Há quem diga que sequências são injustificáveis. Claro, aqueles que acreditam nessa sentença possuem pontos relevantes e bastante pertinentes, mas o outro lado da moeda também tem argumentos bastante válidos. A falta de criatividade na indústria cinematográfica é pauta recorrente para qualquer consumidor. Basta olhar as diversas continuações de clássicos e títulos que acreditávamos ter sua história encerrada. No caso de Toy Story, a Pixar mostrou que, ao jogar essa moeda para cima, há chances de ela cair de um lado sem inspiração e que não honre o legado dos títulos anteriores, como foi em Toy Story 4. Mas, ao dobrar a aposta e lançar a moeda ao ar novamente, o estúdio encontrou uma história que resgata a essência dessa franquia: a criatividade e o amor que atravessam gerações.
Ao trazer Jessie como protagonista e colocar suas duas maiores figuras, Woody e Buzz, como secundários, a Pixar estabelece um paralelo entre a trajetória da personagem e seu próprio momento dentro da indústria cinematográfica: como se manter relevante em uma geração marcada pela nostalgia, mas que exige renovação constante, sem perder a essência que a transformou em um fenômeno cultural.
A história começa com Bonnie, agora com oito anos, enfrentando um desafio que muitos de nós já encaramos e sabemos o quão difícil pode ser: fazer amigos. Mas, para a garota, essa missão se torna ainda mais complicada, pois ela é uma das poucas crianças do bairro que ainda brinca com brinquedos — diferente das outras, que já foram consumidas pela era digital e tecnológica. Jessie, Buzz e a turma percebem esse impasse e fazem de tudo para que sua criança crie novos laços. Porém, ao verem o sofrimento da filha, os pais de Bonnie presenteiam a garota com uma Lilypad (Maísa), um tablet capaz de criar amizades virtuais e oferecer milhares de outras atividades. Com a chegada desse novo “brinquedo”, Bonnie se vê completamente viciada e alienada, deixando de lado Jessie, que, por conta dos traumas relacionados ao abandono de sua primeira dona, se desespera para reconquistar sua criança.
Diferente de seu antecessor, Toy Story 5 tem um motivo para existir e aborda uma pauta bastante pertinente em seu roteiro bem amarrado. É fato que, antes mesmo de aprenderem a falar, muitas crianças já estão tomadas por aparelhos tecnológicos que roubam sua atenção e as afastam da magia da infância: a criatividade inesgotável. Portanto, o filme dirigido por Andrew Stanton chega com mensagens valiosas — e isso não é à toa. Afinal, Stanton também foi responsável por obras atemporais como Wall-E e Procurando Nemo, que, até os dias de hoje, traduzem muito bem os tempos em que vivemos.
A chegada de novos personagens dá um bom respiro ao filme, apesar de sentirmos falta de mais participações do Sr. Cabeça de Batata, Porquinho, Rex, entre outros. Os destaques, além do protagonismo brilhante de Jessie, são Buzz, que ganha uma roupagem mais romântica e se torna um companheiro da cowboy, e Rolinho (Rafael Infante), personagem que chega à trama para ser o novo alívio cômico. Já Woody, apesar de mais apagado, ainda tem seus momentos engraçados e clássicos que nos fazem lembrar por que somos tão apegados a ele.
Por sinal, é preciso destacar que a maior força do filme está justamente em ter passado o protagonismo para Jessie. São mais de vinte anos vendo Buzz e Woody como protagonistas insubstituíveis, mas, depois de duas décadas, é difícil imaginar o que esses dois ainda poderiam contar de diferente. Jessie surge, portanto, como a nova cara da franquia, e não é à toa. Desde o segundo filme já sabemos o tamanho do potencial que ela poderia entregar, seja por sua personalidade forte ou por sua história extremamente triste e emocionante. Aqui, a cowboy traz o fôlego necessário para contar uma história sobre pertencimento e sobre o valor que a infância e a imaginação possuem para as crianças. Não é exagero dizer que, se esse filme se tornar um clássico, pode colocar na conta dela.
Criar filhos hoje em dia deve ser uma das missões mais difíceis. Infâncias são roubadas e substituídas artificialmente pela tecnologia, que usa quaisquer métodos possíveis para manter a atenção de mentes que ainda estão em formação. Porém, Toy Story 5 chega em um momento cirúrgico, com rolinhos de papel divertidos, uma vaqueira determinada e cinquenta Buzz Lightyears em uma missão inesperada. Tudo isso acompanhado de soluções visuais criativas e emocionantes, além de uma trilha sonora que aquece qualquer coração.
Seja por ironia do destino, a Pixar se reencontra em 2026 com seu maior título para lembrar aquilo que fez esse estúdio ser tão amado mundialmente: sua inteligência emocional e o lembrete, para adultos e crianças, de que vale a pena sonhar até os dias de hoje.
‘Toy Story 5’ já está disponível em todos os cinemas do Brasil.
MUITO BOM
Seja por ironia do destino, a Pixar se reencontra em 2026 com seu maior título para lembrar aquilo que fez esse estúdio ser tão amado mundialmente: sua inteligência emocional e o lembrete, para adultos e crianças, de que vale a pena sonhar até os dias de hoje.