Coração Partido transforma clichês adolescentes em um romance irresistivelmente absurdo
Divulgação/Paris Filmes
Coração Partido transforma clichês adolescentes em um romance irresistivelmente absurdo
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Coração Partido transforma clichês adolescentes em um romance irresistivelmente absurdo

Em um cenário cinematográfico cada vez mais tomado por adaptações de romances young adult, Coração Partido chega sem qualquer intenção de reinventar a roda e, curiosamente, talvez seja justamente aí que reside seu estranho fascínio. O longa russo, dirigido por Mikhail Vaynberg, adapta o primeiro volume da duologia escrita por Anna Jane, autora russa extremamente popular entre os leitores jovens. Desde os primeiros minutos, o filme deixa claro que pertence à mesma linhagem de fenômenos como Crepúsculo, After e tantas outras histórias construídas sobre a fantasia da garota comum que cruza o caminho de um rapaz emocionalmente inacessível, temperamental e aparentemente perigoso. Aliás, é impossível não reconhecer essa fórmula quase instantaneamente. O roteiro funciona mais como um fio condutor para encontros, olhares intensos e conflitos passionais do que como uma narrativa realmente interessada em desenvolver uma trama consistente.

Coração Partido transforma clichês adolescentes em um romance irresistivelmente absurdo

No centro da história está Polina, interpretada por Veronika Zhuravleva, uma adolescente que tenta reconstruir a própria vida ao se mudar para uma nova cidade. O recomeço, porém, está longe de ser acolhedor. Ela rapidamente se torna alvo de bullying na escola, isolada em um ambiente hostil que reforça sua sensação de inadequação e solidão. É nesse contexto que surge Bars, vivido por Daniel Vegas, o típico “bad boy” que parece ter saído diretamente de um catálogo de romances adolescentes: misterioso, antissocial, sempre com expressão fechada e cercado por rumores. Quando ele decide protegê-la, impondo em troca suas próprias regras, o filme mergulha sem cerimônia na dinâmica do fake dating, transformando uma relação inicialmente conveniente em um vínculo marcado por dependência emocional, vulnerabilidade e uma necessidade quase desesperada de pertencimento. Enfim, não há grande sutileza aqui. Tudo é exagerado, intenso e melodramático exatamente como o público desse tipo de narrativa costuma esperar.

O curioso é que Coração Partido parece plenamente consciente de seus excessos. A direção de Mikhail Vaynberg adota uma estética que lembra produções televisivas de baixo orçamento, com transições abruptas, enquadramentos simplificados e uma atmosfera que evoca aqueles filmes clássicos de Sessão da Tarde que a gente assistia sem grandes expectativas, mas acabava acompanhando até o fim. Em muitos momentos, o longa assume um espírito quase de filme B romântico, e isso produz um efeito inesperadamente divertido. O que poderia ser apenas um desastre tonal acaba adquirindo um charme involuntário. É aquele velho caso do “tão ruim que fica bom”. O espectador percebe as limitações técnicas, percebe os clichês escancarados, mas também se pega entretido pela sinceridade com que o filme abraça sua própria natureza novelesca.

Grande parte desse entretenimento funciona graças à química entre Veronika Zhuravleva e Daniel Vegas. Os dois sustentam cenas que, no papel, poderiam soar completamente artificiais. Há uma sintonia evidente entre os atores, especialmente nos momentos em que a relação entre Polina e Bars oscila entre atração, conflito e fragilidade emocional. Para os fãs da obra original, essa conexão certamente será um dos principais atrativos da adaptação. Agora, convenhamos: se trouxermos a situação para o mundo real, qualquer pessoa minimamente sensata provavelmente manteria distância de um adolescente que mora sozinho, pilota uma moto de forma irresponsável e aparece nas aulas quando bem entende. Mas o cinema romântico adolescente opera em outra lógica. Aqui, vale a máxima de “não julgue o livro pela capa”, e o roteiro se esforça para justificar o comportamento problemático de Bars, revelando gradualmente as feridas emocionais que moldaram sua personalidade.

Ainda assim, é justamente nessa tentativa de romantizar certos comportamentos tóxicos que Coração Partido encontra seu maior ponto de fragilidade. O filme flerta constantemente com a ideia de que o amor pode “salvar” alguém emocionalmente destruído, uma fantasia recorrente no gênero, mas que já soa bastante desgastada em 2026. Falta uma reflexão mais madura sobre os limites entre proteção e controle. O roteiro prefere investir no impacto emocional imediato, apostando em diálogos carregados de dramaticidade, trilha sonora melancólica e situações construídas para provocar suspiros no público mais jovem.

Mesmo com essas limitações, seria injusto negar que o longa entende perfeitamente seu público-alvo. Com uma sequência já encaminhada para adaptar o segundo livro da duologia de Anna Jane, Coração Partido funciona como uma introdução eficiente a esse universo de paixões intensas, sofrimento adolescente e relacionamentos movidos por extremos emocionais. Para quem busca uma experiência cinematográfica sofisticada, repleta de subtextos e construção psicológica complexa, o filme certamente ficará devendo. Contudo, para os espectadores dispostos a embarcar em um romance exagerado, cheio de absurdos deliciosamente melodramáticos e situações que desafiam qualquer lógica cotidiana, há diversão garantida. Às vezes, o cinema também serve para isso: desligar o senso crítico por duas horas e simplesmente aproveitar a montanha-russa emocional.

Distribuído pela Paris Filmes, Coração Partido estreia nos cinemas brasileiros em 20 de agosto e tem tudo para conquistar os fãs de romances adolescentes que cresceram entre Crepúsculo, After e outras histórias em que o perigo, o sofrimento e a paixão caminham lado a lado.

2.5

BOM

Coração Partido tem tudo para conquistar os fãs de romances adolescentes que cresceram entre Crepúsculo, After e outras histórias em que o perigo, o sofrimento e a paixão caminham lado a lado.

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