Lançado em dezembro de 1993, A Lista de Schindler, dirigido por Steven Spielberg, marcou a história do cinema. Vencedor de 7 estatuetas do Oscar (incluindo as de Melhor Filme e Melhor Diretor), o filme emocionou público e crítica por sua linguagem cinematográfica rica e, especialmente, por contar uma história de luta e esperança em uma época em que o caos e o ódio reinavam soberanos.

O longa conta a história de Oskar Schindler (Liam Neeson), industrial alemão que, com seu poder, dinheiro e conexões, salvou a vida de mais de 1000 judeus dos campos de extermínio e concentração, empregando-os em fábricas de cerâmicas, objetos esmaltados e munições (foi descoberto depois que o empresário era sabotador do exército nazista, fabricando propositalmente munições e granadas defeituosas).

Figura complexa, contraditória e um tanto misteriosa, Oskar Schindler por si só era um indivíduo cheio de camadas. No livro que inspirou a obra cinematográfica de Spielberg (escrito por Thomas Keneally), o homem que nos é apresentado é uma figura muito bem quista no Partido Nazista, adepto à jogatina, bebidas e mulheres. Sempre em busca de mais lucro para seus negócios a fim de aumentar o próprio patrimônio, ele constrói uma rede de conexões e se une ao “status quo” em benefício próprio. Precipitadamente, poderíamos considera-lo uma figura um tanto desprezível. Na obra de Spielberg, Liam Neeson encarna perfeitamente o carisma e sociabilidade constantemente atribuídas a Oskar, características comentadas tanto em biografias quanto em relatos de sobreviventes e pessoas próximas a ele. A partir do momento que ele descobre o destino que aguarda a população judia na Alemanha do Terceiro Reich, ele inicia uma batalha secreta para salvar o máximo de pessoas que conseguir, colocando em risco sua própria vida.

Tendo nas próprias mãos um material tão rico, Steven Spielberg poderia ter feito uma cinebiografia convencional ou um docudrama lacrimoso, se mantendo em uma zona mais segura explorando o lado positivo e esperançoso da vida de um dos heróis do Holocausto. Porém, na obra de 93, ele escolhe abordar a história de Schindler concomitantemente às barbaridades sofridas pela população judaica, dando protagonismo aos sofrimentos das vítimas e à crueldade perpetrada pelo regime nazista. O personagem Amon Goeth, interpretado pelo brilhante Ralph Fiennes, é o retrato da mais simples naturalidade do ódio e da tortura.

Apesar do protagonismo ser teoricamente de Schindler, há um foco maior na miserabilidade da vida humana promovida pelo estado alemão. Afinal, heróis somente existem em contextos de extrema indignidade. E é essa indignidade que nos é exposta.

 

Liam Neeson foi indicado ao Oscar de Melhor Ator por seu papel em A Lista de Schindler.

 

Um dos elementos mais marcantes na película é a escolha pelo preto e branco, o que reforça ainda mais a melancolia e o sentimento de desalento que permeia toda a obra. Novamente, o que se procura enfatizar aqui não é uma celebração da “bondade” de Schindler ou de uma “história bela” no meio do caos da Segunda Guerra Mundial, mas sim de um respiro de vida no mais completo desespero. Em uma das cenas mais marcantes do longa, enquanto oficiais nazistas riem do sofrimento de judeus presos em vagões de trens que iam para campos de extermínio, morrendo de sede e fome, Oskar pega uma mangueira e joga água por cima dos vagões e nas janelas, para que os prisioneiros pudessem aliviar a própria sede e o calor. Para enganar os oficiais, fingia estar brincando com os judeus, jogando-lhes água para acabar com a sede, mas perpetuar o sofrimento. Discretamente, simulando ódio e a tortura, ele alivia a dor alheia (Oskar era um exímio manipulador de pessoas, que utilizou seu dom para o bem). Uma cena ímpar que simboliza muito bem seu papel no filme e na própria história.

Em entrevista a NBC News em dezembro de 2018, Spielberg mencionou a importância de sua obra mais emblemática nos dias atuais, devida às crescentes manifestações de intolerância perpetradas em diversos países do mundo: “O ódio individual é uma coisa terrível, mas, quando o ódio coletivo se organiza, vem o genocídio. Então, esse ódio não é algo que possa ser menosprezado. Temos que levá-lo mais a sério hoje do que o levamos na geração passada”, disse ele. Vinte e cinco anos depois de seu lançamento, A Lista de Schindler ainda tem muito a dizer não somente como obra exemplar da sétima arte, mas como retrato do mais profundo estado de incivilidade humana, que sempre devemos lembrar para nunca mais repetir.

A reestreia do filme (em uma versão remasterizada) será no dia 1 de maio.

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