A melhor frase que pode definir e/ou caracterizar o filme O Círculo é um meme, criado e dissipado pela internet e consequentemente adotado para diversas situações diárias. Mesmo que você não seja fã ou nunca tenha visto um episódio sequer, duvido que nunca tenha ouvido alguém falar:

“Isso é muito Black Mirror”

O Círculo é baseado no livro homônimo de Dave Eggers, e pode ser descrito como uma extensão do episódio 3×01 de Black Mirror, repleto de tecnologia futurista e pessoas ainda mais alienadas do que já são atualmente. Por mais que pareçamos estar a léguas de distância de viver em uma sociedade como a relatada no filme, infelizmente a longinquidade é menor do que pensamos. O longa relata o dia à dia de Mae Holland (Emma Watson), uma jovem do interior passando por problemas financeiros e que precisa do dinheiro para cuidar da saúde do pai com Esclerose Múltipla. A chance da vida de Mae surge quando sua amiga Annie (Karen Gillan) consegue uma entrevista em uma das empresas mais poderosas do planeta, cujo nome é o título do filme. A Círculo funciona com base em informações disponíveis na internet, desde emails pessoais até atividades diárias fora do mundo virtual, mas que de alguma forma foram registradas no imenso universo digital.

Exposta a tantas informações novas, Mae se vê encantada e empolgada em fazer parte daquilo e logo se torna mais uma no time dos alienados. Ela passa a se envolver cada vez mais no “círculo social” que lidera a população da área e faz o possível para alcançar uma posição maior na hierarquia de popularidade. Assim como em grandes conglomerados – como o Google -, os funcionários encontram tudo o que necessitam dentro dos muros da instituição, e antes que perceba ela não precisa mais sair de lá. Eamon Bailey (Tom Hanks) vê na menina o protótipo necessário para seu novo experimento, levando-a a mudar seu próprio ponto de vista e ir contra seus princípios. O propósito inicial de conseguir dinheiro para a saúde do pai se perde e ela chega a ficar até mesmo semanas sem vê-los. Até que ponto deixamos a influência das redes sociais dominar nosso dia à dia e nossas vidas? Mae percebe isso da pior maneira.

Divulgação: IMAGEM FILMES

O filme trata-se de uma grande aula para o público que o assiste. Hanks pode ser comparado ao próprio Steve Jobs durante suas palestras para a empresa, mas para alguém com posicionamentos autoritários, ele perde seu poder muito facilmente mediante as atitudes de Mae. O Círculo nos expõe a questão da falta de privacidade, limites e respeito para com os outros, e então nos damos conta das consequências de nossas atividades diárias. Quem nunca “stalkeou” um perfil desconhecido e descobriu tudo sobre uma pessoa sem ao menos conhecê-la? Isso não é muito diferente do que Bailey faz em sua instituição – na verdade, é exatamente isso. A trama tem a duração necessária para não se tornar algo monótono, pois mesmo com nomes como Watson e Hanks no elenco, a dupla não exerce todo o seu potencial e se atém ao mediano, o que está muito longe de ser ruim. John Boyega inicia o filme dando a entender que terá um grande papel no desfecho da obra, mas seu personagem torna-se apagado no decorrer e sua voz retorna em um momento crucial.

O Círculo é uma produção que tinha tudo para se tornar um filme memorável, pois é realmente bom, mas um roteiro falho acaba por prejudicá-lo. As tecnologias são complicadas demais para serem descritas em poucos segundos, o que torna tudo mais irreal do que deveria. Apenas alguns minutos a mais dedicados a cada uma seriam necessários para ter a relação transparente que o público necessita para entrar na história, e caracterizaria o longa como nota máxima. Entretanto, a mensagem do diretor James Ponsoldt foi passada e chega a assustar a maneira como nos identificamos com diversas situações. Assim como em Black Mirror, a trama é intrigante e nos deixa com uma pulga atrás da orelha, o que somada a um ótimo elenco é o essencial para nos fazer ir ao cinema assistir.

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