Vidas Entrelaçadas falha ao conectar suas histórias apesar de grande elenco
Divulgação/Synapse
Vidas Entrelaçadas falha ao conectar suas histórias apesar de grande elenco
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Vidas Entrelaçadas falha ao conectar suas histórias apesar de grande elenco

Há algo profundamente sedutor em narrativas que se propõem a capturar o efêmero, especialmente quando esse efêmero ganha forma em um cenário tão simbólico quanto a Paris Fashion Week. Em Vidas Entrelaçadas, a diretora Alice Winocour tenta transformar esse palco de excessos, beleza e superficialidade em um território de reflexão sobre a finitude da vida, a identidade feminina e as múltiplas camadas de invisibilidade que atravessam mulheres em diferentes posições sociais. A ambição é inegável e, em muitos momentos, até admirável, mas o resultado final revela um filme que parece mais interessado em parecer profundo do que, de fato, construir profundidade.

Vidas Entrelaçadas falha ao conectar suas histórias apesar de grande elenco

Winocour estrutura seu longa a partir de três trajetórias femininas que, em teoria, deveriam convergir emocional e narrativamente. Maxine, interpretada por Angelina Jolie, é uma cineasta que enfrenta um diagnóstico de câncer de mama; Ada, vivida por Anyier Anei, representa o olhar estrangeiro e deslocado dentro da indústria da moda; e Angèle, interpretada por Ella Rumpf, encarna os bastidores silenciosos e invisíveis do espetáculo. Em papel, trata-se de um mosaico potente sobre pertencimento, sobrevivência e resistência. Na prática, porém, essas histórias raramente se tocam de maneira significativa como linhas paralelas que insistem em não se cruzar.

O maior acerto do filme reside, sem dúvida, na presença magnética de Jolie. Há uma camada adicional de leitura que transcende a ficção, já que sua vivência pessoal com a mastectomia preventiva ecoa diretamente na construção de Maxine. Esse elemento confere ao filme uma honestidade emocional que nenhuma outra linha narrativa consegue alcançar. Angelina Jolie não apenas interpreta, ela parece habitar cada silêncio, cada olhar, cada momento de fragilidade contida. É um trabalho contido, mas profundamente expressivo, que sustenta o longa mesmo quando o roteiro se dispersa.

Por outro lado, os arcos de Ada e Angèle sofrem com uma superficialidade que compromete o equilíbrio narrativo. Ada, cuja história poderia oferecer uma poderosa reflexão sobre deslocamento cultural e exploração na indústria da moda, é reduzida a fragmentos pouco desenvolvidos. Já Angèle, que representa os bastidores, esse espaço invisível que sustenta o glamour, surge e desaparece sem que sua jornada deixe marcas duradouras. A sensação é inevitável: suas presenças parecem funcionar mais como justificativa estrutural do que como personagens plenamente realizadas.

Esse desequilíbrio enfraquece justamente aquilo que o título promete. Vidas Entrelaçadas sugere conexão, interdependência, uma espécie de teia emocional onde cada fio impacta o outro. No entanto, o filme se contenta em justapor histórias, sem permitir que elas dialoguem verdadeiramente. O resultado é um conjunto de blocos isolados que caminham lado a lado, mas nunca se transformam em um organismo coeso.

Visualmente, Winocour demonstra sensibilidade ao capturar o contraste entre o brilho artificial das passarelas e a vulnerabilidade íntima de suas personagens. Há momentos em que a câmera encontra beleza na imperfeição, na pausa, no silênci, como se o filme quisesse, a todo instante, lembrar que por trás da performance existe humanidade. No entanto, essa proposta estética, por mais elegante que seja, não compensa a fragilidade estrutural do roteiro. A forma, aqui, tenta carregar um conteúdo que não se sustenta por completo.

A participação de Louis Garrel, ainda que breve, evidencia ainda mais o potencial desperdiçado do filme. Seu talento aparece em lampejos, mas nunca encontra espaço para se desenvolver dentro da narrativa. É mais um elemento que reforça a sensação de que havia um filme maior, mais denso e mais impactante tentando emergir, mas que acabou soterrado por escolhas que privilegiam a contemplação em detrimento da construção dramática.

Vidas Entrelaçadas é um filme que carrega uma premissa poderosa, um elenco talentoso e uma diretora com sensibilidade estética, mas que tropeça justamente onde mais importa: na capacidade de transformar intenção em impacto. É uma obra que observa mais do que envolve, que sugere mais do que desenvolve, e que termina deixando a impressão de algo inacabado, como um desfile interrompido antes do último look. Há beleza, sim, mas é uma beleza que escorre pelos dedos antes de se fixar na memória.

Com distribuição da Synapse, o longa estreia hoje nos cinemas brasileiros.

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É uma obra que observa mais do que envolve, que sugere mais do que desenvolve, e que termina deixando a impressão de algo inacabado, como um desfile interrompido antes do último look. Há beleza, sim, mas é uma beleza que escorre pelos dedos antes de se fixar na memória.

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