À primeira vista, Desconhecidos (Strange Darling), dirigido com elegância perturbadora por JT Mollner, parece seguir o caminho batido de tantos thrillers de perseguição: um homem à caça de uma mulher, a violência como instrumento de dominação e a floresta como palco de tensão e isolamento. Mas logo fica evidente que esse longa-metragem se recusa a se render aos clichês do gênero. Pelo contrário, ele os subverte, desconstrói e reorganiza em uma narrativa que desafia nossa percepção e nos obriga a repensar o que acreditamos saber sobre os papéis de vítima e agressor. Mollner não entrega apenas um suspense estilizado – ele nos joga num labirinto psicológico onde o tempo, a memória e a identidade são tão instáveis quanto as sombras que se arrastam pelas árvores de Oregon.
A trama nos apresenta a uma jovem mulher (interpretada por Willa Fitzgerald) em fuga desesperada por sua sobrevivência. Ferida e desorientada, ela tenta escapar de um homem aparentemente implacável (vivido por Kyle Gallner), cuja presença predatória preenche cada frame com uma sensação incômoda de inevitabilidade. Porém, conforme o jogo de gato e rato se desenrola, percebemos que há camadas ocultas em ambos os personagens – camadas essas que o roteiro, dividido em seis capítulos não lineares, revela aos poucos, quase como peças de um quebra-cabeça que só se completa quando já não há mais escapatória. O resultado é uma experiência profundamente inquietante, onde nada é exatamente o que parece e toda certeza é constantemente colocada em xeque.
A opção estética de remeter ao cinema de suspense dos anos 70 – com planos longos, grãos na imagem e uma paleta de cores que resgata o estilo sujo e sombrio da época – não é apenas uma homenagem nostálgica, mas uma ferramenta narrativa poderosa. Desconhecidos opera sob uma lógica de desorientação estrutural inspirada em obras mais recentes como Amnésia (2000). Essa desordem temporal, que embaralha os capítulos e nos obriga a reconstruir os acontecimentos como detetives emocionais, não busca apenas confundir, mas provocar: o que estamos assistindo, de fato? Uma perseguição sádica ou um ritual de revelação?
As performances centrais de Fitzgerald e Gallner são magnéticas. Fitzgerald transita entre fragilidade e força com uma naturalidade assombrosa, conferindo à sua personagem uma dimensão que vai muito além da vítima tradicional. Já Gallner, com seu olhar vazio e sorriso cínico, encarna o tipo de vilão que se recusa a ser facilmente odiado – há algo de trágico, quase quebrado em sua composição. Juntos, os dois protagonizam um duelo psicológico intenso, onde cada gesto, cada hesitação e cada palavra carregam significados ocultos. Não se trata apenas de uma luta pela sobrevivência, mas de uma dança macabra entre opostos que, no fundo, compartilham mais do que gostariam de admitir.
Ao final, Desconhecidos se revela como uma obra sobre expectativas – especialmente aquelas que temos em relação ao gênero (cinematográfico e biológico). O filme desconstrói o arquétipo da “final girl”, questiona as motivações do agressor e destrói qualquer sensação confortável de previsibilidade. JT Mollner dirige com pulso firme, nunca entregando demais, mas sempre sugerindo o suficiente para manter nossa atenção colada à tela. Não é um filme fácil, nem deseja ser. Mas é, sem dúvida, um filme que busca ser provacativo.
Com distribuição da Paris Filmes, Desconhecidos está em cartaz nos cinemas.
BOM
Desconhecidos se revela como uma obra sobre expectativas – especialmente aquelas que temos em relação ao gênero (cinematográfico e biológico).