Representante do Brasil na disputa por uma vaga no Oscar 2027 de Melhor Filme Internacional, Feito Pipa chega aos cinemas brasileiros depois de conquistar reconhecimento lá fora. O longa de Allan Deberton levou o Urso de Cristal e o Grande Prêmio do Júri Internacional da mostra Generation Kplus, no Festival de Berlim, além de cinco Kikitos no Festival de Gramado, incluindo Melhor Direção, Melhor Atriz para Teca Pereira e Melhor Ator Coadjuvante para Lázaro Ramos.

Filmado em Quixadá, no interior do Ceará, o longa emociona ao contar uma história aparentemente simples, mas repleta de elementos capazes de tocar o espectador. A infância no sertão, a inocência, as descobertas e, principalmente, a relação afetuosa entre avó e neto formam a base de uma narrativa que também encontra espaço para discutir um tema contemporâneo: a identidade queer.
Há muito a ser descoberto por trás do título Feito Pipa, que traduz de maneira especialmente bonita a essência da história. Gugu é como uma pipa, um garoto pronto para voar e descobrir o mundo. Mas, assim como uma pipa precisa de uma linha para não se perder no céu, ele também precisa de um vínculo que lhe ofereça segurança. Nesse caso, esse porto seguro é sua avó.
Na trama, Gugu (Yuri Gomes) é um menino de 12 anos apaixonado por futebol que vive com a avó Dilma (Teca Pereira), que o criou com liberdade, carinho e criatividade. A relação com o pai, Batista (Lázaro Ramos), é bem diferente, marcada por ausências, expectativas e afetos que nunca encontraram espaço para serem demonstrados. O cenário muda quando Gugu precisa encarar a possibilidade de morar com ele.
O grande acerto de Allan Deberton está em não infantilizar o olhar de Gugu. Mesmo com apenas 1h30 de duração, o filme consegue estabelecer seus conflitos e desenvolver questões importantes sem atropelar os sentimentos dos personagens.
A perda gradual de memória de Dilma ganha uma dimensão ainda mais simbólica quando colocada em paralelo com as descobertas do neto. Enquanto ela começa a se desconectar do mundo, Gugu está justamente começando a se conectar com ele. A relação entre o açude, que seca e volta a encher, e as mudanças na memória da avó também ajuda a construir essa conexão entre natureza, passagem do tempo e lembranças.
Ao mesmo tempo, Gugu vive suas próprias descobertas. É um garoto que gosta de futebol, mas também de se maquiar e dançar. O filme trata sua identidade com naturalidade, sem transformar sua existência em um problema a ser resolvido. O que está em jogo não é quem Gugu deve ser, mas se as pessoas ao seu redor serão capazes de acolhê-lo como ele é.
O roteiro de André Araújo encontra sua maior força justamente no paralelo entre os dois personagens. Acompanhamos, pelo olhar de Gugu, a transformação de uma relação que sempre representou segurança. Aos poucos, ele percebe que pode perder não apenas a presença da avó, mas também as lembranças e os pequenos gestos que construíram aquela conexão.
Yuri Gomes e Teca Pereira entregam atuações emocionantes. A sintonia entre os dois sustenta boa parte do filme, alternando momentos de humor, carinho e tristeza com uma naturalidade que torna tudo ainda mais próximo do espectador.
Yuri, aliás, é uma grande revelação do cinema nacional. Ele carrega o filme com um amadurecimento impressionante para um ator tão jovem, transitando com desenvoltura entre a leveza da infância e a dor de perceber que seu mundo está prestes a mudar.
Lázaro Ramos também acrescenta uma camada importante à narrativa. Seu Batista é um pai distante, alguém que parece não compreender completamente as necessidades do filho. Existe uma tentativa de aproximação entre os dois, como na cena em que Gugu aprende a andar de moto, mas ainda falta a construção de um ambiente em que o garoto possa se sentir seguro para ser quem é, sem receio de julgamentos.
Essa relação evidencia o quanto o acolhimento faz diferença na formação de uma criança. Gugu não precisa apenas de alguém que cuide dele, mas de alguém que o enxergue e respeite suas particularidades.
Feito Pipa é um filme que certamente vai tocar quem já acompanhou de perto a perda gradual de alguém querido por causa do Alzheimer. É difícil não se conectar com a angústia de Gugu diante da possibilidade de perder sua maior referência afetiva.
Mas o longa não se limita à tristeza. Existe beleza na maneira como fala sobre infância, liberdade, identidade e afeto. É uma história sobre aprender a voar, mas também sobre a importância de ter alguém que nos dê segurança para isso.
Sensível, tocante e sustentado por atuações arrebatadoras, Feito Pipa é mais um exemplo da capacidade do cinema brasileiro de contar histórias que encontram uma dimensão universal justamente nas experiências mais particulares.
Fica a torcida pela indicação ao Oscar. Mas, acima de tudo, fica o desejo de que o filme alcance o maior número possível de pessoas. Algumas histórias merecem encontrar seu público, e esta é uma delas.
Com distribuição da Paris Filmes, o longa chega amanhã nos cinemas brasileiros.
EXCELENTE
Sensível, tocante e sustentado por atuações arrebatadoras, Feito Pipa é mais um exemplo da capacidade do cinema brasileiro de contar histórias que encontram uma dimensão universal justamente nas experiências mais particulares.