Nada mais justo do que Era Uma Vez Minha Mãe chegar aos cinemas justamente na semana do Dia das Mães. O longa, inspirado na autobiografia de Roland Perez, não se limita a contar uma história de superação individual; ele se estrutura como um verdadeiro monumento afetivo à figura materna. Mais do que isso, é um filme que tensiona o amor incondicional até seus limites mais complexos, revelando tanto sua força transformadora quanto suas consequências emocionais ao longo da vida.

Sob a direção sensível de Ken Scott, o longa encontra um equilíbrio raro entre drama e comédia, transitando com fluidez entre momentos de leveza e outros de intensa carga emocional. Scott demonstra domínio narrativo ao evitar que o filme se torne excessivamente melodramático, um risco sempre presente em histórias baseadas em superação, apostando em uma construção que valoriza os pequenos gestos, os silêncios e as contradições humanas. O resultado é um filme que emociona sem apelar, e que diverte sem banalizar o sofrimento.
Ambientado na França dos anos 1960, o filme apresenta Roland desde seu nascimento, quando é diagnosticado com uma condição que o impede de andar. A partir desse ponto, o roteiro se ancora na promessa feita por sua mãe, Esther: a de que ele terá uma vida “normal” e extraordinária. Essa promessa, que poderia soar como um simples gesto de esperança, torna-se o eixo dramático de toda a narrativa. Esther transforma sua vida em uma missão quase obsessiva, moldando o destino do filho com uma determinação que oscila entre o admirável e o sufocante.
É impossível falar do filme sem destacar a atuação arrebatadora de Leïla Bekhti. Sua Esther é uma personagem de múltiplas camadas: ao mesmo tempo em que encarna o arquétipo da mãe protetora e resiliente, também revela fragilidades, medos e uma intensidade emocional que beira o controle absoluto. Bekhti constrói uma personagem que nunca se torna caricata, mesmo em seus momentos mais extremos, e é justamente essa complexidade que torna sua performance tão impactante. Ela não interpreta apenas uma mãe, ela traduz uma força quase mitológica que atravessa gerações.
Já Roland, representado por vários atores em diferentes fases da vida, encontra em Jonathan Cohen seu ponto de maior maturidade dramática. Cohen entrega uma performance sensível e contida, que reflete o peso de uma vida construída sob as expectativas, e sacrifícios, de outra pessoa. Seu Roland adulto é um homem dividido entre a gratidão e a necessidade urgente de autonomia, um conflito que o filme explora com delicadeza e profundidade.
Um dos aspectos mais interessantes do longa é justamente a forma como ele não romantiza completamente essa relação. Ao contrário, Era Uma Vez Minha Mãe reconhece que o amor absoluto também pode gerar dependência, conflitos e dores inevitáveis. O momento em que Roland percebe a necessidade de “cortar o cordão umbilical” é tratado com uma honestidade rara, evitando soluções fáceis e abraçando a complexidade emocional desse rompimento simbólico. É nesse ponto que o filme atinge sua maior maturidade, ao compreender que crescer também significa se afastar.
A presença da cantora Sylvie Vartan, interpretando a si mesma, adiciona uma camada curiosa à narrativa, funcionando quase como um elemento onírico ou de escapismo dentro da vida de Roland. No entanto, nem tudo funciona perfeitamente nesse aspecto. O uso de tecnologia de rejuvenescimento em uma das cenas causa um certo estranhamento visual, quebrando momentaneamente a imersão, um detalhe técnico que destoa da delicadeza estética predominante no restante do filme.
Era Uma Vez Minha Mãe é uma reflexão poderosa sobre o amor em sua forma mais intensa e contraditória. É um filme que celebra as mães, sim, mas que também propõe uma pergunta incômoda e necessária: até que ponto o amor pode, ou deve, moldar o destino de alguém? Ao equilibrar emoção e reflexão com tamanha precisão, o longa se consolida como uma obra tocante e profundamente humana, daquelas que permanecem com o espectador muito depois dos créditos finais.
Com distribuição da California Filmes, o longa chega aos cinemas no dia 7 de maio.
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ÓTIMO
Summary
Ao equilibrar emoção e reflexão com tamanha precisão, o longa se consolida como uma obra tocante e profundamente humana, daquelas que permanecem com o espectador muito depois dos créditos finais.