Há filmes que se constroem a partir de grandes eventos, e há aqueles que florescem no intervalo entre eles nos silêncios, nos olhares e nas decisões aparentemente pequenas que, no fundo, redefinem toda uma existência. Nino de Sexta a Segunda, dirigido por Pauline Loquès, pertence a esse segundo grupo com uma elegância rara. Após chamar atenção com o curta La Vie De Jeune Fille, Loquès dá um salto seguro para o longa-metragem, entregando uma obra que transita entre o drama e a comédia com uma sensibilidade que parece quase orgânica, como se a narrativa respirasse junto com seu protagonista.

O ponto de partida poderia facilmente cair em armadilhas melodramáticas: Nino, interpretado com notável sutileza por Théodore Pellerin, descobre um diagnóstico de câncer que ameaça reorganizar completamente sua vida. No entanto, o roteiro opta por um caminho menos óbvio e, por isso mesmo, mais potente. Em vez de focar na doença em si, o filme se debruça sobre o “antes”, sobre esse curto espaço de tempo que antecede o tratamento e que se transforma, paradoxalmente, em um momento de redescoberta. É nesse recorte temporal entre a sexta-feira e a segunda-feira que a narrativa encontra sua força poética.
Loquès demonstra um domíniO do ritmo narrativo ao transformar Paris não apenas em cenário, mas em extensão emocional de Nino. A cidade pulsa em sintonia com o protagonista: ora vibrante, ora introspectiva, ora caótica. Há uma clara intenção de capturar o banal, encontros casuais, conversas interrompidas, caminhadas sem destino como algo extraordinário. E é justamente nessa escolha estética que o filme se diferencia: ele não busca grandiosidade, mas verdade. A câmera observa mais do que impõe, permitindo que o espectador se infiltre na intimidade daquele fim de semana quase suspenso no tempo.
A atuação de Pellerin é, sem exagero, o coração do filme e não por acaso lhe rendeu reconhecimento tanto no circuito de festivais quanto nas premiações, incluindo o César de Melhor Ator Revelação. Seu Nino é construído a partir de nuances: há medo, sim, mas também há uma tentativa quase infantil de manter a leveza diante do inevitável. O ator trabalha com uma expressividade contida, onde cada olhar carrega mais peso do que qualquer diálogo poderia sustentar. É um desempenho que evita o histrionismo e aposta na honestidade emocional, criando uma identificação imediata com o público.
Outro mérito significativo do filme está na forma como ele aborda as relações humanas. Ao longo desse curto intervalo, Nino revisita laços familiares, afetivos, sociais que estavam adormecidos ou negligenciados. O que poderia ser um desfile de despedidas carregadas se transforma em uma investigação delicada sobre presença. O filme parece nos perguntar, a todo momento: o que significa, de fato, estar com alguém? E mais, por que esperamos momentos-limite para dizer ou fazer o que sempre esteve ao nosso alcance?
É interessante notar como Nino de Sexta a Segunda se insere em uma tradição do cinema francês que valoriza o cotidiano e a introspecção, mas sem se prender a convenções engessadas. Há ecos de um cinema mais contemplativo, mas também uma leveza contemporânea que o torna acessível e emocionalmente direto. Essa combinação talvez explique seu destaque em festivais como Cannes e a recepção calorosa da crítica.
O filme de Pauline Loquès não é sobre doença, mas sobre tempo, esse recurso invisível e implacável que frequentemente desperdiçamos. Ao acompanhar Nino em sua jornada breve, mas transformadora, somos convidados a revisitar nossas próprias prioridades, nossos silêncios e nossas ausências. É um cinema que não grita, mas ecoa. E talvez seja justamente por isso que permanece.
Com distribuição do Filmes do Estação, Nino de Sexta a Segunda estreia em 07 de maio nos cinemas.
BOM
O filme de Pauline Loquès não é sobre doença, mas sobre tempo, esse recurso invisível e implacável que frequentemente desperdiçamos. Ao acompanhar Nino em sua jornada breve, mas transformadora, somos convidados a revisitar nossas próprias prioridades, nossos silêncios e nossas ausências. É um cinema que não grita, mas ecoa. E talvez seja justamente por isso que permanece.