Kokuho - O Preço da Perfeição
Divulgação/Sato Company
Kokuho - O Preço da Perfeição
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Kokuho – O Preço da Perfeição: um épico japonês sobre arte, sacrifício e identidade

Existe algo profundamente hipnótico em Kokuho – O Preço da Perfeição, filme dirigido por Lee Sang-il e baseado no romance de Shuichi Yoshida. Antes mesmo de qualquer análise narrativa, o longa já se impõe como um espetáculo sensorial raro no cinema contemporâneo. Indicado ao Oscar 2026 na categoria de Melhor Maquiagem e Cabelo e responsável por alcançar a maior bilheteria de um live-action japonês no Japão, o filme carrega consigo o peso de um fenômeno cultural. E talvez seja justamente por isso que ele fascina tanto: não se trata apenas de um drama, mas de uma verdadeira ode à obsessão humana pela beleza e pela perfeição. Lee Sang-il constrói uma obra que parece respirar tradição, onde cada gesto, cada silêncio e cada movimento de câmera ecoa séculos de cultura japonesa condensados na forma cinematográfica.

 Kokuho - O Preço da Perfeição

A narrativa acompanha Kikuo, cuja trajetória começa marcada por uma tragédia brutal: o assassinato do pai pela yakuza. Esse evento inicial não funciona apenas como gatilho dramático, mas como uma ferida simbólica que acompanha o personagem por toda a sua jornada. Acolhido pelo lendário ator de kabuki Hanai Hanjiro II, Kikuo recebe um novo nome — Toichiro — e, com ele, uma nova identidade. O filme trabalha essa transformação com uma sensibilidade impressionante, mostrando que no universo do kabuki a construção de um artista é quase um processo ritualístico. O jovem passa a treinar ao lado de Shunsuke, herdeiro natural da tradicional casa Tanba-ya, e dessa convivência nasce uma relação complexa que mistura amizade, rivalidade, carinho e ressentimento. É nesse terreno emocional ambíguo que o filme encontra sua força dramática mais profunda.

Um dos aspectos mais fascinantes de Kokuho – O Preço da Perfeição está na forma como Lee Sang-il mergulha no universo do kabuki. Para muitos espectadores ocidentais, essa forma tradicional de teatro japonês ainda carrega um certo mistério, quase como se fosse um ritual artístico distante. O filme, no entanto, aproxima o público dessa tradição com um olhar respeitoso e apaixonado. A preparação dos atores, a aplicação meticulosa da maquiagem, o peso simbólico dos figurinos e a disciplina quase monástica dos ensaios são apresentados como parte de um processo artístico que exige não apenas talento, mas também abnegação absoluta. O palco, nesse contexto, deixa de ser apenas um espaço de performance e passa a funcionar como um altar onde identidade, tradição e sacrifício se encontram.

Visualmente, o longa é simplesmente deslumbrante. A indicação ao Oscar de Melhor Maquiagem e Cabelo não é apenas merecida — ela parece inevitável. Cada caracterização em cena revela um cuidado quase artesanal, transformando os atores em figuras que transitam entre o humano e o mítico. A maquiagem do kabuki, com seus traços marcantes e cores simbólicas, ganha uma dimensão cinematográfica que transcende a estética teatral. Lee Sang-il filma esses momentos com uma delicadeza quase reverencial, permitindo que a câmera contemple o processo de transformação como se estivesse registrando algo sagrado. O resultado é um filme de uma beleza plástica arrebatadora, onde cada enquadramento parece uma pintura em movimento.

Grande parte dessa força emocional também reside nas performances do elenco. Sōya Kurokawa, revelação em Monster, interpreta Kikuo na adolescência com uma intensidade que impressiona. Há algo de extremamente frágil e, ao mesmo tempo, feroz em sua interpretação — como se o personagem estivesse constantemente dividido entre a dor do passado e a esperança de um futuro artístico grandioso. Já Ryô Yoshizawa, conhecido pela franquia Kingdom, assume o papel de Kikuo na fase adulta com uma presença magnética. Sua atuação carrega o peso de anos de disciplina, frustração e ambição, tornando o personagem uma figura profundamente complexa. Ao redor deles, nomes como Ken Watanabe, Ryusei Yokohama, Keitatsu Koshiyama, Min Tanaka e Shinobu Terajima compõem um elenco que eleva o filme a um patamar de excelência interpretativa.

Mas talvez o aspecto mais poderoso de Kokuho – O Preço da Perfeição seja sua reflexão sobre identidade e pertencimento. O filme questiona o que significa, de fato, tornar-se alguém dentro de uma tradição tão rígida quanto a do kabuki. Kikuo é, em essência, um intruso nesse universo — alguém que não nasceu dentro da linhagem tradicional, mas que se vê consumido pelo desejo de pertencer a ela. Essa tensão entre talento e herança, mérito e tradição, percorre todo o filme e se transforma em um dos seus temas centrais. Em um mundo onde o legado familiar muitas vezes determina o destino artístico, o personagem luta para provar que paixão e dedicação também podem construir um caminho.

Com quase três horas de duração, o filme assume um ritmo contemplativo que pode surpreender espectadores acostumados a narrativas mais aceleradas. No entanto, essa escolha parece absolutamente coerente com o universo que Lee Sang-il deseja retratar. O tempo, em Kokuho, é um elemento fundamental — afinal, a perfeição artística não nasce da pressa, mas da repetição incansável. Cada ensaio, cada apresentação e cada momento de introspecção contribui para a construção de uma narrativa que se desenvolve como uma longa performance teatral. O espectador não apenas assiste à jornada de Kikuo; ele a sente, quase como se estivesse vivendo os mesmos anos de dedicação e sacrifício.

Curiosamente, o universo explorado no filme também dialoga com outras manifestações artísticas. Para quem deseja se aprofundar nesse mundo, existe uma belíssima HQ publicada no Brasil com o mesmo título, do artista brasileiro Guilherme Petreca. A obra oferece uma bela perspectiva sobre o kabuki e demonstra como essa tradição teatral continua inspirando artistas de diferentes linguagens e países. Esse diálogo entre cinema, literatura e quadrinhos apenas reforça a dimensão cultural que Kokuho – O Preço da Perfeição alcança.

O filme de Lee Sang-il é muito mais do que uma narrativa sobre teatro. Ele é, acima de tudo, um retrato dolorosamente belo do que significa dedicar a vida à arte. O brilho do palco, que para o público parece mágico e instantâneo, nasce de anos de desgaste, disciplina e solidão. Kokuho – O Preço da Perfeição entende essa realidade com uma sensibilidade rara. O filme observa seus personagens com olhos marejados — olhos que carregam admiração, desejo, tradição e, sobretudo, uma reverência quase absoluta pelo poder transformador da arte.

E talvez seja exatamente por isso que o longa se torna tão inesquecível. Porque, ao final da sessão, fica a sensação de que não assistimos apenas a um filme, mas a um testemunho sobre o preço invisível que todo grande artista paga para alcançar a perfeição.

Distribuído pela Sato Company, o longa estreia amanhã (5) nos cinemas brasileiros.

4

ÓTIMO

O filme de Lee Sang-il é muito mais do que uma narrativa sobre teatro. Ele é, acima de tudo, um retrato dolorosamente belo do que significa dedicar a vida à arte. O brilho do palco, que para o público parece mágico e instantâneo, nasce de anos de desgaste, disciplina e solidão.

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