Se o primeiro volume de Thorgal já deixava claro que a série estava muito longe de ser apenas mais uma aventura de fantasia medieval, Thorgal: Série Clássica – Vol. 2 vem para confirmar isso de vez. Aqui, Jean Van Hamme e Grzegorz Rosinski ampliam consideravelmente o universo do personagem, levando Thorgal para lugares cada vez mais improváveis enquanto ele tenta, acima de tudo, proteger aquilo que mais importa: sua família. Terra, céu, mar, passado, mitologia, ficção científica e até viagens no tempo entram na mistura. E o mais curioso é que tudo isso funciona. Não perfeitamente, é verdade, mas com uma criatividade que continua impressionante mesmo décadas depois da publicação original.

Publicado pela Pipoca & Nanquim, o segundo volume da coleção Thorgal: Série Clássica reúne oito álbuns lançados originalmente entre 1984 e 1990: Os Arqueiros, O Reino de Qâ, Os Olhos de Tanatloc, A Cidade do Deus Perdido, Entre Terra e Luz, Aaricia, O Senhor das Montanhas e Loba. É uma quantidade considerável de material e, felizmente, a diversidade das histórias impede que a leitura se torne cansativa. Pelo contrário. A cada álbum, Van Hamme parece encontrar uma nova maneira de colocar seu protagonista em uma situação ainda mais complicada e, quando parece que Thorgal finalmente vai conseguir respirar, lá vem outra desgraça.
Um dos aspectos mais interessantes deste segundo volume é a maneira como a origem de Thorgal começa a ganhar contornos mais claros. A série passa a brincar de forma mais direta com o passado do personagem e com os mistérios envolvendo sua verdadeira identidade. Isso adiciona uma camada importante à narrativa, porque o protagonista deixa de ser apenas aquele guerreiro habilidoso inserido em aventuras fantásticas e passa a carregar um mistério pessoal que influencia diretamente sua trajetória.
Essa escolha também ajuda a explicar por que a mistura de gêneros funciona tão bem. Thorgal pode começar como uma aventura inspirada na mitologia nórdica e, de repente, apresentar elementos que parecem ter saído de uma história de ficção científica. Em outras mãos, essa combinação poderia facilmente virar uma salada de referências. Aqui, porém, Van Hamme encontra uma maneira surpreendentemente orgânica de fazer essas ideias coexistirem. O fantástico e o tecnológico não precisam disputar espaço. Eles fazem parte do mesmo universo.
E isso é uma das coisas que mais gosto na série.
Mas se existe uma personagem que muda completamente a dinâmica deste volume, ela atende pelo nome de Kriss de Valnor.
E, olha, que personagem.
Kriss é facilmente um dos grandes destaques da coleção e, para mim, encabeça justamente o melhor capítulo deste segundo volume. Ela possui uma presença completamente diferente dos demais personagens que cercam Thorgal. Não é apenas uma antagonista criada para dificultar a vida do protagonista. Kriss tem personalidade, inteligência, ambição e, principalmente, uma moral própria. Ela sabe exatamente quem é e não parece interessada em pedir desculpas por isso.
Sua relação com Thorgal também funciona porque existe uma tensão permanente entre os dois. Eles são, em muitos aspectos, opostos. Enquanto Thorgal busca preservar sua família e tenta evitar conflitos desnecessários, Kriss parece caminhar na direção contrária. Ela abraça o perigo, manipula situações e não demonstra qualquer preocupação em sujar as mãos para conseguir aquilo que deseja.
Thorgal: Série Clássica – Vol. 2 não precisa reinventar o personagem. O que ele faz é ampliar tudo aquilo que já funcionava na primeira parte da coleção.
A série continua misturando mitologia nórdica, aventura, fantasia e ficção científica com uma naturalidade que ainda impressiona. Jean Van Hamme demonstra domínio sobre os personagens e sobre a construção de seu universo, enquanto Grzegorz Rosinski transforma cada página em uma janela para esse mundo gigantesco e, muitas vezes, completamente absurdo.
E Kriss de Valnor é a cereja do bolo.
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