Há algo de profundamente brasileiro — e, ao mesmo tempo, universal — na trajetória dos Raimundos. Em Andar na Pedra: A História do Raimundos, série documental do Globoplay dirigida por Daniel Ferro, essa dualidade se transforma em um estudo quase clínico sobre ascensão, identidade e autodestruição. O que poderia facilmente se resumir a um compilado nostálgico sobre uma das bandas mais irreverentes dos anos 90 se revela, na verdade, uma narrativa densa, desconfortável e, por vezes, dolorosamente honesta sobre os bastidores de um fenômeno cultural que nunca soube exatamente como lidar com o próprio sucesso.

Desde seus primeiros minutos, a série estabelece um tom íntimo e confessional, reconstruindo a gênese dos Raimundos em Brasília com uma sensibilidade que vai além do registro histórico. A capital federal, frequentemente associada à frieza política, surge aqui como um celeiro de inquietação juvenil, onde o tédio funcionava como combustível criativo. É nesse cenário que Rodolfo Abrantes e Digão, dois jovens de classe média, encontram na música não apenas uma válvula de escape, mas um espaço de identidade. O encontro com Canisso, em festivais underground, e posteriormente a entrada de Fred, moldam a formação clássica que redefiniria o rock brasileiro.
O documentário acerta ao destacar como a sonoridade dos Raimundos nasce de um choque cultural improvável, mas extremamente autêntico: o punk cru dos Ramones com o humor escrachado e regional do Nordeste. Essa mistura, que poderia soar como uma piada interna, rapidamente se transforma em assinatura artística. No entanto, Ferro não romantiza esse processo. Pelo contrário, ele revela que aquilo que impulsionou a banda também plantou as sementes de sua implosão. O humor, carregado de provocação e irreverência, não era unanimidade dentro do grupo — e, desde cedo, já expunha fissuras ideológicas.
Andar na Pedra: A História do Raimundos ganha densidade ao mergulhar nas tensões criativas e pessoais entre Rodolfo e Digão, uma disputa silenciosa — e posteriormente explícita — por protagonismo. Enquanto Digão compreendia o potencial comercial e abraçava o espírito irreverente da banda, Rodolfo começava a demonstrar desconforto com a imagem construída, especialmente com músicas como “Selim”, que, embora tenham alavancado o sucesso, também cristalizaram uma persona da qual ele parecia querer se desvincular. Essa dicotomia entre arte e mercado, autenticidade e espetáculo, é um dos eixos mais fascinantes da narrativa.
Há, inclusive, uma inteligência narrativa na forma como Andar na Pedra posiciona os demais integrantes dentro desse conflito. Fred surge como uma figura conciliadora, quase diplomática, alguém que compreendia os bastidores e tentava manter o equilíbrio. Já Canisso, com seu carisma quase despretensioso, encarna o espírito do rock’n’roll em sua forma mais pura — e talvez mais vulnerável. Seus áudios, utilizados ao longo da série, são um dos recursos mais impactantes da produção, funcionando como ecos de uma história que nunca encontrou resolução. Há algo de profundamente melancólico em ouvir alguém que já não está mais aqui refletindo sobre erros que nunca puderam ser corrigidos.
Quando a narrativa avança para o auge da banda, a série abandona qualquer resquício de glamour. O sucesso, aqui, não é celebrado — é dissecado. Os excessos, a falta de comunicação e episódios traumáticos, como o acidente em Santos em 1997, são apresentados como sintomas de uma estrutura que já estava em colapso. Ferro constrói, com precisão, a sensação de que a ruptura de 2001 não foi um evento isolado, mas o resultado inevitável de um acúmulo de tensões ignoradas. É como assistir a um vulcão prestes a entrar em erupção, sabendo que ninguém ali fez o suficiente para evitar o desastre.
Os episódios finais são, sem dúvida, os mais devastadores emocionalmente. O relato de Rodolfo sobre sua saída — motivada tanto por uma crise existencial quanto pelo abuso de substâncias — é apresentado sem filtros, mas também sem indulgência. A conversão religiosa surge não como um plot twist conveniente, mas como uma tentativa desesperada de sobrevivência. Ainda assim, a série deixa claro que sua saída era apenas uma questão de tempo. O que mais impressiona, no entanto, não é a decisão em si, mas a forma como ela foi conduzida: marcada pela ausência de diálogo, ressentimentos acumulados e uma incapacidade coletiva de lidar com conflitos de forma madura.
A tragédia maior talvez resida naquilo que nunca aconteceu: a reconciliação. Os depoimentos finais de Canisso são especialmente dolorosos, revelando um artista amargurado, consciente de que as disputas de ego haviam comprometido não apenas a banda, mas também sua vida pessoal. Sua morte, sem que houvesse uma resolução entre os integrantes, paira sobre a série como um lembrete cruel de que algumas histórias simplesmente não têm final feliz.
No fim das contas, Andar na Pedra: A História do Raimundos é menos sobre uma banda e mais sobre relações humanas em estado de tensão constante. Sobre como o sucesso pode amplificar fragilidades, transformar amizade em disputa e arte em produto. E, acima de tudo, sobre o preço — muitas vezes alto demais — que se paga por chegar ao topo sem estar preparado para permanecer lá.
A série acerta justamente por não tentar absolver ninguém. Não há vilões claros, tampouco heróis. O que existe são versões conflitantes de uma mesma história, todas carregadas de verdade — e de dor. E talvez seja exatamente isso que torna Andar na Pedra tão relevante: ela não oferece respostas fáceis, mas convida o espectador a refletir sobre os limites entre sucesso e autodestruição.
EXCELENTE
Andar na Pedra: A História do Raimundos é menos sobre uma banda e mais sobre relações humanas em estado de tensão constante. Sobre como o sucesso pode amplificar fragilidades, transformar amizade em disputa e arte em produto. E, acima de tudo, sobre o preço — muitas vezes alto demais — que se paga por chegar ao topo sem estar preparado para permanecer lá.