Dinheiro Suspeito, novo thriller policial da Netflix, chega ao catálogo cercado por um peso criativo difícil de ignorar. À frente do projeto estão Ben Affleck e Matt Damon, dupla eternizada pelo Oscar de Gênio Indomável, agora reunida novamente diante das câmeras. No comando do filme, Joe Carnahan assume as funções de diretor e roteirista, reafirmando sua afinidade com narrativas de conspiração, jogos de poder e personagens moralmente ambíguos, elementos que já marcaram obras como A Última Cartada, um dos títulos mais sólidos de sua filmografia.

Desde os primeiros minutos, Dinheiro Suspeito deixa claro que não pretende reinventar o gênero, mas sim refiná-lo. A premissa é simples, quase minimalista: após a morte suspeita de uma capitã da polícia de Miami, um grupo de policiais encontra uma quantia milionária de dinheiro escondida em um local abandonado. O achado, que poderia representar uma vitória institucional, rapidamente se transforma em um catalisador de desconfiança, paranoia e rupturas morais. Liderados pelos personagens de Affleck e Damon, esses agentes passam a questionar não apenas uns aos outros, mas também seus próprios valores. Quando outras forças entram em cena e o montante encontrado se torna público, a narrativa mergulha de vez em um território onde a verdade se fragmenta e a confiança se dissolve.
O grande mérito do filme está justamente na forma como Carnahan conduz essa atmosfera de suspeita constante. O roteiro aposta em diálogos afiados, silêncios incômodos e trocas de olhares carregadas de significado, resgatando a essência de thrillers policiais clássicos dos anos 1980, em que a tensão psicológica era tão ou mais importante do que a ação explícita. Aqui, as perguntas fundamentais do gênero: quem é corrupto, quem deseja ficar com o dinheiro, quem ainda acredita na lei e na restituição à Receita sustentam o ritmo narrativo e mantêm o espectador em estado permanente de alerta.
O elenco coadjuvante funciona como um verdadeiro tabuleiro de xadrez humano, no qual cada peça parece esconder uma segunda intenção. Destaque para Teyana Taylor, vencedora do Globo de Ouro, além de Steven Yeun, Sasha Calle, Catalina Sandino Moreno, Scott Adkins e Kyle Chandler. Cada um deles é apresentado como um potencial suspeito, e o filme faz questão de alimentar essa sensação, manipulando informações e pontos de vista para que o público nunca se sinta completamente seguro de suas próprias conclusões.
Narrativamente, Dinheiro Suspeito adota uma escolha ousada e extremamente eficaz: grande parte da história se desenrola durante a batida na casa de Desi, personagem de Sasha Calle, onde a imensa quantia de dólares é encontrada. Esse espaço fechado se transforma em um microcosmo da corrupção institucional, onde o perigo não vem necessariamente de fora, mas do interior do grupo. A decisão de economizar em grandes sequências de ação e reservar tiroteios e explosões para o último ato reforça ainda mais o impacto da tensão acumulada, provando que o suspense bem construído pode ser muito mais perturbador do que o excesso de espetáculo.
No fim das contas, Dinheiro Suspeito funciona como um lembrete incômodo (e necessário) de que, no cinema policial, menos pode ser muito mais. Sem um orçamento inflado ou ambições grandiosas, o filme se destaca pela solidez de sua proposta, pela força de seu elenco e pela segurança de sua direção. Resta observar se a Netflix conseguirá manter esse padrão de qualidade em suas próximas produções, mas, ao menos aqui, a plataforma demonstra que ainda há espaço para obras autorais, inteligentes e moralmente provocadoras dentro de seu vasto catálogo.
ÓTIMO
Dinheiro Suspeito funciona como um lembrete incômodo (e necessário) de que, no cinema policial, menos pode ser muito mais. Sem um orçamento inflado ou ambições grandiosas, o filme se destaca pela solidez de sua proposta, pela força de seu elenco e pela segurança de sua direção.