Desde sua estreia no circuito de festivais, Pequenas Criaturas já carregava consigo um peso considerável de expectativa. O segundo longa-metragem da diretora e roteirista Anne Pinheiro Guimarães chegou cercado de reconhecimento ao conquistar o Troféu Redentor de Melhor Filme de Ficção e o prêmio de Melhor Direção de Arte no Festival do Rio 2025, credenciais que naturalmente despertam a curiosidade do público. À frente do elenco está Carolina Dieckmann, que, além de protagonizar a produção, também atua como produtora do projeto. Ao seu lado, nomes como Caco Ciocler, Leticia Sabatella, Théo Medon, Lorenzo Mello, Fernando Eiras e Michel Melamed ajudam a construir uma narrativa intimista, delicada e profundamente interessada nas transformações silenciosas que moldam uma família.

Mais do que uma ficção convencional, Pequenas Criaturas nasce de um lugar extremamente pessoal. Anne Pinheiro Guimarães utiliza as próprias lembranças como matéria-prima para construir a história, inspirando-se em sua infância como filha de diplomata, marcada por constantes mudanças de cidade e pela sensação permanente de estar entre partidas e recomeços. O filme, inclusive, é dedicado à sua mãe, detalhe que ajuda a compreender o olhar afetuoso e intimista com que a diretora observa seus personagens. Em vez de apostar em grandes acontecimentos, ela prefere explorar as emoções escondidas nos pequenos gestos, nos silêncios e nas relações familiares que se transformam quase imperceptivelmente.
Ambientado em 1986, durante os primeiros anos da redemocratização brasileira, o longa acompanha a chegada de Helena (Carolina Dieckmann) e dos filhos André (Théo Medon) e Dudu (Lorenzo Mello) à recém-construída Brasília. A mudança, que inicialmente parece apenas mais uma etapa na rotina da família, ganha contornos muito mais complexos quando o marido de Helena (Michel Melamed) precisa viajar a trabalho, deixando mãe e filhos sozinhos em uma cidade ainda completamente desconhecida. É justamente a partir dessa ausência que o roteiro encontra sua principal força dramática. Enquanto Helena passa a questionar seu papel como esposa, mãe e mulher, tentando reconstruir uma identidade que sempre esteve ligada ao ambiente doméstico, André enfrenta as inquietações típicas da adolescência, descobrindo novos sentimentos, amizades e inseguranças. Já Dudu encara a mudança com a imaginação característica da infância, transformando o desconhecido em um universo quase mágico, onde tudo parece possível.
É justamente nessa convivência entre diferentes perspectivas que Pequenas Criaturas encontra seu maior acerto. O filme compreende que mudanças nunca afetam todos da mesma maneira. Um mesmo acontecimento pode representar medo para uns, liberdade para outros e descoberta para quem ainda enxerga o mundo com olhos infantis. Anne Pinheiro Guimarães trabalha essas diferenças com enorme sensibilidade, mostrando como encontros inesperados, perdas, novas amizades e o simples passar do tempo modificam profundamente a maneira como cada personagem compreende a própria família, o lugar onde vive e, principalmente, a si mesmo. Enfim, o longa prefere observar as transformações internas em vez de recorrer a conflitos explosivos, característica que certamente agradará quem aprecia dramas mais contemplativos.
Helena, por sua vez, torna-se o grande centro emocional da narrativa. Carolina Dieckmann entrega uma interpretação madura, contida e extremamente humana ao dar vida a uma mulher que percebe, pouco a pouco, o quanto sua identidade foi construída em torno da figura do marido e da rotina familiar. A ausência dele funciona quase como um gatilho para que ela seja obrigada a enfrentar um mundo para o qual nunca acreditou estar preparada. Ao mesmo tempo, o roteiro também evidencia como esse vazio reverbera nos filhos. O desaparecimento temporário da figura paterna cria inseguranças e altera completamente a dinâmica familiar, enquanto o surgimento de outro homem desperta sentimentos de estranhamento, curiosidade e até certo desconforto. São conflitos tratados sem exageros, mas carregados de significado.
Entretanto, embora o longa apresente uma proposta bastante interessante, sua execução acaba encontrando obstáculos ao longo do caminho. Depois de um início envolvente, a narrativa gradualmente perde intensidade e mergulha em um ritmo excessivamente contemplativo. Há momentos em que a impressão é de que a história simplesmente deixa de avançar, permanecendo presa a situações repetitivas e diálogos que pouco acrescentam ao desenvolvimento dos personagens. Boa parte dessas sequências gira em torno das constantes reclamações sobre Brasília, retratada como uma cidade fria, vazia e desprovida de atrativos. A intenção de reforçar o sentimento de deslocamento faz sentido dentro da proposta narrativa, mas a repetição acaba tornando a experiência um tanto cansativa. Aliás, essa insistência contribui para que o filme entre em um marasmo do qual demora a sair.
Ainda assim, seria injusto reduzir Pequenas Criaturas apenas ao seu ritmo irregular. O elenco sustenta grande parte do envolvimento emocional da obra, especialmente Carolina Dieckmann, que entrega uma atuação delicada e cheia de nuances. Théo Medon e Lorenzo Mello também conseguem construir personagens bastante naturais, enquanto Anne Pinheiro Guimarães demonstra segurança na condução dos atores e um olhar refinado para a composição visual. A direção de arte, premiada no Festival do Rio, reforça com eficiência a atmosfera dos anos 1980 sem recorrer ao excesso de nostalgia ou à caricatura, criando um ambiente que parece vivido e autêntico.
O que realmente impede Pequenas Criaturas de alcançar todo o potencial sugerido por sua premissa é a sensação de que o desfecho chega sem provocar mudanças realmente significativas. Depois de acompanhar uma longa jornada de transformações emocionais, o espectador espera que as experiências vividas pelos personagens resultem em consequências mais contundentes. No entanto, o encerramento opta por um caminho discreto demais, quase tímido, fazendo com que parte da carga dramática construída ao longo da narrativa se dissipe. Não se trata de um final ruim, mas de uma conclusão que parece menos impactante do que o percurso fazia imaginar.
No fim das contas, Pequenas Criaturas é um drama sensível, honesto e carregado de afeto, interessado em explorar as marcas deixadas pelas mudanças inevitáveis da vida. Anne Pinheiro Guimarães confirma seu talento ao construir personagens complexos e emocionalmente verdadeiros, enquanto Carolina Dieckmann entrega uma das interpretações mais maduras de sua carreira recente. Ainda que o ritmo excessivamente contemplativo e um desfecho pouco contundente diminuam o impacto da experiência, o filme permanece como uma obra delicada sobre pertencimento, amadurecimento e os pequenos acontecimentos que, quase sem percebermos, transformam quem somos.
Com distribuição da Filmes do Estação em parceria com a Bananeira Filmes e RioFilme, Pequenas Criaturas chega aos cinemas de todo o Brasil em 23 de julho.
BOM
Pequenas Criaturas é um drama sensível, honesto e carregado de afeto, interessado em explorar as marcas deixadas pelas mudanças inevitáveis da vida. Anne Pinheiro Guimarães confirma seu talento ao construir personagens complexos e emocionalmente verdadeiros, enquanto Carolina Dieckmann entrega uma das interpretações mais maduras de sua carreira recente.