Quando o assunto é produção cinematográfica de qualidade, a Coréia do Sul é refência no outro lado do globo. Com obras como Oldboy (2003), The Chaser: O Caçador (2009) e Invasão Zumbi (2016), os cineastas sul-coreanos têm mostrado apreço especial pela produção de longas dos gêneros de suspense, terror e mistério, e os fazem sempre muito bem. Em 2018, com o filme Em chamas, o diretor Chang-Dong Lee criou uma narrativa perturbadora e inquietante e, como também já é parte do protocolo de cinema do país, envolvendo subtextos críticos relevantes.

Jongsu (Yoo Ah-in) é um rapaz de origem humilde que sonha em ser escritor. Quando ele retoma uma amizade antiga com a jovem Haemi (Jung Jong-seo), ela viaja para a África à turismo, deixando-o encarregado de vigiar sua casa e cuidar de seu animal de estimação. Ao retornar, ela traz consigo Bem (Steven Yeun, famoso por interpretar o personagem Glenn, de The Walking Dead), um rapaz de classe alta cativante e sedutor. Enquanto presenciamos uma aparente relação amigável entre os três se consolidar, a inquietante desconfiança e curiosidade do público acerca de Bem cresce ainda mais depois de uma série de acontecimentos estranhos.

Um dos pontos mais fortes de Em chamas é a sua quantidade de camadas e intepretações possíveis. O roteiro não passa a mão na cabeça do expectador em nenhum momento, oferecendo pequenas informações que podem ajudar cada um a desenvolver uma teoria mais plausível. “Quais são as intenções do personagem Ben?” “As memórias de Haemi sobre sua infância são confiáveis?” “A perspectiva de Jongsu (que conduz todo o longa) sobre a relação de Haemi e Ben está de acordo com a realidade?” Tudo isso é posto nas mãos do espectador, e somente ele irá desenvolver um fio condutor que leve à uma das diversas explicações possiveis.

Além da atmosfera enervante de um thriller psicológico de primeira linha, a fotografia é grandiosa. Ao explorar locações diferentes para dar maior ênfase na diferenciação de classe (algo muito presente na realidade da Coréia do Sul e consequentemente, no cinema do país), nos deparamos com ambientações rurais belíssimas em câmera aberta e espaços luxuosos com estética ostensiva e claustrofóbica. Todos os ambientes devem ser observados com cautela a fim de desenvolvermos nossos pontos de vista.

 

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O longa investe em interpretações diferentes mas igualmente simbólicas. Com um cast comprometido com a ambiguidade do projeto, jamais temos certeza total do que realmente os personagens almejam conseguir e o que querem esconder.

 

O ator Yoo Ah-in interpreta o personagem que guia nossos olhos por todo o longa. Sua personalidade reservada e curiosa aguça o público a querer mais daquilo que  é oferecido e é através dele que avançamos lentamente pela narrativa (que tem um caminhar vagaroso, isso é fato). Já o trabalho da atriz Jung Jong-seo é carregado de sutilezas e incertezas. Totalmente indefesa, ela se arma com uma suposta segurança que desaba diante da fragilidade de sua personalidade. Entretanto, o show de atuação aqui é do ator Steven Yeun. Mesmo diante de uma postura convidativa e charmosa do personagem, ele transmite ao expectador um desassossego que perturba os sentidos. Seu olhar, o caminhar, os sorrisos, tudo passa a ter uma conotação extremamente intimidante. É um personagem composto para manter o público refém com muito pouco.

Totalmente subestimado pelo Oscar 2019 (o longa não teve nem uma indicação na categoria Melhor Filme Estrangeiro), Em Chamas é um desses suspenses raros que deixa o dever de refletir sobre a trama unicamente nas mãos do público. E isso é sempre bem-vindo em uma era que filmes mastigam tudo para nós.

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