Zico, O Samurai de Quintino é homenagem que evita se aprofundar
Zico, O Samurai de Quintino é homenagem que evita se aprofundar

Zico, O Samurai de Quintino é homenagem que evita se aprofundar

Zico foi um jogador que transcendeu estatísticas e títulos para se tornar símbolo de uma forma de jogar futebol, carregando consigo uma narrativa que, por si só, já parece pronta para o cinema. Zico, O Samurai de Quintino, dirigido por João Wainer, nasce dessa matéria-prima riquíssima, mas opta por um caminho que privilegia a reverência em detrimento da investigação. O resultado é um documentário que emociona pela memória, mas hesita quando poderia provocar pela profundidade.

Zico, O Samurai de Quintino é homenagem que evita se aprofundar

Desde seus primeiros minutos, o longa aponta para uma promessa narrativa instigante ao destacar a passagem de Zico pelo Japão, um capítulo frequentemente subestimado de sua carreira, mas que carrega um peso histórico gigantesco. Em um momento em que o futebol japonês ainda engatinhava, a presença do camisa 10 não apenas elevou o nível técnico, mas ajudou a redefinir mentalidades, estruturas de treinamento e até o imaginário esportivo do país. Sua atuação pelo Sumitomo Metals, posteriormente transformado no Kashima Antlers, entre 1991 e 1994, não foi apenas simbólica, foi fundacional. E é justamente aí que reside uma das maiores frustrações do filme: essa história, por si só, renderia um documentário inteiro, mas aqui é tratada como um prólogo apressado.

O título O Samurai de Quintino sugere uma ponte conceitual entre duas culturas, o subúrbio carioca e a disciplina japonesa, mas essa conexão nunca é plenamente explorada. O que poderia ser um estudo fascinante sobre como valores de origem humilde dialogam com uma filosofia esportiva oriental acaba reduzido a uma metáfora estética. Há uma ideia potente ali, quase latente, mas que o filme parece não ter interesse (ou coragem) de desenvolver. É como se o documentário apresentasse perguntas instigantes, apenas para rapidamente desviá-las em favor de uma narrativa mais confortável.

A estrutura do longa se apoia fortemente em imagens de arquivo, muitas delas inéditas, e em depoimentos que, embora carregados de afeto, raramente avançam para além do elogio. Figuras como Ronaldo Nazário e Júnior contribuem para a construção dessa memória coletiva, mas suas falas funcionam mais como reforço do mito do que como desconstrução ou análise crítica. O filme, nesse sentido, se aproxima mais de um tributo institucional do que de um documentário investigativo, um “especial comemorativo” com acabamento cinematográfico.

Ao mergulhar na intimidade de Zico, sobretudo através de seu arquivo pessoal e relatos familiares, o longa encontra seus momentos mais genuínos. É nesse espaço, longe dos gramados e das estatísticas, que o filme revela algo mais humano: a formação de um caráter moldado por disciplina, humildade e persistência. A infância em Quintino, no Rio de Janeiro, surge como o verdadeiro ponto de partida de tudo, estabelecendo uma linha invisível que conecta o menino suburbano ao ícone global. Aqui, o documentário acerta ao sugerir que o “samurai” não nasceu no Japão, mas foi reconhecido lá.

No entanto, essa dimensão mais íntima também sofre com a falta de aprofundamento. O filme parece constantemente à beira de algo maior, uma análise mais complexa sobre o impacto cultural de Zico, uma reflexão sobre suas frustrações (como a Copa de 1982), ou mesmo um olhar mais crítico sobre sua trajetória, mas recua antes de se comprometer. Falta conflito, falta tensão narrativa, falta a coragem de olhar para além da idolatria. E isso, em um documentário, faz toda a diferença.

Para o torcedor do Clube de Regatas do Flamengo, o filme é, sem dúvida, um prato cheio. Há um prazer quase nostálgico em revisitar conquistas, gols e momentos que ajudaram a moldar a identidade de um dos maiores clubes do Brasil. Mas mesmo nesse aspecto, o documentário opta pelo caminho mais seguro, evitando qualquer abordagem que possa desafiar ou expandir essa memória afetiva.

Zico, O Samurai de Quintino é um filme que entende a grandeza de seu personagem, mas não ousa explorá-la em toda sua complexidade. É bonito, respeitoso e, em muitos momentos, emocionante, mas também é contido, previsível e, por vezes, superficial. Para quem busca uma celebração, ele entrega. Para quem espera um mergulho profundo, deixa a sensação de que havia muito mais a ser dito.

Com distribuição da Globo Filmes, Zico, O Samurai de Quintino estreia no dia 30 de abril nos cinemas brasileiros.

3

BOM

Zico, O Samurai de Quintino é bonito, respeitoso e, em muitos momentos, emocionante, mas também é contido, previsível e, por vezes, superficial. Para quem busca uma celebração, ele entrega. Para quem espera um mergulho profundo, deixa a sensação de que havia muito mais a ser dito.

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