Inspirado no curta-metragem Refugee (2020), O Caso dos Estrangeiros (I Was a Stranger) marca o retorno do cineasta Brandt Andersen ao universo temático que já lhe era caro: o deslocamento humano, a fragilidade das fronteiras e a violência silenciosa da indiferença. Ao expandir a narrativa curta para o formato de longa-metragem, Andersen não apenas amplia o escopo dramático, mas aprofunda as camadas morais de sua proposta, construindo uma obra que dialoga diretamente com as feridas abertas do mundo contemporâneo. Seu cinema é de urgência, mas não de histeria; é político, mas jamais panfletário. Há uma consciência estética que sustenta cada enquadramento como se fosse um testemunho.

A estrutura do filme remete inevitavelmente a Babel, dirigido por Alejandro González Iñárritu, tanto pela narrativa fragmentada quanto pela maneira como múltiplas histórias se entrelaçam a partir de um evento catalisador. Contudo, enquanto Babel explorava a incomunicabilidade global como tragédia moderna, O Caso dos Estrangeiros escolhe investigar algo ainda mais desconfortável: a seletividade da empatia. Andersen costura suas histórias com precisão cirúrgica, permitindo que cada personagem represente não um arquétipo simplificado, mas um dilema ético em movimento.
O ponto de partida é brutalmente simples: um médico sírio foge de Aleppo com sua filha pequena. Uma decisão — aparentemente inevitável — desencadeia uma sucessão de acontecimentos que atravessam fronteiras físicas e morais. A narrativa então se ramifica: um contrabandista disposto a tudo para salvar o próprio filho; um soldado que começa a questionar as ordens que executa; uma poetisa em busca de pertencimento; um capitão da guarda costeira grega dividido entre o protocolo e a compaixão. Todos convergem para uma noite no Mediterrâneo — esse espaço simbólico que o cinema recente transformou em metáfora líquida da esperança e do desespero.
É impossível não destacar a presença de Omar Sy, conhecido mundialmente por Lupin, mas aqui em registro dramaticamente distinto. Sy entrega uma atuação contida, intensa e devastadora. Há uma cena específica — ambientada na escuridão do mar — em que o ator praticamente silencia o filme com a força de sua expressão.
Visualmente, Andersen evita a espetacularização da tragédia. A fotografia privilegia tons frios, horizontes indefinidos e enquadramentos que isolam os personagens em vastidões opressivas. O Mediterrâneo não é romantizado; ele é filmado como entidade ambígua — ora promessa de salvação, ora abismo definitivo. Essa escolha estética reforça o sentimento constante de instabilidade. Não há chão firme, não há garantias, apenas decisões tomadas em segundos que redefinem destinos.
O que torna O Caso dos Estrangeiros verdadeiramente relevante é sua coragem de incomodar. O filme provoca um embrulho no estômago não pela exposição gráfica do sofrimento, mas pela constatação de que grande parte dessa dor nasce de estruturas políticas e sociais que preferimos ignorar. Andersen nos força a encarar a pergunta central: até onde vai nossa responsabilidade diante do outro? A obra não oferece respostas fáceis, tampouco finais reconfortantes. Seu compromisso é com a consciência — e isso, em tempos de discursos polarizados e simplificações ideológicas, é quase um ato de resistência artística.
O Caso dos Estrangeiros é um drama necessário. Um filme que entende que o cinema pode ser entretenimento, mas também pode — e talvez deva — ser espelho. Ao transformar estatísticas em rostos e manchetes em histórias pulsantes, Brandt Andersen reafirma o poder da narrativa como ferramenta de empatia. É uma experiência dura, por vezes angustiante, mas essencial. Não é apenas um filme sobre refugiados; é um filme sobre humanidade — no seu estado mais vulnerável e mais verdadeiro.
Com distribuição da Paris Filmes, o filme estreia no dia 26 de fevereiro nos cinemas.
-
BOM
Summary
O Caso dos Estrangeiros é um drama necessário. Um filme que entende que o cinema pode ser entretenimento, mas também pode — e talvez deva — ser espelho.