A Própria Carne: Escrito com Sangue reforça a força do terror nacional contemporâneo
Divulgação/Pipoca & Nanquim
A Própria Carne: Escrito com Sangue reforça a força do terror nacional contemporâneo
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A Própria Carne: Escrito com Sangue reforça a força do terror nacional contemporâneo

A expansão de universos narrativos entre cinema e quadrinhos tornou-se uma estratégia recorrente no entretenimento contemporâneo, mas raramente ela surge com um senso tão orgânico de identidade quanto em A Própria Carne: Escrito com Sangue, obra lançada pela editora Pipoca & Nanquim em parceria com o selo criativo ligado ao Jovem Nerd. A HQ funciona como prelúdio espiritual e narrativo do longa A Própria Carne (2025), ampliando não apenas o universo da obra cinematográfica, mas também consolidando um movimento que vem fortalecendo o terror brasileiro em múltiplas plataformas. Mais do que um simples material derivado, o quadrinho se apresenta como uma peça fundamental para compreender as raízes simbólicas e históricas do horror que permeia a narrativa central, apostando em histórias independentes que compartilham a mesma atmosfera de fatalidade, decadência e presença de forças antigas que parecem observar a humanidade desde tempos imemoriais.

A Própria Carne: Escrito com Sangue reforça a força do terror nacional contemporâneo

O conceito estrutural da coletânea é particularmente eficaz: seis histórias independentes, cada uma centrada em personagens diferentes, mas todas conectadas pela sensação de que existe algo ancestral, invisível e inevitável moldando destinos humanos. Essa escolha narrativa permite que o livro explore múltiplas vertentes do horror — do sobrenatural religioso ao terror psicológico, passando por experiências de horror cósmico e manifestações espirituais associadas a rituais ocultistas. Em vez de buscar sustos imediatos, os roteiros investem em um terror atmosférico, muitas vezes silencioso, onde o medo nasce da percepção de que os personagens já estão condenados antes mesmo de compreenderem aquilo que enfrentam. Essa abordagem dialoga com tradições clássicas do gênero, especialmente o horror literário do século XIX e o terror cósmico do século XX, mas reinterpretados sob uma lente profundamente brasileira, onde história, violência e espiritualidade se entrelaçam.

Entre os grandes méritos da obra está a diversidade criativa do time envolvido. A presença de autores como Leonel Caldela traz maturidade narrativa e domínio do suspense gradual, enquanto artistas como Alexandre Tso, Mayara Lista, Lucas Pereira, Akila Hurlant, Raphael Salimena e Alexandre Carvalho oferecem estilos visuais distintos que reforçam a sensação de antologia, permitindo que cada conto possua identidade própria. O trabalho de cores de Guilherme Petreca também merece destaque, pois contribui decisivamente para a construção das atmosferas — tons saturados e contrastes dramáticos reforçam a tensão, enquanto paletas mais frias e opacas ampliam a sensação de decadência e fatalismo que acompanha boa parte das histórias. O resultado é uma experiência visual variada, mas coesa, que mantém a unidade temática mesmo diante das diferenças estilísticas.

Tematicamente, a HQ demonstra coragem ao explorar elementos historicamente negligenciados pelo terror brasileiro mainstream, especialmente ao incorporar referências culturais, religiosas e históricas que dialogam diretamente com a formação social do país. A presença de sociedades secretas, manifestações espirituais ligadas a tradições afro-brasileiras e personagens marcados por eventos históricos traumáticos cria uma camada simbólica que transforma o horror em comentário social e histórico, ainda que de forma indireta. Não se trata apenas de provocar medo, mas de sugerir que certas violências — físicas, culturais e espirituais — continuam ecoando ao longo do tempo, assumindo novas formas, novos rostos e novas tragédias. Essa dimensão torna a leitura mais densa e, ao mesmo tempo, mais relevante dentro do panorama do quadrinho nacional.

Ao lado de projetos como Ogiva, também publicado pela editora, A Própria Carne: Escrito com Sangue evidencia um momento particularmente fértil do terror brasileiro nos quadrinhos, em que novas gerações de artistas e roteiristas demonstram domínio técnico, ambição estética e, principalmente, confiança em explorar narrativas autorais profundamente enraizadas em contextos nacionais. O livro não apenas funciona como expansão de um filme, mas como manifesto silencioso de que o horror produzido no Brasil já possui identidade própria, capaz de dialogar com referências internacionais sem perder sua voz cultural. Se o longa-metragem inaugura um universo cinematográfico promissor, a HQ deixa claro que esse mundo possui passado, profundidade e, talvez o mais inquietante, histórias ainda mais perturbadoras esperando para serem contadas.


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