Há algo de profundamente sintomático no modo como Hollywood passou a lidar com suas cinebiografias musicais nos últimos anos. Desde o estrondoso sucesso de Bohemian Rhapsody, consolidou-se uma fórmula quase industrial: narrativas higienizadas, recortes cuidadosamente calculados da vida de artistas e uma sucessão de números musicais pensados para provocar catarse imediata no público. Não se trata apenas de contar uma história, trata-se de preservar um legado. E, muitas vezes, isso implica sacrificar complexidades, ambiguidades e, sobretudo, as contradições que tornam esses ícones tão fascinantes. É dentro dessa lógica que surge Michael, dirigido por Antoine Fuqua, um filme que, embora tecnicamente competente e emocionalmente eficiente, parece mais preocupado em reverenciar do que em investigar.

Se há uma exceção que ainda ressoa como contraponto, ela atende pelo nome de Rocketman. Ao retratar Elton John sem filtros, o longa mergulhou nas fragilidades, vícios e conflitos de seu protagonista, recusando a tentação da narrativa “chapa branca”. Michael, por outro lado, opta por um caminho diametralmente oposto e, convenhamos, previsível. Desde seu anúncio, o projeto esteve cercado por polêmicas, especialmente sobre quais aspectos da vida de Michael Jackson seriam abordados. A resposta, como o próprio filme deixa claro, é: apenas aqueles que interessam à construção de um mito palatável. Com o envolvimento direto da família Jackson e dos mesmos produtores de Bohemian Rhapsody, o longa delimita seu recorte temporal até o álbum Bad, ignorando completamente os anos 90, período marcado por denúncias e controvérsias incontornáveis.
Essa escolha narrativa não é apenas estratégica; ela é reveladora. Ao evitar os momentos mais espinhosos, Michael constrói uma linha dramática que flerta com o conflito, mas nunca se compromete com ele. O acidente durante o comercial da Pepsi, por exemplo, é abordado como um ponto de inflexão, o início de um vício em medicamentos que teria consequências profundas na vida do artista. Ainda assim, o tratamento é superficial, quase protocolar. O mesmo se aplica à questão do vitiligo, apresentada de maneira didática, como uma tentativa de encerrar um debate público que persiste há décadas. Há também a idealização de Neverland, o rancho que simboliza tanto o refúgio quanto a controvérsia na vida de Jackson, aqui retratado quase exclusivamente como extensão de sua infância roubada.
Mas talvez o aspecto mais intrigante do filme seja aquilo que ele escolhe explorar com mais vigor: a figura de Joseph Jackson, interpretado com intensidade por Colman Domingo. O patriarca surge como antagonista evidente: rígido, abusivo, obcecado pelo sucesso dos filhos. No entanto, o roteiro ensaia uma tentativa de humanização ao sugerir que sua dureza era, em alguma medida, motivada pelo desejo de oferecer uma vida melhor à família. É um dos poucos momentos em que Michael se permite alguma ambiguidade moral, ainda que sem aprofundá-la como poderia. Fica a sensação de que o filme toca em temas densos apenas o suficiente para reconhecê-los, mas recua antes que se tornem desconfortáveis.
No campo das performances, entretanto, o longa encontra sua maior força. O jovem Juliano Valdi imprime ao pequeno Michael uma doçura genuína, capturando com precisão o carisma precoce que encantou o mundo nos tempos de Jackson 5. Há algo de magnético na forma como o filme retrata essa fase a ponto de sugerir que toda a trajetória do grupo mereceria um filme próprio, tamanha sua riqueza dramática e musical. Quando a narrativa avança para a vida adulta, entra em cena Jaafar Jackson, sobrinho do próprio Michael, em uma escolha de casting que beira o simbólico. E funciona.
Jaafar Jackson não imita, ele evoca. Sua performance é construída com um equilíbrio delicado entre respeito e autenticidade, evitando a armadilha da caricatura. Como cantor e dançarino, ele se apropria dos gestos, da postura e da energia de palco de Michael Jackson sem jamais parecer uma cópia mecânica. É especialmente nas sequências musicais que o filme atinge seu ápice, recriando momentos icônicos com uma precisão quase hipnótica. A apresentação de “Human Nature”, em particular, é um dos pontos altos: ali, tudo converge a música, a performance, a mise-en-scène para lembrar ao espectador por que Michael Jackson foi, e talvez ainda seja, uma figura insubstituível na história da música pop.
No fim das contas, Michael cumpre exatamente aquilo a que se propõe, e talvez esse seja tanto seu maior mérito quanto sua maior limitação. O filme não quer ser um retrato definitivo, nem um estudo aprofundado. Ele quer celebrar. Quer reacender a Michaelmania, revisitar os hits, emocionar os fãs. E nisso, é inegavelmente eficaz. Mas para quem busca compreender o homem por trás do mito, suas contradições, seus erros e suas zonas de sombra, a experiência pode soar incompleta, quase como assistir a um espetáculo grandioso que, apesar de tecnicamente impecável, evita olhar diretamente para aquilo que o torna verdadeiramente humano.
E aqui vai uma opinião direta: enquanto Hollywood continuar tratando cinebiografias como produtos de preservação de imagem, especialmente quando há envolvimento direto das famílias, dificilmente veremos obras que se arrisquem de verdade. A fórmula de Bohemian Rhapsody se provou lucrativa, segura e emocionalmente eficaz, mas também é limitadora. Se um segundo filme de Michael realmente acontecer (e deve acontecer), a grande questão não é “o que será contado”, mas sim “o que será novamente evitado”.
BOM
O filme não quer ser um retrato definitivo, nem um estudo aprofundado. Ele quer celebrar. Quer reacender a Michaelmania, revisitar os hits, emocionar os fãs. E nisso, é inegavelmente eficaz.