Elle: Legalmente Loira demora para encontrar sua identidade
Divulgação/Prime Video
Elle: Legalmente Loira demora para encontrar sua identidade
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Elle: Legalmente Loira demora para encontrar sua identidade

Poucos filmes dos anos 2000 envelheceram tão bem quanto Legalmente Loira. Muito além da comédia romântica aparentemente despretensiosa, o longa estrelado por Reese Witherspoon sempre esteve à frente de seu tempo ao discutir empoderamento feminino, desconstrução de estereótipos, sororidade e a capacidade de uma mulher ser inteligente sem abrir mão de sua própria identidade. Enquanto boa parte do cinema da época insistia em colocar protagonistas femininas dentro de arquétipos limitados, Elle Woods provava justamente o contrário: era possível gostar de moda, da cor rosa e de beleza sem que isso diminuísse sua competência. Talvez seja justamente por isso que a personagem permaneça tão relevante mais de duas décadas depois.

Elle: Legalmente Loira demora para encontrar sua identidade

Com esse peso nas costas, Elle: Legalmente Loira, série prelúdio criada por Laura Kittrell, chega com uma missão bastante delicada: explorar a adolescência de Elle Woods sem comprometer tudo aquilo que fez da personagem um verdadeiro ícone da cultura pop. A premissa, por si só, desperta curiosidade. Afinal, existe um enorme espaço entre a adolescente do ensino médio e a universitária que conquistou Harvard. Há inúmeras histórias capazes de explicar como surgiu sua confiança, sua empatia e sua capacidade de enfrentar preconceitos sempre de cabeça erguida.

A primeira temporada nos transporta para 1995, quando Elle precisa deixar Los Angeles para viver em Seattle. Em meio às turbulências típicas do ensino médio, ela enfrenta amizades complicadas, romances proibidos, inseguranças e o eterno desafio de descobrir quem realmente é. Paralelamente, a série investe na relação familiar da protagonista, principalmente no vínculo com sua mãe, mostrando que boa parte da força emocional de Elle nasce justamente dentro de casa. É uma escolha interessante, porque amplia um aspecto pouco explorado pelos filmes e ajuda a compreender melhor as bases emocionais da personagem.

O problema é que essa excelente ideia inicial demora demais para se transformar em algo realmente interessante. Durante boa parte dos primeiros episódios, a sensação é de que Elle: Legalmente Loira prefere reproduzir a fórmula do filme original em vez de construir uma identidade própria. Em vez de apresentar acontecimentos realmente marcantes da juventude da protagonista, o roteiro insiste em repetir conflitos que o público já conhece muito bem. Mais uma vez vemos Elle tentando provar seu valor, lutando para ser levada a sério e enfrentando pessoas que a julgam exclusivamente pela aparência. São temas importantes, claro, mas tratados praticamente da mesma forma que já haviam sido explorados anteriormente. Enfim, a série parece ter medo de caminhar com as próprias pernas.

Ainda assim, existe um elemento que sustenta praticamente toda a temporada: Lexi Minetree. A jovem atriz entrega uma interpretação surpreendentemente segura e compreende perfeitamente aquilo que torna Elle Woods tão especial. Seus trejeitos, expressões e maneira de falar inevitavelmente remetem ao trabalho de Reese Witherspoon, mas nunca soam como uma simples imitação. Pelo contrário. Lexi encontra pequenos gestos próprios e constrói uma versão mais jovem da personagem de maneira extremamente natural. Seu carisma é imediato e, em diversos momentos, é justamente sua presença que mantém o interesse do espectador mesmo quando o roteiro perde força.

O ritmo irregular da narrativa acaba prejudicando principalmente o elenco de apoio. Quase todos os personagens existem apenas em função de Elle. Eles entram em cena quando a protagonista aparece e desaparecem assim que ela deixa o quadro, sem que suas próprias histórias recebam qualquer aprofundamento. Isso torna boa parte das relações superficiais e impede que a série construa um universo realmente rico ao redor da protagonista. É uma pena, porque vários desses personagens demonstram potencial logo em suas primeiras aparições, mas nunca recebem espaço suficiente para evoluir.

Quem também acaba sendo vítima dessa limitação são June Diane Raphael e Tom Everett Scott, intérpretes dos pais de Elle. Os dois possuem ótima química e entregam performances bastante calorosas, transmitindo exatamente o acolhimento que a família Woods representa para a protagonista. Sempre que aparecem, conseguem acrescentar camadas emocionais à narrativa, especialmente nas cenas entre mãe e filha, que figuram entre os melhores momentos da temporada. Aliás, talvez seja justamente nessa relação familiar que a série encontre sua maior personalidade. Infelizmente, ambos permanecem subaproveitados durante boa parte dos oito episódios.

Outro aspecto que decepciona é a ambientação. Embora a história aconteça em Seattle durante meados dos anos 1990, raramente sentimos que realmente estamos vivendo naquele período. A reconstrução da década depende excessivamente de referências superficiais, principalmente da trilha sonora e de citações ao movimento grunge. Falta textura ao mundo apresentado. Faltam detalhes na direção de arte, no comportamento dos personagens e na construção visual que transportem o público para aquele contexto histórico. Curiosamente, a abertura consegue fazer isso muito melhor do que a própria série, embalando os episódios ao som de “Only Happy When It Rains”, clássico lançado pela banda Garbage em 1995.

Apesar dos tropeços, Elle: Legalmente Loira finalmente encontra um caminho mais consistente em seus episódios finais. Quando deixa de lado a necessidade de reverenciar constantemente o filme original e passa a confiar mais em sua protagonista, a narrativa ganha personalidade, emoção e propósito. É nesse momento que a série demonstra o enorme potencial que possui para expandir o universo de Elle Woods sem depender apenas da nostalgia. O encerramento deixa portas interessantes abertas para o futuro e desperta uma curiosidade genuína pelo que ainda está por vir.

Já renovada pelo Prime Video para sua segunda temporada, Elle: Legalmente Loira encerra seu primeiro ano muito mais como uma promessa do que como uma realização completa. Existe talento diante e atrás das câmeras, existe uma protagonista extremamente carismática e existe um universo repleto de possibilidades esperando para ser explorado. O que falta é coragem para deixar de olhar constantemente para o passado e permitir que essa nova Elle Woods construa seu próprio legado.

Os oito episódios da primeira temporada chegaram hoje (01) no Prime Video.

2.5

REGULAR

Elle: Legalmente Loira encerra seu primeiro ano muito mais como uma promessa do que como uma realização completa.

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