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Fora de Controle | Thriller francês promete tensão, mas entrega pouco impacto

Fora de Controle, novo longa da diretora Anne Le Ny, marca mais um capítulo da parceria da cineasta com Omar Sy. E existe algo interessante entre a diretora e o astro, como se ambos compreendessem perfeitamente o terreno que pretendem explorar. Depois do drama Le Torrent, Anne Le Ny volta a mergulhar em relações corroídas pelo desgaste afetivo e pela infidelidade. O problema é que, desta vez, a cineasta parece revisitar fórmulas que já funcionaram antes sem encontrar novos caminhos para torná-las verdadeiramente impactantes.

Desde os primeiros minutos, Fora de Controle deixa evidente sua intenção de construir um thriller psicológico pautado na tensão doméstica. O filme observa lentamente a deterioração de um casamento que, por fora, ainda mantém certa aparência de estabilidade, mas que por dentro já está completamente contaminado pela desconfiança e pela frustração acumulada ao longo dos anos. Só que aí mora justamente a sensação inevitável de déjà vu. A estrutura narrativa, os conflitos conjugais, os jogos de manipulação emocional e até os mecanismos de suspense parecem retirados de dezenas de produções semelhantes que vieram antes. E não há problema algum em trabalhar com elementos conhecidos do gênero, o cinema vive disso, afinal. A questão é que Fora de Controle raramente encontra personalidade própria para transformar esse material em algo interessante de assistir.

Na trama, Omar Sy interpreta Julien, um homem casado há quinze anos cuja rotina emocional começa a desmoronar quando uma antiga paixão de juventude retorna inesperadamente à sua vida. Essa figura do passado é vivida por Vanessa Paradis, que surge quase como um símbolo de nostalgia, desejo reprimido e possibilidades perdidas. Enquanto isso, Marie, interpretada por Élodie Bouchez, passa a ser consumida pelo ciúme diante da reaparição dessa ex-namorada. O que inicialmente parece apenas insegurança logo se transforma em obsessão emocional. É nesse estado de vulnerabilidade que ela acaba se envolvendo com o próprio chefe, personagem de José García, embarcando em uma relação marcada por manipulação, dependência emocional e jogos psicológicos cada vez mais desconfortáveis. O filme tenta construir uma espécie de espiral de paranoia onde ninguém parece totalmente inocente. Todo mundo mente. Todo mundo esconde algo. Todo mundo, em algum momento, atravessa limites morais.

Só que o verdadeiro problema aparece justamente quando o roteiro deveria evoluir. E isso pesa demais na experiência de quem está assistindo. Existe uma expectativa natural de escalada dramática em histórias desse tipo. Mas Fora de Controle parece andar em círculos. Os diálogos retornam sempre aos mesmos conflitos. É quase como assistir a uma panela de pressão que faz barulho o filme inteiro, mas nunca explode.

E isso acaba afetando diretamente o suspense. Suspense nasce da sensação de inevitabilidade, da percepção de que algo terrível está prestes a acontecer. Mesmo nos minutos finais, a diretora Anne Le Ny filme tenta acelerar o ritmo e inserir elementos mais tensos, o impacto simplesmente não encontra força suficiente para permanecer na memória. O desfecho chega mais com sensação de alívio do que propriamente de choque.

Ainda assim, seria injusto ignorar a força do elenco. Porque são justamente os atores que mantêm o filme respirando quando o roteiro perde intensidade. Omar Sy constrói Julien de maneira extremamente contida, apostando mais em olhares cansados e pequenos gestos do que em explosões emocionais extravagantes. Já Élodie Bouchez talvez entregue a performance mais interessante do longa. Sua Marie é uma mulher completamente fragmentada emocionalmente, dividida entre culpa, desejo, insegurança e paranoia. A atriz consegue traduzir esse conflito interno de maneira bastante humana, evitando caricaturas fáceis. Enquanto isso, José García compõe um antagonista desconfortável justamente pela naturalidade manipuladora que imprime ao personagem. Ainda que o roteiro não aprofunde suas motivações, o ator consegue criar uma presença inquietante em cena.

O que mais chama atenção é perceber que existe potencial em praticamente todos os elementos isolados do filme. A premissa funciona. O elenco funciona. A atmosfera inicialmente funciona. O tema continua atual e relevante. Afinal, histórias sobre desgaste emocional, traição e manipulação afetiva sempre encontram espaço justamente porque dialogam com inseguranças muito humanas e presentes no cotidiano. Só que Fora de Controle nunca consegue juntar todas essas peças e criar um mosaico interessante de ver.

Fora de Controle é aquele tipo de filme que desperta interesse imediato pela proposta, pelo elenco e pela atmosfera de suspense psicológico, mas que termina deixando uma sensação amarga de oportunidade desperdiçada. Anne Le Ny claramente tinha em mãos uma história capaz de render um drama conjugal sufocante. Porém, o resultado final parece incompleto, como se o longa estivesse permanentemente ensaiando atingir um grande clímax sem jamais chegar lá.

Fora de Controle chega aos cinemas brasileiros em 28 de maio, com distribuição da California Filmes.

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REGULAR

Fora de Controle é aquele tipo de filme que desperta interesse imediato pela proposta, pelo elenco e pela atmosfera de suspense psicológico, mas que termina deixando uma sensação amarga de oportunidade desperdiçada.

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