Fantasy #15, revista que iria ser cancelada nesse mesmo número, um conto de dez páginas mudou a história dos quadrinhos. Intitulada apenas “Homem-Aranha“, mostra o adolescente rejeitado social Peter Parker ser mordido por uma aranha radioativa e ganhar super-poderes. Ele tenta a fama, deixa um assaltante escapar, tio Ben paga o preço e por fim, “grandes poderes trazem grandes responsabilidades”. Sim, a mais conhecida origem de um super-herói foi lançada de maneira despretensiosa, numa revista a beira do cancelamento.

Um herói adolescente que não é parceiro de outro mais velho, bullying, monólogos cheios de culpa. Ninguém tinha visto isso antes nos quadrinhos antes.

O mais clássico Surfista Prateado, o de John Buscema

3- Stan Lee e John Buscema: Surfista Prateado

John Buscema não estava na turma que fundou a Marvel Comics, mesmo já sendo um desenhista experiente então. Ele rodou por diversos títulos da editora, como Vingadores, até ser chamado para desenhar o título próprio do Surfista Prateado, escrito por Lee.

Surgido nos quadrinhos do Quarteto Fantástico, a revista mais importante da Marvel então, o Surfista Prateado foi um dos poucos personagens criados exclusivamente por Jack Kirby (algo sempre admitido por Lee). Ainda assim, Stan Lee se encantou pelo personagem, que sempre admitiu ser seu favorito. E já sem escrever tantas revistas, decidiu usar todo seu talento em um título. E escolheu quem considerava o melhor desenhista da editora para desenhar, John Buscema. Kirby se sentiu traído e muitos dizem que foi um dos motivos dele abandonar a editora nos anos 1970.

Silver Surfer #1 foi lançado em agosto de 1968. Mostra a história de origem do Surfista Prateado, e apresenta um personagem como um pária, odiado em um mundo que é obrigado a permanecer. Ao invés de se render ao ódio, ele fica estarrecido com o comportamento dos humanos, que destroem o próprio planeta por ganância e passam o tempo em brigas e guerras.

O título foi de curta duração com apenas doze edições, mas fica bem evidente o desejo de Stan Lee de usar o Surfista, um alienígena, para criticar o que ele julgava errado no comportamento humano. Um ser extremamente poderoso e odiado por todos ao seu redor, mas que opta pela contemplação e pela filosofia. O título é até hoje lembrado como um clássico, mas na época não vendeu o que era esperado pela combinação do nome e do trabalho de Stan com a arte impecável de John Buscema.

Homem-Aranha Nunca Mais!

4- Stan Lee e John Romita: Homem-Aranha Nunca Mais

Muitos temiam que a saída de Ditko iria naufragar a galinha dos ovos de ouro da editora, o Homem-Aranha. Para evitar isso, Stan Lee chamou um homem de confiança (e MUITO talento) para substituir: John Romita. O problema é que Romita não era um desenhista de quadrinhos de super-herói, e sim de quadrinhos românticos, que faziam muito sucesso na época.

Depois de uma temporada no Demolidor, para ver se ele conseguia desenhar super-heróis. Aprovado, ele assumiu o Cabeça de Teia em The Amazing Spider-Man 39 (de agosto de 1966). Na largada já revelou o mistério que há anos quebrava a cabeça dos leitores: a verdadeira identidade do Duende Verde, que até então ninguém sabia.

Com sua experiência em quadrinhos românticos, ele e Lee tornaram o Homem-Aranha uma verdadeira comédia romântica adolescente. Sai o Peter magrelo e pirralho, entra um cara mais bonitão, rodeado por lindas mulheres, como Gwen Stacy e Mary Jane Watson. Usando as roupas da moda, o Parker agora é um universitário e participa desse mundo, que estava em ebulição nos anos 1960. O fim da Guerra do Vietnã, direitos das minorias, tudo isso é abordado. É no Homem-Aranha dessa época que vemos os primeiros personagens negros nos quadrinhos, o editor Joe Robertson e seu filho Randy. Pouco depois são abordados temas como drogas, ainda que contra a censura que os quadrinhos sofriam.

O maior destaque dessa fase, bastante longa e que depois foi repetida nas tiras de jornais, foi a história “Homem-Aranha nunca mais” (The Amazing Spider-Man #50, julho de 1967) em que Peter decide abandonar o uniforme de Aranha. É nessa edição que surge outro vilão clássico do personagem, o Rei do Crime. Ele e outros inimigos do mundo do crime se tornariam comuns então.

A união da Marvel Comics com os quadrinhos europeus

5- Stan Lee e Moebius: Parábola

Jean “Moebius” Giraud foi um dos grandes nomes dos quadrinhos europeus. Seu trabalho na revolucionária revista Metal Hurland, é celebrado até hoje. Por isso o mundo ficou surpreso quando ele e Stan Lee anunciaram que iriam trabalhar juntos em uma graphic novel do Surfista Prateado.

Parábola, lançada em 1988, é talvez o mais importante trabalho de Stan Lee, um clássico da Nona Arte, atual até os dias de hoje. Em um futuro não muito longinquo, Galactus volta a Terra e afirma que é Deus e que tudo é permitido. As pessoas acreditam e começam a destruir tudo,roubando, matando, fazendo sexo, sem limites e pudores. Um esquecido Surfista Prateado retorna e decide que ainda vale a pena lutar pela humanidade.

A arte de Moebius é soberba, moderna, diferente de tudo que vimos antes na Marvel Comics. Stan Lee não deixa por menos. Sem se preocupar com censura ou em tornar o texto mais acessível, nos mostra uma crítica social contundente. O uso da religião como uma desculpa pelos poderosos para explicar seus atos, a desesperança que faz o povo seguir tiranos, a importância do livre arbítrio e da responsabilidade social.

Parábola é uma daquelas obras que usa poucas páginas para falar muito. É obrigatória para os fãs de quadrinhos.

 

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