Stranger Things | Episódio final resgata a essência da série
Divulgação/Netflix
Stranger Things | Episódio final resgata a essência da série
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Stranger Things | Episódio final resgata a essência da série

Hoje, 1º de janeiro de 2026, marcará oficialmente os 10 anos de Stranger Things, uma celebração que carrega um peso simbólico difícil de ignorar. Não apenas pelo tempo cronológico, mas pelo impacto cultural e industrial que a série provocou desde aquele distante 2016. Em um momento em que a Netflix ainda buscava sua identidade autoral, Stranger Things surgiu como um divisor de águas, elevando o patamar de ambição, investimento e relevância do streaming. Foi o início de uma era em que séries não apenas competiam com o cinema, mas também moldavam conversas, estéticas e afetos coletivos. Não por acaso, muitos enxergam a produção dos irmãos Duffer como o último grande símbolo da chamada “era de ouro” da plataforma quando a curadoria parecia mais ousada, menos refém de algoritmos e mais conectada à experiência emocional do público.

Stranger Things | Episódio final resgata a essência da série

Ao longo de uma década, acompanhamos a jornada de Will Byers (Noah Schnapp), Mike Wheeler (Finn Wolfhard), Dustin Henderson (Gaten Matarazzo), Lucas Sinclair (Caleb McLaughlin) e, claro, Eleven (Millie Bobby Brown). O capítulo final, lançado estrategicamente às 22h do dia 31 de dezembro de 2025, com duas horas de duração, foi mais do que um encerramento narrativo: foi um ritual coletivo. Quem assistiu à íntegra não apenas se despediu de um ano, mas também de uma série que, em sua essência, sempre falou sobre pertencimento, laços afetivos e a força quase mítica da amizade. Transformar a virada do ano em um momento de despedida emocional foi uma decisão calculada e extremamente eficaz que reforçou o caráter memorialístico da obra.

É impossível ignorar que Stranger Things foi, ao longo de suas temporadas, uma série caótica. Houve picos criativos brilhantes, especialmente em seus primeiros anos, mas também quedas perceptíveis, decisões questionáveis e uma diluição de impacto em determinadas fases. A quinta temporada, inclusive, figura como a mais mal avaliada do conjunto. Ainda assim, o episódio final funciona como um poderoso gesto de reconciliação com suas próprias origens. Ao resgatar elementos clássicos, referências explícitas ao RPG, a lógica quase lúdica do combate entre bem e mal, a série se reconecta com aquilo que a tornou especial. Ver novamente esse grupo usando o imaginário do Dungeons & Dragons para enfrentar ameaças como Vecna e o Devorador de Mentes é, mais do que fan service, um retorno à alma da narrativa.

Os irmãos Duffer optam por jogar seguro, mas não de maneira covarde. Eles entendem que Stranger Things nunca foi sobre subversão radical, e sim sobre emoção genuína. O medo da morte de personagens centrais paira durante todo o episódio final, e a direção brinca com essa expectativa de forma quase cruel, criando tensão constante. Cada personagem tem seu momento de brilho, mas é impossível não destacar Joyce Byers, vivida por Winona Ryder. Depois de perder espaço narrativo ao longo dos anos, Joyce reassume o protagonismo emocional no momento derradeiro, resgatando a força da personagem que, lá atrás, foi o coração pulsante da série. Sua presença no desfecho é um lembrete poderoso de onde tudo começou.

Apesar das piadas (até justas) sobre certa rigidez emocional na atuação de Millie Bobby Brown ao longo da quinta temporada, a trajetória de Eleven encontra um fechamento coerente e profundamente simbólico. Seu plano final não nasce da força bruta ou de poderes extraordinários, mas do aprendizado acumulado ao longo de anos de convivência. É um gesto de amizade, empatia e amadurecimento. Eleven deixa de ser apenas uma arma moldada por traumas para se tornar alguém capaz de enxergar o mundo como um espaço a ser explorado, vivido e compartilhado. Há algo de profundamente humano nessa escolha, e isso dá sentido à sua jornada desde o início.

Outro arco que merece destaque é o de Dustin Henderson. A sombra de Eddie Munson nunca é esquecida, e a série acerta ao não tratar sua perda como algo descartável. O momento final de Dustin equilibra emoção e humor com uma naturalidade que sempre foi marca do personagem. É uma redenção silenciosa, que honra o passado sem se aprisionar a ele, arrancando lágrimas e risos quase na mesma medida algo que Stranger Things sempre soube fazer como poucas.

No fim das contas, Stranger Things se despede exatamente da forma como começou: com um grupo de amigos reunido em torno de uma mesa, jogando uma partida de D&D. É um fechamento circular, simples e devastadoramente eficaz. A emoção que transborda dos personagens é também a dos atores, conscientes de que aquele é o último encontro daqueles rostos em cena. Para nós, espectadores, fica a sensação agridoce de despedida, mas também o conforto de imaginar que, em algum lugar de Hawkins, ou da nossa memória afetiva, eles sempre se reencontrarão para mais uma sessão de dados, mapas e imaginação.

4

ÓTIMO

Stranger Things se despede exatamente da forma como começou: com um grupo de amigos reunido em torno de uma mesa, jogando uma partida de D&D. É um fechamento circular, simples e devastadoramente eficaz.

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