As produções “terror de shopping center” carregam um forte estigma relacionado à sua suposta baixa qualidade. Essas obras, são associadas a personagens bidimensionais, sustos baratos e previsíveis, além de decisões absurdas e equivocadas por parte das personagens. Dentro desse contexto, Push – No Limite do Medo surge como mais um desses títulos esquecíveis, mas que ainda assim podem causar algum burburinho no circuito comercial. Isso acontece, sobretudo, por um fator estratégico em sua janela de lançamento: enquanto Pânico 7, que também está longe de ser um bom filme, recebeu classificação indicativa para maiores de 18 anos, Push – No Limite do Medo chega aos cinemas com censura de 14 anos. Essa diferença na censura pode provocar certo impacto nas bilheterias.
Na trama, acompanhamos Natalie Flores (Alicia Sanz), uma mulher marcada por conflitos familiares e que acabou de passar por um grande trauma em sua vida. No último mês de sua gestação, ela, que trabalha como corretora imobiliária, recebe a tarefa de vender uma antiga casa que carrega um passado sombrio: o imóvel foi palco de um assassinato brutal. Durante o processo de venda, Natalie passa a ser importunada por um homem que afirma ter interesse em comprar a propriedade. O que inicialmente parece apenas uma negociação rapidamente se transforma em uma situação ameaçadora.
A produção é um original da Shudder, serviço de streaming norte-americano especializado em obras autorais de terror, e conta com direção e roteiro de David Charbonier e Justin Powell.
Em Push – No Limite do Medo, a dupla de diretores tenta investir em uma abordagem mais refinada, apostando em longos planos silenciosos e introspectivos. Em teoria, esses momentos buscam revelar a vida da protagonista e criar uma atmosfera de tensão gradual. Mas, quando analisamos o conjunto da obra, essas sequências parecem muito mais um recurso para encher linguiça e preencher a duração de 1h30 do filme do que um verdadeiro aprofundamento dramático.
Esses longos trechos contemplativos poderiam ter sido aproveitados de maneira muito mais funcional — embora isso exigisse empenho e esmero por parte dos roteiristas — para desenvolver melhor os personagens e as circunstâncias que os cercam. Em vez disso, as histórias pessoais e as motivações são apresentadas de maneira apressada e superficial. O filme opera sob uma lógica mecânica e simplificada: “esta é Natalie, ela é a mocinha”; “este é o cliente, ele é o vilão e tem alguma relação com a casa, mas não vamos nos preocupar em explicar qual”. Assim, Push – No Limite do Medo avança sua narrativa sem se comprometer verdadeiramente com qualquer aprofundamento psicológico ou contextual.
O roteiro, aliás, acaba se revelando um dos pontos mais frágeis da produção, apoiando-se em praticamente todos os clichês já saturados do gênero: a mulher sozinha, homens ameaçadores, uma casa enorme com possíveis entradas e esconderijos, o carro quebrado, a impossibilidade de contato e a lista segue. Felizmente, os realizadores tiveram a sensatez de evitar a inclusão de um ataque sexual contra a protagonista ou insinuações de assédio, recursos infelizmente recorrentes em muitos filmes que usam esse trauma para atribuir “força” ou dramaticidade à personagem feminina.
Isso abre espaço para mencionar um dos raros pontos positivos do longa. Apesar das situações extremas que Natalie enfrenta, ela nunca é retratada como uma vítima completamente indefesa ou como uma mulher frágil. Somos apresentados a uma mãe determinada, disposta a fazer o que for necessário para proteger a si mesma e o filho que está prestes a nascer. No entanto, essa proposta entra em choque com as escolhas do próprio roteiro: enquanto somos apresentados a uma personagem forte, suas ações e escolhas são tão burras que fariam um personagem de terror adolescente revirar os olhos.
No fim das contas, Push – No Limite do Medo parece preso em uma espécie de limbo daquilo que propõe. Ele quer ser um arthouse da A24 mas não possui qualidade para isso, ao mesmo tempo em que tenta ser um terror de shopping center com sustos baratos como a Blumhouse, mas sem o carisma e a diversão de suas franquias. E aqui a obra se perde sem conseguir agradar verdadeiramente um público.
Muito Ruim
Push – No Limite do Medo tenta ser um filme sério e consagrado do gênero, como Violência Gratuita, mas tropeça na própria preguiça de seus realizadores.