A Saga do Monstro do Pântano, por Alan Moore - A Lição de Anatomia

Aqui os quadrinhos começaram a ser revolucionado. Apesar de ser a segunda edição escrita por Alan Moore (Miracleman, Do Inferno), “A lição de anatomia“, que apareceu em The Swamp Thing Saga #21 (fevereiro de 1984) é considerado o marco início da fase de Moore. Aqui a Saga do Monstro do Pântano começou a se diferenciar do que era feito até então. Também é o início do trabalho do desenhista Steve Bissette, que se somou ao arte-finalista John Totleben.

Com o passar dos anos, Alan Moore começou a se popularizar por desconstruir personagens. Ele já tinha feito isso na Grã Bretanha, com o Marvelmen (depois Miraclemen) e com o Capitão Britania da Marvel UK. Ele pegou os personagens, seu conceito e tornou algo completamente diferente do que era antes, mas sem negar nada que havia sido feito anteriormente.

Continuando Pontas Soltas, Dr. Jason Woodrue é chamado pelo general Sundarland para fazer a autópsia do Monstro do Pântano. Eles fizeram estudos com o corpo de Linda Holland – falecida esposa de Alec – e descobriram que mesmo recebendo contato com a fórmula que em tese tornou seu marido no monstro, nada aconteceu com ela. A formula não funciona com carne, apenas vegetais.

Woodrue seria a pessoa mais indicada para fazer essa investigação porque ele mesmo é um cientista. E também é o Homem Florônico, meio planta, meio homem. Antigo vilão da DC, ele é tirado da prisão e colocado para investigar o que aconteceu com o Mostro do Pântano.

Sunderland mesmo é um personagem interessante. Ele criou uma enorme torre em Washington, toda computadorizada, onde está seguro o tempo todo. Cercado por computadores, concreto e aço, ele se acha inatingível nessa sua construção, a qual se orgulha porque “pode fazer tudo funcionar de um teclado do tamanho de um tabuleiro de xadrez“.

É aí que começa a investigação. Woodrue cedo descobre que o Monstro do Pântano não faz sentido. A história é “A lição de anatomia” porque o monstro é dissecado. Seus órgãos são removidos e é descoberto que eles não funcionam. O pulmão inspira e respira, mas não faz a troca de oxigênio com as células. O cérebro não tem sinapses. Eles são apenas ilusões de órgãos.

É aí que Woodrue descobre a verdade sobre o Monstro do Pântano. “Verdade”, é claro, retroativa, criada por Alan Morre para essa edição. Parte do plano dele para o personagem. O Monstro do Pântano nunca foi Alec Holland. Alec morreu na explosão. Sua consciência, porém, permaneceu viva devido aos microorganismos do pântano. E foram eles que criaram a criatura. A consciência de Holland criou um corpo da maneira que lembrava como ele deveria ser. Com pulmões, com cérebro, rins, ossos. Mas nada daquilo funciona, porque ele é uma planta, não precisa daquilo.

“Acreditávamos que o Monstro do Pântano fosse Alec Holland, de algum modo transformado em planta. Não era. Era uma planta que pensava que era Alec Holland. Uma planta que se esforçou ao máximo para ser Alec Holland…”

O final a partir daí é óbvio. “Você não mata uma planta com um tiro na cabeça”. Woodrue sabota o sistema de armazenamento do Monstro do Pântano, que escapa e mata Sunderland. Seu final, pedindo ajuda desesperado, sozinho e isolado em sua fortaleza inespurgável e irônico.

A Saga do Monstro do Pântano, por Alan Moore - A Lição de Anatomia
Capa da edição original,

O Legado em A Lição de Anatomia

Pode parecer pequena essa alteração no conceito do personagem, mas Alan Moore alterou toda a perspectiva do personagem. Quando Lein Wein e Bernie Wrightson criaram o Monstro do Pântano, eles usaram o clássico conceito do homem que se torna monstro. Esse é o horror da história, e com o tempo ele começa a tentar voltar a ser o que era. Vemos isso em A Metamorfose (de Franz Kafka), por exemplo.

Agora não. O Monstro do Pântano nunca foi um homem. Ele era uma planta que achava que era homem. O que resta ao personagem? Manter a mentira, tentando lidar com pessoas que não tem mais identificação nenhuma? Se enterrar em algum lugar? Alan Moore vai abordar isso mais para frente, mas agora o horror é completamente diferente. Sua vida e existência foi um engano desde o início.

Sim, Alan Moore nos entregou um dos maiores plot twists da história dos quadrinhos, e em sua segunda edição com o personagem. Foi para mostrar que aquilo não era mais apenas um quadrinho de super-herói da DC Comics. Era algo mais.

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