Authentic Games no Império Desconectado
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Authentic Games no Império Desconectado
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Conversamos com Bruno Murtinho, diretor de Authentic Games no Império Desconectado

Authentic Games no Império Desconectado transporta a linguagem gamer para as telonas em uma aventura que mistura animação e live-action. Estrelado por Marco Túlio, criador do Authentic Games, um dos maiores fenômenos do entretenimento digital infantil no Brasil, com mais de 20 milhões de seguidores e bilhões de visualizações, a trama mostra que o Imperador de um mundo off-line (Manolo Rey), decide sequestrar o fenômeno Marco Túlio, mas seu plano maligno dá errado e leva a Família Craft por engano. A partir daí, TT assume a forma de Authentic, personagem inspirado em seu próprio avatar, e inicia uma jornada para resgatar seus aliados em um universo repleto de elementos típicos dos jogos, com fases, desafios e transformação de personagens.

Dirigido por Bruno Murtinho, o elenco do filme reúne nomes consagrados do mundo gamer, entre eles Andrei Soares (Spok), Cauê Bueno (Cauê), o cachorro Shake, além da dublagem de Natan Lopes (do canal Natan Por Aí) na voz do Filho do Cientista Chefe. A atriz Thay Bergamim também estrela a produção que promete diversão e adrenalina para toda a família.

No dia 23 de abril, conversamos com Bruno Murtinho, que falou sobre ter escrito e dirigido o filme. Confira:

Poltrona Nerd: Bruno, você é um diretor que tem experiência com publicidade e com vídeos relacionados à música, certo? Já fez videoclipes, documentários. E agora, esse filme que é uma mistura de live action com animação. Como foi trabalhar em uma coisa que é diferente dos seus trabalhos anteriores?

Bruno Murtinho: O Salto, do Rappa, que foi um clipe que me deu o [prêmio de] melhor diretor do VMB, um clipe com muitas indicações e que ficou muito famoso. Naquela época, eu já brincava com animação e com CGI. O que aconteceu com o Authentic, e também na publicidade é que você acaba sempre tendo que fazer alguma coisa de CGI, dependendo do cliente, dependendo do roteiro. Mais ou menos, entendeu? Trinta segundinhos ali, é tudo mais simples, é tudo mais tranquilo. Quando você tem um filme de uma hora quase de animação, a coisa, de fato, fica mais trabalhosa e, ao mesmo tempo, mais delicada no sentido da qualidade, no sentido da continuidade, no sentido da continuidade da animação, da textura da animação. É um processo muito, muito impressionante, tanto que você faz pouquíssima animação no Brasil. É uma coisa, de fato, de mercado já consolidado.

A gente tem que ser meio maluco para querer fazer animação no Brasil. A gente tem que ser meio pirado, porque você imagina que o nosso filme tem 1% do orçamento do filme do Mario. Mas a gente é corajoso aqui no Brasil, isso é muito bom. O cinema brasileiro é um cinema muito corajoso. Ele não fica acanhado diante do que o mercado permite ou não. Ele se sustenta na raça mesmo. Eu que já vinha da animação, de clipes também e da publicidade, é uma transição muito tranquila, na verdade.

Na verdade, enquanto eu escrevia o roteiro, me deu muito trabalho. Na hora da produção ali, eu já sabia bem o que eu queria. Mas é muito curioso você sentar para escrever uma história… Eu tinha acabado de escrever um longa live-action. E sentar para escrever um longa de animação, no primeiro dia que eu sentei, eu falei assim, eu posso tudo. Eu posso o que eu quiser. Se eu quiser transformar esse boneco nisso, eu posso. É claro que no live-action também você pode, mas o live-action tem um compromisso, um outro compromisso com a narrativa. Enquanto a animação é muito liberada. Você bota um monte de balão numa casa, a casa sobe, que é o filme Up, e ninguém fica falando assim,gente, isso não é possível”.

A animação já tem esse compromisso com o sonho. Então quando você está adiante de escrever um roteiro de animação, aí é que a coisa fica… Você tem que, de fato, dar uma pirada para escrever, porque senão você vai ficar no geral um filme comum.

Poltrona Nerd: Esse processo de se fazer uma animação costuma ser bem mais longo do que um filme live-action, né? Quanto tempo demorou para sair o filme do Authentic do papel e como foram feitas essas animações?

Bruno Murtinho: Olha, do papel foi muito tranquilo. O problema foi a data. Em novembro ou outubro de 2019, a Imagem [Filmes] me contrata para escrever o roteiro. Antes do Covid. Tem uma parte do filme que você vai ver que tem vírus. Os vírus atacam os personagens, o Authentic. E eu tinha escrito que tinha um vírus no mundo e que as pessoas ficaram muito tempo dentro de casa sem sair. Eu tinha escrito isso no roteiro. Quando aconteceu a Covid, cinco meses depois, me ligaram e falaram assim,alguém te contou que ia rolar isso antes?”

Eu falei que não. Isso aconteceu com uma escritora também. Algumas pessoas, de alguma maneira, sentiram ali alguma coisa que podia estar acontecendo. Então, a gente escreve, eu entrego a primeira versão do roteiro dia 20 de março de 2020. Eu estava na Califórnia. Eu tinha acabado de escrever o filme na Califórnia e tive que voltar correndo para o Brasil porque tinha essa conversa de fechar o espaço aéreo americano. O filme demorou, mas a gente tem que lembrar que o cinema no mundo parou três, quatro anos. Então, se a gente for contar, na verdade, o tempo de trabalho nosso, a gente teve aí uns três anos e meio muito puxados. Durante o Covid, continuamos trabalhando em negociações.

Tinha uma conversa para a gente fazer a animação na Índia, mas aí o Covid foi muito pesado na Índia. A gente voltou para o Brasil e aí começa a conversa. E os cinemas voltando devagarzinho. Então, assim, tirando os anos do Covid ali onde os cinemas estavam fechados, eu acho que a gente teve uns três anos, três anos e meio de filme, o que não é nem tão tão puxado para uma animação.

Tem que lembrar que o nosso filme também tem algumas especificidades. Ele tem uma hora e cinco de duração. Ele não é aquele filme clássico de uma hora e meia. E eu acho que isso foi um grande acerto da Imagem, porque o tempo de tolerância das pessoas, o tempo da impaciência, o tempo de você ficar dentro de uma experiência, infelizmente ou felizmente, não cabe a mim julgar. Para mim, é uma pena, mas as pessoas veem um vídeo no YouTube de três minutos e se não for algo que ela esteja muito interessada, ela vai parar ali, sabe? Então, assim, com as crianças, nossa, ainda é mais desafiador esse processo porque elas são muito transparentes nos sentimentos. Então, se uma criança não gosta, ela fala que não gosta, levanta e vai embora. Em teatro infantil, eu vi isso acontecer. Então, assim, pensando no tempo do filme de uma hora, três anos e meio, quatro anos, talvez, é um bom tempo de produção.

Poltrona Nerd:  Realmente, levando em consideração que o público alvo desse filme é um público que já nasceu com a existência desses vídeos rápidos, um filme mais curto faz muito sentido.

Bruno Murtinho: Isso que você falou agora foi uma questão que eu fiquei muito, muito, muito preocupado estudando porque uma coisa é entregar o roteiro em março de 2020. O mundo entra no lockdown onde as telas foram vistas ad nauseam, até o limite, e vem ainda nesse processo, no meio da pandemia, vem com muita força, se destaca o TikTok, que eram vídeos muito rápidos. Caramba, como é que a gente vai se comunicar com essa criançada do TikTok? Aí eu falei, vamos fazer um filme que não flerte com esse universo apenas, entendeu? Vamos fazer um filme que contemple quem gosta de cinema, quem gosta de TikTok, um filme que contemple as crianças, que contemple os pais. Esse foi o maior desafio do filme, na verdade.

Poltrona Nerd: Quanto de contato você teve com o Marco Túlio na hora de escrever o roteiro? Ele está acostumado com essa linguagem da internet, que é mais rápida. Vocês escreveram algo juntos? Como foi esse processo?

Bruno Murtinho: Meu encontro com o Marco Túlio começa quando eu sou convidado pela Sony Music para dirigir a gravação de um show dele. Em 2016 ou 2017. E eu fiquei chocado com o nível de adoração das crianças. E com o nível de adoração dos pais das crianças. Também. Ele é um cara do bem, um menino super do bem, falando para as crianças escovarem os dentes, fazerem o dever de casa, amarem os pais. Que garoto do bem. Que garoto bacana. E aí eu tinha uma ideia pra esse filme. Fui até a Sony, levei a ideia para a Sony. E a Sony falou, cara, a gente adorou a ideia. Daí eu falei, vamos captar agora para o desenvolvimento.

A Patricia Chamon, da Rubi Filmes, me contactou e falou, olha, me conta aí o filme que você tem. Eu contei sobre o filme e ela adorou. E eu falei, mas é uma animação, você tem certeza? Ela falou que sim. Eu fui para a Minas Gerais várias vezes. Conheci a família do Marco Túlio. Conheci o Marco Túlio. O Cris, que era a empresária dele na época, super bacana também. E foi todo mundo muito acolhedor comigo e com o projeto. Eles ficaram de braços abertos. Então eu escrevo uma sinopse, eu escrevo um argumento, mostro para o Marco, o Marco curte a ideia, eu volto para casa, escrevo o filme todo. Mas aí eu tinha que adaptar o filme para uma linguagem de games que eu não tinha embocadura. Então, todos os diálogos do filme foram revisados pelo Marco, pelo Cris, por outras pessoas também. Outros atores do filme também. Para que a gente pudesse ter esse diálogo mais direto e mais verossimilhante. Um diálogo que falasse de fato e que ressoasse nas crianças e no público dele, do Marco Túlio e de games também. Era uma coisa que eu não tinha tanto contato. Mas foi incrível o processo com ele.

Na verdade, isso é interessante porque eu fui ator muitos anos da minha vida. Tive contrato com a Globo, fiz novelas quando eu era novinho. Fiz muitos anos de teatro. Então, essa coisa da embocadura do texto, para mim, é fundamental que esteja confortável nas pessoas. Então, eu falava,Marco, escrevi isso aqui. Como é que você falaria essa frase?” Aí ele falou, “falaria assim”. Isso com todos os diálogos do filme em que eu estava me comunicando com os personagens do mundo do Authentic Games. Claro que tem o Imperador, que aí sim, eu escrevi como o Imperador. Meio que um Darth Vader. E outros personagens adultos, mas foi incrível esse trabalho com eles.

As gírias com o Natan foi por aí também. Quando eu fui fazer a dublagem com o Natan, que faz o Filho do Cientista, que também é um grande YouTuber, um super gigante do YouTube, o Natan falou assim, “cara, eu uso essa gíria aqui”.  Eu falei, “hã? Nunca ouvi”. Ele falou, “não? É muito maneiro, pode botar”. Aí, eu fui vendo essas coisas das gírias que eu com a minha idade não tinha e que esses jovens todos aí foram me encaminhando para esse linguajar mais da juventude mesmo, da criança e do adolescente.

Poltrona Nerd: Como foi trabalhar com essa galera que é da internet, do YouTube, atuando e fazendo um trabalho de voz? Eles estão acostumados com a câmera, mas não com a atuação, né? Deram trabalho ou não?

Bruno Murtinho: Eles me surpreenderam muito positivamente. A gente teve uma galera trabalhando o elenco, ensaiando com eles, em conexão comigo direto, até o dia que a gente foi para o estúdio e aí eu fui dirigindo o estúdio, cada um, cada pessoa. A gente teve uma sessão gigante de dublagem, depois voltei para a animação, fizemos uma segunda sessão de dublagem, porque durante a animação também a gente vai entendendo que as cenas às vezes se modificam. Então, o que eu tinha escrito e que tinham dublado, já não cabia mais. Então, foram duas sessões de dublagem e como eu sou muito cuidadoso com a direção de ator, eu fico muito atento à dublagem e na hora do set também, de dirigirmos. Eles já faziam vídeos no YouTube, já estavam acostumados com câmera. É uma outra geração. Na minha época, alguém tem uma câmera de VHS era alguma coisa muito fora da curva. Muito fora da curva. Hoje em dia, com o telefone… tem um estudo que falou que uma criança de um ano e meio tem mais fotos do que uma pessoa nascida na década de 60.

A imagem, o interesse por imagem, por vídeo, por câmera, por dirigir, por fazer vídeo, por criar vídeo… eu fico brincando que nós temos hoje milhões de diretores no TikTok trabalhando. Isso para o cinema é muito interessante. Isso para a linguagem audiovisual é muito interessante. Então, isso foi um desafio que eu tinha receio um pouco de como eles viriam crus para o set. E foi um ótimo trabalho. Super bons, super disciplinados. O clima super tranquilo. Foi muito bacana.

Poltrona Nerd: A gente sabe que levar as pessoas para o cinema no Brasil é um negócio um pouco difícil. Quais são suas expectativas para o lançamento do filme? 

Bruno Murtinho: Quando o Barbie chegou no Brasil e eu vi a bilheteria, eu falei, pronto, o Barbie trouxe de volta o público para o cinema. Logo depois de Barbie, veio o Oppenheimer. Ótimo, trouxe o público para o cinema. Aí vieram os filme da Marvel e trouxeram o público para o cinema. E a gente tem no Brasil uma coisa maravilhosa acontecendo com O Agente Secreto e com o Ainda Estou Aqui, que é o brasileiro voltando ao cinema. É muito interessante esse momento. Eu não gosto de ficar na expectativa do que vai acontecer. Eu aprendi muito novo isso. Você faz um trabalho e entrega. Já não é mais com você. Você podia fazer de melhor, você fez. Agora tem uma série de coisas em jogo, uma série de coisas ao redor que vão fazer com que esse filme, de fato, funcione ou não.

O filme foi feito para ser um filme de plateias grandes, por conta, claro, desses YouTubers e por conta também da agilidade da história. Eu acho que o filme está descendo muito bem, como a gente fala. É uma hora de filme que passa 20 minutos. Eu fiquei muito impressionado quando eu vi o corte. Eu falei, nossa, caramba. É um filme com muita ação. Tem várias coisas bacanas, sabe? O momento do cinema brasileiro, o fato desses YouTubers também terem um público cativo muito grande, o fato de ser uma animação 100% feita no Brasil, sem I.A., o fato de ser um filme feito, as vozes, sem I.A., nenhuma I.A. nas vozes, nenhuma I.A. na animação, nenhuma I.A. na trilha sonora.

Então é um filme feito por pessoas, para pessoas, para crianças, para jovens, para adultos. Eu acho que as crianças que vão chegar, talvez mais através do Nathan e do Minecraft com o Marco Túlio, vão chegar e vão encontrar um produto muito bacana. Os jovens que têm saudade do Marco Túlio vão poder assistir o filme também, porque é uma geração que já cresceu. Vão poder se encontrar ali. Acho que os pais que também cresceram com o Marco Túlio, as famílias que cresceram, porque o Marco tinha isso. Ele não fazia um conteúdo para criança. O Marco fazia um conteúdo para a família inteira. Então eu tenho uma expectativa boa. Nada que me faça ficar pirado, enlouquecido. Eu acho que a gente tem que fazer, tem que entregar para o universo as coisas que a gente faz.

Poltrona Nerd: Teve algum momento engraçado ou alguma história de bastidor que você acha que é legal compartilhar com a gente?

Bruno Murtinho: Teve um momento que foi curioso. Foram vários momentos. Na verdade, aconteceu uma coisa muito curiosa. O filme é feito dentro de uma técnica de mockup. Então, eu me visto com uma roupa com vários pontos e eu vou fazendo os personagens. Como eu escrevi todos os personagens, eu sabia o que todos falavam. Eu sabia da intenção, eu sabia do momento, eu sabia do conceito da cena, eu sabia do objetivo da cena, eu sabia do que eu queria de cada ator naquela cena. Então foi muito curioso.Tinha alguns dias que eu estava trabalhando com um ator, mas eu ia para o estúdio e eu vestia aquela roupa e eu fazia o imperador, eu fazia o Authentic, fazia o Spock, fazia o Cauê, fazia o Filho do Cientista, fazia os soldados. Eu fazia tudo, porque eu sou da cidade de São Paulo. O estúdio era em São Paulo, em Alphaville. Eu sou carioca, mas moro em São Paulo. O Marco Tullio mora em Curitiba, fulano mora no Paraná, o outro em Belo Horizonte, o Natan em Floripa. Imagina trazer todo mundo para São Paulo para ficar quatro meses com essa roupa? Ia ser uma loucura, ia ter que parar a vida. Era um orçamento brutal. Então foi muito curioso isso, eu ir para lá e ter que trabalhar junto com a minha direção do gestual, com as vozes deles. Então, as vezes ficava meio esquizofrênico o processo. Estava ouvindo uma voz que não era minha e estava trabalhando corporalmente para uma voz que não era minha.

Em outros momentos, eu fazia o imperador completamente como se eu fosse o imperador mesmo. Então, foi um exercício muito interessante do ponto de vista de direção. Porque uma coisa é você dirigir o ator. Olha, você levanta agora, caminha até a geladeira, abre a geladeira, depois pega alguma coisa, senta na mesa. Isso é um tipo de direção, isso é uma coisa. Agora, você está dirigindo e você está fazendo uma coisa com o seu corpo e depois você vê os personagens animados no telão. Isso é muito curioso. Então, o processo todo foi muito legal. E um processo muito interessante que eu acho que o filme teve foi na dublagem, a presença do Manolo Rey, que é um grande dublador. Um grande dublador. Quando a gente teve o Manolo no estúdio, todo mundo parava, sabe? Todos os meninos paravam para ver o Manolo e a maneira como ele fazia. E eu pedia várias versões diferentes e ele vinha com outras versões ainda, sabe? Então, eu sinto que o Manolo também é um asset, é um grande ganho desse filme.

Authentic Games no Império Desconectado estreia em 14 de maio exclusivamente nos cinemas, com distribuição da Imagem Filmes.

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