Quem nunca ouviu falar que cinema brasileiro não vale nada? Infelizmente, a ideia de que nenhum profissional brasileiro (ou até mesmo latino-americano no geral) produz material audiovisual que preste, e o que é verdadeiramente bom advém unica e exclusivamente de estúdios estrangeiros (de preferência norte-americanos ou europeus) ainda é muito disseminada. Por inúmeros motivos que renderiam verdadeiras dissertações de mestrado, o brasileiro costuma associar o seu próprio cinema somente às comédias globais ou pornochanchadas moderninhas.

Felizmente, a cada lançamento de cada curta/longa, fica mais evidente que temos talento de sobra para o audiovisual em terras brasileiras, e a animação não poderia ser diferente. Em Tito e os Pássaros, dos diretores Gustavo Steinberg, Gabriel Bitar e André Catoto Dias, testemunhamos a magia e a beleza típicas das animações tocarem assuntos profundos e complexos dignos de chacoalhar a cabeça de adultos crescidos.

Tito (Pedro Henrique) é um garotinho curioso e inteligente, que vive com a mãe e ajuda o pai (Matheus Nachtergaele) em seus inventos. Após um acidente, seu pai vai embora de casa e o deixa somente com a mãe, marcando a vida do menino. Quando toda a cidade começa a sofrer com uma doença paralisante causada pelo medo, ele se une aos seus amigos Sarah e Buiú para achar a cura do mal através do sons emitidos pelos pássaros.

 

O longa foi indicado ao Annie Awards, pré-indicado ao Oscar e vencedor do prêmio de melhor animação no Children’s Film Festival Seattle.

 

Com um discurso extremamente atual e relevante, o longa aposta na crítica à cultura do medo e do discurso sensacionalista como catalisadores da epidemia do “surto”, alimentada por jornais televisivos. Os cenários, sempre expondo uma megalópole expressionista amedrontadora com cores mais frias, reforçam ainda mais o senso de constante pavor que submete toda a população. Para os que vivem em grandes cidades brasileiras, nada mais verossímil.

Mesmo trabalhando assuntos pesados que provocam a reflexão, o longa jamais abandona o ritmo mais leve e fabular típico das obras destinadas aos pequenos e entrega também uma aventura leve e divertida, com sobressaltos, enfrentamento de figuras vilanescas e partes cômicas. É uma obra completa.

Com pouca exibição em cinemas brasileiros, Tito e os Pássaros nos oferece uma experiência de reflexão sobre o medo coletivo de viver e deixar viver (alimentado por grandes mídias e corroborado por figuras de autoridade), com o encantamento que só as animações têm. Deve ser visto por todos.

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