Só Por Uma Noite
Divulgação
Só Por Uma Noite
Divulgação

Só Por Uma Noite, um romance morno em tempos distópicos

Só Por Uma Noite, comédia romântica estrelada por Monica Barbaro (Um Completo Desconhecido) e Callum Turner (Eternidade), se passa em um mundo distópico três anos após o Congresso americano decretar que o sexo extraconjugal só é legal em uma única noite do ano. Para garantir o cumprimento da lei, toda a população é submetida a um sistema de chips biomédicos implantados nos pulsos, uma espécie de versão tecnológica dos cintos de castidade. Aos moldes de Uma Noite de Crime, as pessoas passam meses esperando pela única noite em que têm passe livre para satisfazer seus desejos. O problema é que, mesmo quando o sexo é permitido, encontrar alguém disposto a compartilhar a experiência pode não ser tão simples.

É nesse cenário que conhecemos Allie e Owen, dois solteiros em busca de algo que vá além de um encontro casual. Ao longo da noite mais aguardada dos últimos 365 dias, os dois percorrem as ruas de Manhattan enquanto seus planos cuidadosamente traçados são constantemente frustrados pela presença um do outro. Ela é uma cantora tímida que ganha a vida emprestando a voz a jingles de medicamentos, melodias que imitam descaradamente grandes sucessos pop. Ele é dono de uma pizzaria e acaba de ser deixado pela namorada (Maya Hawke), que decidiu que quer se relacionar sexualmente com outra pessoa naquele ano. Talvez, sem perceber, os dois sejam justamente daquilo que procuravam em outra pessoa.

O jogo de paquera entre Allie e Owen, assim como as provocações e os desencontros que os aproximam, funciona como o principal motor da narrativa. A química entre Barbaro e Turner é genuína, e os dois conseguem transformar personagens relativamente simples em uma dupla carismática pela qual é fácil torcer. O problema é que o roteiro de Travis Braun não consegue acompanhar o potencial de sua premissa.

O filme faz alusões interessantes a problemas muito reais do presente, como o capitalismo de vigilância patrocinado por magnatas da tecnologia, a publicidade agressiva da indústria farmacêutica e a atuação de políticos autoritários no controle dos corpos da população. No entanto, essas ideias raramente são desenvolvidas de maneira satisfatória. A distopia existe mais como uma ferramenta para criar situações absurdas e aproximar o casal protagonista do que como um universo que o filme realmente deseja investigar. Em vez de aprofundar as consequências daquele sistema ou questionar suas origens, Só Por Uma Noite prefere transformar sua própria premissa em uma espécie de parque de diversões para a comédia romântica.

Isso não seria necessariamente um problema se a sátira fosse mais afiada. O filme, porém, frequentemente introduz ideias provocadoras apenas para abandoná-las antes que possam produzir algum impacto. A sociedade retratada deveria ser perturbadora, mas quase nunca parece verdadeiramente opressiva. Também deveria ser engraçada, mas nem sempre suas situações cômicas encontram o tom certo. O resultado é uma filme que parece estar sempre prestes a dizer algo mais interessante, mas recua justamente quando poderia fazê-lo.

Essa hesitação também aparece na maneira como o filme encara o sexo. Embora a premissa dependa de uma sociedade que transforma a intimidade em um ato rigidamente regulamentado pelo Estado, a narrativa trata o sexo casual com evidente desconfiança, enquanto relacionamentos abertos são associados a culpa e insegurança. É possível interpretar essa abordagem como parte da própria sátira: talvez o filme queira mostrar como uma sociedade pode internalizar valores conservadores a ponto de aceitar o controle sobre o próprio desejo. O problema é que essa ideia nunca deixa de parecer simplesmente uma visão conservadora disfarçada de provocação.

E essa é talvez a maior frustração de Só Por Uma Noite. A premissa oferece uma oportunidade perfeita para discutir liberdade, desejo, intimidade e a tentativa de transformar o amor em algo regulamentável. Afinal, uma comédia romântica costuma partir justamente da ideia de que o amor é caótico, imprevisível e impossível de controlar. Aqui, entretanto, o sistema autoritário acaba servindo apenas como pano de fundo para uma história relativamente convencional de duas pessoas que descobrem que gostam uma da outra. O filme poderia transformar o amor em seu maior gesto de rebeldia, mostrando que nenhuma lei, chip ou autoridade é capaz de controlar aquilo que sentimos. Em vez disso, prefere manter sua provocação em uma zona confortável, onde a distopia é apenas o cenário e a rebeldia nunca ameaça de verdade o sistema.

Monica Barbaro e Callum Turner são suficientemente bons para fazer com que o romance funcione apesar de todas essas limitações. Há leveza, charme e uma química que sustenta boa parte do filme, além de uma trilha sonora pop bastante eficiente em manter o ritmo da aventura noturna. Só Por Uma Noite é uma comédia romântica simpática, sustentada por dois protagonistas carismáticos e por uma premissa genuinamente criativa, mas incapaz de explorar plenamente as possibilidades que ela mesma cria. A química entre os atores faz com que seja fácil torcer por Allie e Owen, mas não é suficiente para esconder a superficialidade de uma sátira que poderia ser muito mais ousada.

Só Por Uma Noite chega aos cinemas em 27 de agosto, com distribuição da Universal Pictures.

2.5

Regular

Só Por Uma Noite tem uma premissa criativa e é sustentado pela boa química entre Monica Barbaro e Callum Turner. Porém, explora suas boas ideias de forma superficial, resultando em uma comédia romântica simpática, mas pouco ousada, que desperdiça o potencial crítico de sua distopia.

Conteúdo relacionado

Críticas

Mais lidas