Garota Exemplar foi uma das melhores produções que vi em 2014, recheado de momentos tensos e situações frenéticas do início ao fim. Quando descobri ser baseado no livro homônimo de Gillian Flynn, o filme tornou-se ainda mais interessante, assim como o trabalho da autora desconhecida para mim até então. Resolvi solicitar outro volume de Flynn no Skoob, buscando conhecer outra criação da escritora antes que fosse para o cinema. Diferente da adaptação anterior, Objetos Cortantes será projetado em telas de televisão, em uma série ainda previsão nos Estados Unidos. Assim como Garota Exemplar, o livro em questão foi um dos melhores que li até agora em 2017, razão pela qual escolhi falar dele no Ler é Bom, Vai! 

Veja também: Amy Adams estrelará adaptação de Objetos Cortantes para TV

Camille Preaker está longe de ser uma pessoa com uma vida normal. Apesar de seu emprego pacato como jornalista, a moça esconde na pele o medo que teve durante sua infância e adolescência em Wind Gap, uma cidadezinha do interior dos Estados Unidos. Disposta a deixar tudo para trás, Preaker se mudou para Chicago e para longe da família que tanto a perturbou, principalmente após a morte de Amma, sua irmã caçula. Uma mãe neurótica, um padrasto passivo e uma meia-irmã beirando a perversidade são o que a aguardam em sua cidade natal, ao retornar para para investigar o assassinato de duas crianças a mando de seu editor. Mesmo apavorada por regressar ao passado, Camille enfrenta seus medos e busca justiça pelas jovens meninas – estranguladas e com os dentes arrancados por um possível serial killer. Evitando gastar dinheiro, ela acaba por se hospedar na casa da família e e afronta os pesadelos que tanto a perturbaram, especialmente o comportamento arcaico e tradicional de sua mãe, disposta a qualquer coisa para manter a imagem. Focada em terminar sua matéria, Preaker mergulha de cabeça no pequeno universo de Wind Gap.

Assim como acontece com a protagonista, somos praticamente sugados para dentro da história logo no início e não conseguimos pensar em mais nada até solucionar TODOS os mistérios. Os assassinatos são apenas o estopim para uma série de eventos mal resolvidos e ignorados até aquele momento. Mesmo sendo pequena, Wind Gap esconde uma série de tramas protagonizadas por seus habitantes, emaranhadas e expostas após as mortes de Ann Nash e Natalie Keene. Quem assistiu Garota Exemplar, deve imaginar o quão não simples é a história de Objetos Cortantes, mesmo esta sendo sua obra de estreia e já sendo absurdamente boa! O conteúdo explora a complexidade da mente humana, abordando os diferentes pontos de vida de cada personagem. Flynn nos fez rodar pela população da cidade junto com a jornalista, não centralizando apenas nos principais suspeitos. Os traumas familiares vão muito além de pequenas discussões no almoço de domingo, perpetuando por gerações e piorando a medida que o tempo avança. Em vários momentos acreditei saber quem era o assassino, mas Camille logo descartava minhas opções e criava inúmeras novas teorias. Confesso que o final até hoje me causa arrepios.

O nome do livro é “em homenagem” a Camille, que possui palavras marcadas por todo o corpo. Utilizando-se dos mais diversos objetos cortantes (sentiram a referência?), ela talhou termos aleatórios na pele que vão desde adjetivos a comidas, sentindo prazer a cada corte feito.

“Eu me corto, sabe? Também retalho, fatio, gravo, espeto… Sou um caso bem especial. Tenho uma razão. A minha pele, sabe, ela grita. É repleta de palavras – cozinhar, bolinho, bichano, cachos – como se uma criança da primeira série manuseando uma faca tivesse aprendido a escrever em minha carne.”

A trama de Objetos Cortantes trabalha simultaneamente com a resolução dos crimes e com a libertação de sua protagonista. Mesmo que possa parecer um ato de loucura para quem está de fora, Flynn nos faz entender e compreender a angústia de Camille com tudo aquilo que ela sofreu em sua infância/adolescência. Poucos compreendem a dor e solidão que ela foi obrigada a encarar, mas quando descobrimos o real motivo de tudo é que realmente alcançamos a dimensão da situação. A narração em primeira pessoa corrobora para tudo isso, pois Preaker utiliza o livro como se fosse um diário, revelando um pouco de cada personagem à medida que se encontra com cada um. Todos temos histórias obscuras em nosso passado e foi isso que a autora quis deixar bem claro em seu livro.

Apesar da complexidade da história não espere um vocabulário rebuscado, muito pelo contrário. A leitura é intensa e frenética, com palavras simples e bem colocadas nos diálogos entre os intérpretes. Além de Camille, outros personagens assumem o papel de protagonista durante diversos momentos da história, com destaque para sua mãe Adora e sua irmã Amma, igualmente profundas e abstrusa em suas atitudes. Por razões óbvias, o auge da obra chega através de seu desfecho inesperado e adiado até o último segundo. Não pense que apesar da revelação do assassino a história acabou, pois a autora ainda precisa nos informar de algumas coisas. Duvido que você tenha adivinhado desde o começo como tudo iria acabar!

“Uso este vestidinho por causa de Adora. Quando estou em casa, sou a bonequinha dela.

– E quando não está?

– Sou outras coisas. Você é Camille, minha meia-irmã. A primeira filha de Adora, antes de Marian. Você é Pré e eu sou Pós”

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