Existe uma pergunta que o Rock in Rio parece evitar responder há algumas edições: quando foi a última vez que o festival realmente apostou em um novo headliner para o Palco Mundo?
O último sábado deixou essa discussão ainda mais evidente. Fazendo sua estreia no maior festival de música do Brasil, o Bring Me The Horizon entregou a melhor apresentação desta edição até o momento. Não apenas correspondeu à expectativa dos fãs que aguardavam esse momento havia anos, como também conquistou quem talvez conhecesse a banda apenas de nome. Foi o tipo de apresentação que muda percepções, amplia públicos e justifica o motivo de festivais existirem.
E talvez esteja justamente aí o maior contraste da noite.
Enquanto o Bring Me The Horizon mostrava que estava pronto para ocupar espaços cada vez maiores, o Rock in Rio encerrava a única noite dedicada ao rock recorrendo novamente ao Avenged Sevenfold, banda que já havia fechado a edição anterior. Não se trata de questionar a qualidade do grupo americano, que continua sendo um dos grandes nomes do rock contemporâneo. O problema é outro.
O festival parece ter desenvolvido uma certa resistência em correr riscos.
Ao longo de sua história, o Rock in Rio ajudou a transformar artistas em fenômenos para o público brasileiro justamente porque entendia que um festival também serve para apresentar novidades. Ir a um evento desse porte nunca foi apenas assistir aos artistas favoritos. Era também descobrir aquela banda que, poucas horas antes, sequer fazia parte da sua playlist.
Foi exatamente isso que aconteceu com o Bring Me The Horizon.
Quem já acompanhava a trajetória dos britânicos viu uma banda madura, segura e completamente confortável diante de uma plateia gigantesca. Quem não conhecia encontrou um grupo capaz de unir peso, melodias marcantes, produção grandiosa e uma presença de palco difícil de ignorar. Poucas apresentações nesta edição conseguiram gerar tantos comentários positivos entre pessoas que chegaram ao show sem qualquer expectativa.
Boa parte desse impacto passa, naturalmente, por Oli Sykes.
O vocalista construiu uma relação próxima com o público brasileiro ao longo dos anos. Seja por ter residência no país, seja pelo carinho demonstrado em cada apresentação, ele parece entender como poucos artistas internacionais a energia das plateias brasileiras. Esse carisma ficou evidente durante toda a apresentação e ajudou a transformar um ótimo show em uma experiência coletiva.
Mas o mérito não foi apenas dele.
O Bring Me The Horizon mostrou que hoje é uma banda grande demais para ser vista apenas como uma atração de nicho. Seu som evoluiu, rompeu as barreiras do metalcore e passou a dialogar com diferentes públicos sem perder identidade. É uma banda que conversa com uma nova geração de fãs de rock, algo que o próprio Rock in Rio parece ter dificuldade em enxergar quando monta seus line-ups.
Talvez esse seja um dos maiores desafios do festival atualmente.
Durante muito tempo, o Rock in Rio foi referência justamente por antecipar tendências e apresentar artistas em momentos importantes de suas carreiras. Hoje, porém, a sensação é de que a organização prefere repetir fórmulas já aprovadas pelo público. A lógica parece simples: se funcionou antes, funciona de novo.
Só que festivais não crescem olhando apenas para o passado.
Eles precisam ajudar a construir o futuro.
O show do Bring Me The Horizon deixou uma impressão difícil de ignorar. Mais do que uma estreia bem-sucedida, foi uma demonstração de que existem bandas prontas para assumir protagonismo nos maiores palcos do mundo. Ignorar isso em nome da segurança talvez seja um dos motivos pelos quais parte do público passou a enxergar o Rock in Rio como um festival cada vez menos disposto a surpreender.
No fim das contas, o maior legado daquela noite talvez não tenha sido apenas o excelente show dos britânicos. Foi lembrar ao próprio Rock in Rio que renovar um festival não significa abandonar sua história. Significa, justamente, dar espaço para que novas histórias possam começar.