Há filmes que encontram sua força no excesso: grandes discursos, trilhas sonoras manipuladoras, explosões emocionais calculadas para arrancar lágrimas imediatas do espectador. Surda, estreia da diretora Eva Libertad no formato de longa-metragem, escolhe o caminho oposto. O drama espanhol encontra sua potência justamente na delicadeza, nos silêncios e nas pequenas rupturas cotidianas que, acumuladas, revelam dores profundas. Baseado no curta homônimo da própria cineasta, o filme mergulha na experiência íntima de uma mulher surda vivendo a maternidade pela primeira vez, mas o faz sem recorrer ao sentimentalismo fácil ou à caricatura da deficiência como instrumento de superação inspiracional. O resultado é uma obra madura, profundamente humana e emocionalmente devastadora em sua honestidade.

Desde os primeiros minutos, Surda deixa claro que seu maior interesse não está em construir uma narrativa convencional sobre deficiência auditiva, mas em colocar o espectador dentro da subjetividade de Angela, interpretada de forma impressionante por Miriam Garlo. A atriz, que se tornou a primeira mulher surda a vencer um prêmio Goya, entrega uma atuação carregada de verdade, vulnerabilidade e sensibilidade. Não existe artificialidade em seus gestos, olhares ou reações. Cada momento parece nascer organicamente das inseguranças e angústias daquela mulher que tenta compreender seu novo papel como mãe em um mundo estruturalmente moldado para ouvintes. Angela não teme apenas os desafios da maternidade; ela teme, sobretudo, a possibilidade de não conseguir se conectar plenamente com sua filha em uma sociedade que constantemente transforma sua condição em obstáculo.
A grande força do roteiro está justamente na maneira como evita transformar Angela em símbolo ou discurso ambulante. Ela é apresentada como um ser humano complexo, contraditório, cansado e emocionalmente sobrecarregado. Sua preocupação em descobrir se o bebê também será surdo jamais é tratada de maneira simplista. Pelo contrário: o filme entende que esse medo nasce de uma vida inteira enfrentando barreiras invisíveis para quem escuta normalmente. Existe um peso psicológico profundo na possibilidade de sua filha herdar não apenas a surdez, mas todas as dificuldades sociais que acompanham essa condição. É um sentimento doloroso porque jamais nasce da rejeição, mas do amor e do medo de ver alguém que ela ama sofrendo as mesmas exclusões.
Ao lado dela está Hector, vivido com enorme sensibilidade por Álvaro Cervantes. O personagem poderia facilmente cair na armadilha do marido incompreendido ou do parceiro egoísta, mas o filme encontra nuances muito mais interessantes. Hector ama Angela profundamente, mas aos poucos demonstra o desgaste emocional provocado pela responsabilidade constante de mediar dois mundos diferentes. A dinâmica entre os dois é construída de forma extremamente naturalista, revelando como o amor pode coexistir com o cansaço, a frustração e a dificuldade de comunicação. O filme entende que relações afetivas não entram em crise apenas por falta de sentimento, mas também pelo acúmulo silencioso de pequenas distâncias diárias.
É justamente nesse ponto que a direção de Eva Libertad revela sua inteligência. Sua abordagem visual é simples, quase minimalista, mas extremamente precisa em captar os desconfortos emocionais daquele ambiente familiar. Não há excessos estilísticos nem tentativas desesperadas de transformar cada cena em algo grandioso. A câmera observa os personagens com intimidade quase documental, permitindo que o espectador perceba o peso emocional presente nos silêncios, nos olhares desviados e nas falhas de comunicação. Libertad compreende que o verdadeiro drama de Surda não está em grandes acontecimentos, mas no desgaste cotidiano de existir em um mundo que exige esforço constante para ser compreendido.
Essa percepção fica ainda mais forte porque o longa jamais romantiza a surdez. Pelo contrário: ele expõe como a deficiência auditiva pode transformar atividades aparentemente simples em experiências emocionalmente exaustivas. Angela vive em permanente estado de atenção, tentando interpretar expressões, leituras labiais e contextos sociais para não se sentir excluída das interações ao seu redor. Surda transmite a sensação de que viver dessa maneira é habitar uma montanha-russa emocional diária, onde qualquer pequena falha de comunicação pode gerar insegurança, frustração ou isolamento. O mérito do filme está em fazer o espectador sentir isso sem recorrer a discursos didáticos.
Mas talvez o momento mais poderoso de toda a obra aconteça em seu ato final. Em uma decisão narrativa brilhante, Eva Libertad elimina completamente o som durante alguns minutos para que acompanhemos o mundo sob a perspectiva de Angela. O impacto da cena é imediato e profundamente desconfortável. Não se trata apenas de ausência sonora; trata-se da sensação angustiante de desconexão social. O espectador ouvinte percebe, ainda que minimamente, o vazio e a vulnerabilidade de existir em um ambiente onde tudo parece acontecer fora de alcance. É uma escolha estética que transcende o recurso técnico e se transforma em experiência sensorial. Poucos filmes recentes conseguiram utilizar o som, ou a ausência dele, de maneira tão narrativa e emocionalmente eficiente.
Além da potência temática, Surda também impressiona por sua honestidade emocional. O longa nunca oferece soluções fáceis ou finais reconfortantes artificiais. Seu compromisso está em retratar personagens humanos tentando sobreviver às próprias fragilidades enquanto aprendem a amar dentro das limitações impostas pela vida. Angela e Hector não são heróis nem vítimas; são apenas pessoas tentando manter uma relação viva enquanto o peso da rotina ameaça consumir aquilo que existe entre eles.
No fim, Surda se revela muito mais do que um drama sobre deficiência auditiva. É um filme sobre comunicação, pertencimento, maternidade e solidão emocional. Eva Libertad constrói uma obra delicada e devastadora, capaz de provocar empatia genuína sem transformar seus personagens em instrumentos de lição moral. Já Miriam Garlo entrega uma atuação monumental, daquelas que permanecem na memória muito depois dos créditos finais. Em tempos em que tantos dramas parecem desesperados para emocionar a qualquer custo, Surda encontra grandeza justamente naquilo que escolhe silenciar.
Com distribuição da Retrato Filmes, Surda chega aos cinemas no dia 14 de maio.
ÓTIMO
Surda se revela muito mais do que um drama sobre deficiência auditiva. É um filme sobre comunicação, pertencimento, maternidade e solidão emocional. Eva Libertad constrói uma obra delicada e devastadora, capaz de provocar empatia genuína sem transformar seus personagens em instrumentos de lição moral.