Filmes de guerra ou que envolvem conflitos políticos tendem a ser imponentes: tracking shots recorrentes, uso de câmeras abertas para mostrar cenários de destruição ou gabinetes políticos nos quais grandes decisões sobre o destino das pessoas são tomadas, e cenas de ação impressionantes. A abordagem geralmente é grandiosa pois o contexto histórico por trás de tudo exige isso. Em Guerra Fria, no entanto, apesar do majestoso trabalho de fotografia, montagem e atuação do cast, o diretor polonês Pawel Pawlikowski optou por mostrar um retrato íntimo de um relacionamento amoroso cercado pelos conflitos pessoais entre os próprios protagonistas e o mal estar pós-segunda guerra.

Wiktor (Tomask Kot) é um pianista e professor experiente, que trabalha em uma escola polonesa escolhendo e treinando novos talentos para a música e a dança. Ao se apaixonar por Zula (Joanna Kulig), uma aluna talentosa de fortes sentimentos e personalidade livre, passamos a testemunhar o surgimento de um amor que luta para se manter vivo diante das incertezas políticas e do embate de personalidades dos personagens.

Aqui o que demanda ser observado é a forma. O amor entre Wiktor e Zula é genuíno, mas a forma como ele é expressado é o que faz ser diferente de um amor típico de filme dramático e romântico. Em um período de 15 anos, as idas e vindas do casal trazem os sabores de uma vida que vai se amargando de formas diferentes. No caso de Wiktor, pelo exílio e ânsia de construir uma vida mais tradicional; no de Zula, pela necessidade de buscar novos caminhos e desabrochar o próprio talento. Vemos dois amantes perdidamente apaixonados um pelo outro se repelirem devido à total desarmonia.

 

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Os momentos típicos de carinho de um casal romântico são poucos. Aqui, o amor reside nos detalhes: um olhar carregado de ternura, uma súplica por ajuda, um lampejo de cíumes

 

Além da trilha-sonora impecável (com músicas francesas e apresentações locais polonesas), o trabalho de fotografia e a escolha monocromática do filme agregam não somente à estética de brilhar os olhos, mas ao peso de um período histórico turbulento e de um amor impossível de ser consumado por completo. O trabalho da dupla impressiona, com especial destaque à atriz que vive Zula, Joanna Kulig. É nela que exergamos as maiores dualidades do filme, um grande sentimento de renovação e esperança, mas também medo e desespero pelo que está por vir, típicos da época.

Indicado ao prêmio de Melhor filme estrangeiro, Guerra fria narra um amor que sobrevive até onde é humanamente possível em meio ao caos de quem o sente. O período político serve como plano de fundo mais que apropriado para um romance que não vive de constâncias, e sim de incertezas.

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