Alejandro G. Iñárritu nunca foi um cineasta particularmente interessado em sutilezas. Em Digger, ele parece transformar essa característica em método. Coescrito pelo diretor com os vencedores do Oscar Alexander Dinelaris e Nicolás Giacobone, além de Sabina Berman, o filme imagina um futuro não muito distante em que a crise climática deixou de ser uma ameaça abstrata para se tornar um espetáculo de proporções quase mitológicas. No centro dele está Digger Rockwell, interpretado por Tom Cruise. Ele é um magnata dos combustíveis fósseis que não apenas controla uma empresa, mas parece acreditar que controla a própria lógica do mundo.
Digger é uma caricatura, evidentemente. Mas é justamente aí que o filme encontra sua ambição. O diretor não está interessado em construir um retrato realista de um bilionário do petróleo, e sim em condensar numa única figura a arrogância corporativa, a influência política e a fé quase religiosa no crescimento econômico a qualquer custo. Digger é o magnata levado ao limite da abstração, um homem que olha para a catástrofe ambiental e enxerga apenas mais um problema operacional a ser resolvido.
A primeira imagem já define o tom. Digger acorda em uma mansão em decadência, acompanhado por seu gato branco e felpudo, que está morrendo e que, numa das extravagâncias mais estranhas do filme, é interpretado por um gato mecânico. Não é exatamente uma introdução discreta. Digger não parece querer construir um universo plausível, mas sim uma fábula grotesca.
No Ártico, uma perfuração encontra uma rachadura no gelo. Pequena no início, ela cresce diante dos olhos dos trabalhadores. O alerta chega a Digger, que reage com a indiferença de quem passou a vida inteira tratando qualquer limite físico como um inconveniente burocrático. Sua filosofia empresarial poderia ser resumida numa frase: perfurem e que se danem as consequências. Só que, desta vez, as consequências são grandes demais.
Anos de exploração predatória e agressão ao clima desencadeiam uma gigantesca liberação de metano. Uma plataforma de gelo quase do tamanho de Manhattan se desprende da geleira e começa a avançar em direção à Europa. O resultado é a ameaça de um tsunami, de mortes em massa e de uma catástrofe de escala global. É nesse ponto que Digger poderia se transformar num filme convencional de desastre, mas se torna algo mais curioso. Ele coloca seu vilão no centro da resposta ao desastre que ele próprio ajudou a produzir.
Digger é convocado para uma reunião de emergência na Casa Branca, diante de um presidente Compson (John Goodman) abatido e doente e de uma coleção de militares e políticos incapazes de encontrar uma resposta à altura da crise. Em vez de recuar, Digger avança. Assume o controle da sala, confronta o presidente e transforma a reunião numa extensão de sua própria lógica empresarial.
O magnata fala diante de uma assembleia global, uma espécie de ONU do futuro. Sua explicação para a persistência do petróleo é desconcertantemente simples: continuamos dependentes dele porque queremos continuar dependentes dele. Não apenas porque as empresas nos oferecem petróleo, mas porque construímos uma civilização inteira em torno dos confortos, hábitos e desejos que ele sustenta. É uma ideia muito mais perturbadora do que a caricatura do magnata ganancioso. Ela desloca parte da responsabilidade para o consumidor, para a sociedade e para a própria estrutura de desejos que sustenta o sistema. De repente, Digger deixa de perguntar quem é o vilão e passa a perguntar por que todos participamos de uma engrenagem que sabemos ser destrutiva.

O filme tem coragem para levar suas ideias até o extremo, mas raramente demonstra interesse em examiná-las com calma. Tudo precisa ser maior, mais barulhento, mais absurdo. Ele quer ser sátira, mas também quer ser denúncia. Quer provocar risadas, mas quer provocar culpa. Quer ridicularizar seus personagens e, ao mesmo tempo, utilizar suas bocas para fazer declarações absolutamente sérias sobre o futuro do planeta. O resultado é irregular.
Tom Cruise entende perfeitamente esse universo. Sob quilos de maquiagem e falando com um sotaque texano que ele alterna com impressionante naturalidade, o ator interpreta Digger como alguém cuja confiança não depende da realidade. Ele não precisa estar certo, só precisa apenas acreditar que está certo. Cruise imprime ao personagem uma energia quase atlética, movimentando-se com a convicção de um homem que jamais considerou a possibilidade de ser contrariado. É uma atuação que funciona justamente porque nunca pede desculpas pela própria extravagância.
John Goodman, por sua vez, interpreta o presidente Compson como uma presença quase espectral. Doente, debilitado e cercado por assessores, ele representa uma autoridade institucional que perdeu a capacidade de comandar a realidade. O personagem é deliberadamente grotesco, chegando a ser acometido por um insólito “câncer no cu”, uma piada que resume bem o tipo de humor do filme, algo vulgar, absurdo e completamente consciente de sua própria falta de elegância.
Sandra Hüller interpreta a meia-irmã de Digger, uma ambientalista furiosa que dirige uma empresa voltada para soluções ecológicas. O personagem funciona como contraponto ideológico ao protagonista, mas também como uma provocação: seu ativismo é apresentado como algo facilmente absorvido pelo mesmo sistema que pretende combater. A imagem é pessimista, mas coerente com a visão de mundo do filme.
Riz Ahmed tem uma função diferente. Como Ganesh, o conselheiro científico de Digger, ele é a presença mais próxima do princípio da realidade. É aquele que precisa explicar o que está acontecendo, anunciar as más notícias e lembrar aos outros personagens que certas coisas não podem ser negociadas. Seu progressivo esgotamento e sua entrega à bebida dão ao filme uma imagem particularmente amarga.
O petróleo é apenas a matéria-prima da metáfora. O verdadeiro alvo é uma civilização que sabe que está destruindo as condições de sua própria existência, mas continua agindo como se conhecimento e mudança fossem a mesma coisa. Alejandro G. Iñárritu transforma essa contradição num espetáculo deliberadamente exagerado. Às vezes, o resultado é fascinante. Em outros momentos, beira o ridículo. Mas mesmo quando o filme pesa a mão, há algo admirável em sua recusa a ser discreto. Digger não quer convencer por sutileza. Quer gritar. E talvez seja justamente esse o problema: quando tudo é gritado, até mesmo as ideias mais inquietantes começam a soar como mais um ruído no fim do mundo.
É difícil avançar muito além disso sem entrar em território de spoilers, porque a própria premissa já revela uma parte importante da experiência. Melhor, portanto, deixar que o filme conduza o espectador até suas conclusões.
Digger chega aos cinemas brasileiros em 1º de outubro e terá exibições antecipadas especiais que acontecerão dia 30 de setembro, com distribuição da Warner Bros. Pictures.
Bom
Digger transforma a crise climática em uma sátira apocalíptica, exagerada e deliberadamente provocadora, tendo Tom Cruise como um magnata do petróleo tão poderoso quanto caricatural.
É um filme que está sempre à favor do sermão e do espetáculo, resultando em algo ousado, embora frequentemente carente de sutileza.