Cinco da Tarde transforma o luto em um delicado retrato sobre amizade
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Cinco da Tarde transforma o luto em um delicado retrato sobre amizade
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Cinco da Tarde transforma o luto em um delicado retrato sobre amizade

Dirigido por Eduardo Nunes, cineasta responsável pelo drama Unicórnio, Cinco da Tarde é um filme capaz de encontrar beleza nos silêncios, nas ausências e nos pequenos encontros que transformam vidas. O drama aposta em uma narrativa intimista para abordar temas universais como luto, solidão, amadurecimento e a busca por pertencimento. Grande parte dessa força vem da impressionante entrega de suas protagonistas. Bárbara Luz, que recentemente conquistou atenção por seu trabalho em Ainda Estou Aqui, e a estreante Sharon Cho demonstram uma química rara em cena, conduzindo a narrativa com uma naturalidade desarmante. Juntas, elas carregam o peso emocional da história sem jamais recorrer ao excesso, oferecendo interpretações delicadas, sinceras e profundamente tocantes.

Cinco da Tarde transforma o luto em um delicado retrato sobre amizade

A trama acompanha Anabel (Bárbara Luz), uma jovem de 17 anos que tenta compreender o vazio deixado pela morte da avó, figura central em sua vida. Em meio ao processo doloroso de despedida, ela acaba se aproximando de Meiko (Sharon Cho), uma vizinha reservada, quase invisível aos olhos do mundo. O que inicialmente parece ser apenas uma convivência casual logo se transforma em algo muito mais significativo. Aos poucos, conversas tímidas, olhares compartilhados e momentos aparentemente banais revelam afinidades inesperadas e sentimentos que ambas mantinham guardados. Paralelamente, ao retornar ao apartamento da avó, Anabel passa a vivenciar acontecimentos estranhos, marcados por uma presença misteriosa que parece habitar aquele espaço. Longe de assumir uma postura tradicionalmente sobrenatural, o filme utiliza esse elemento como uma extensão emocional da protagonista, permitindo que ela compreenda melhor a própria dor e encontre sentido em um momento de profunda transformação.

A morte da avó funciona como o grande catalisador da narrativa. Quando a conhecemos, Anabel está emocionalmente à deriva. Ela não possui respostas, não sabe como seguir em frente e, sobretudo, não encontra um lugar onde possa depositar a dor que a consome. Eduardo Nunes retrata esse estado de suspensão com extrema sensibilidade. Não há grandes explosões dramáticas, nem discursos elaborados. Existe apenas o silêncio desconfortável que acompanha a perda. É justamente nesse espaço vazio que Meiko surge. Primeiro de forma discreta, quase imperceptível. Depois, tornando-se uma presença constante. Sua timidez não afasta Anabel; pelo contrário. É justamente a tranquilidade da garota que cria um ambiente seguro para que a protagonista comece a falar, compartilhar memórias e expor fragilidades que até então permaneciam sufocadas. O nascimento dessa amizade acontece de forma orgânica e genuína, como acontece na vida real. Sem pressa, sem fórmulas e sem artificialidades.

Cinco da Tarde é uma reflexão sobre aquilo que vem depois dela. Sobre os espaços vazios que permanecem quando alguém importante parte e sobre a difícil tarefa de seguir vivendo quando tudo parece ter perdido o sentido. Afinal, o luto não é apenas a ausência física de alguém. É também a necessidade de reconstruir uma identidade que, de alguma forma, estava conectada àquela pessoa. O longa compreende essa complexidade com rara maturidade. Em vez de oferecer respostas fáceis, prefere fazer perguntas. Como continuar? O que fazemos com as lembranças? Como aprendemos a conviver com uma saudade que nunca desaparece completamente? São questões universais que encontram eco em qualquer espectador que já tenha enfrentado algum tipo de perda significativa.

Eduardo Nunes demonstra enorme segurança em sua direção ao compreender que a força da história reside justamente em suas personagens. Sua câmera observa, acompanha e respeita o tempo de cada emoção. Não há qualquer tentativa de manipular sentimentos ou acelerar conflitos. O diretor escolhe caminhar ao lado de Anabel e Meiko, registrando momentos cotidianos que, aos poucos, ganham um significado extraordinário. Essa abordagem contemplativa permite que o relacionamento entre as duas evolua de maneira gradual e convincente.

Outro aspecto fundamental da obra está em sua estética visual. A decisão de filmar em preto e branco vai muito além de uma escolha estilística. Ela funciona como uma extensão direta do estado emocional de Anabel. O mundo perdeu parte de suas cores após a morte da avó, e a fotografia traduz esse sentimento de maneira elegante e simbólica. As imagens carregam uma melancolia constante, mas nunca se tornam excessivamente sombrias. Pelo contrário. Existe uma beleza delicada em cada enquadramento, como se o filme estivesse permanentemente buscando luz em meio à escuridão. O contraste entre sombras e luminosidade reforça a jornada emocional da protagonista, transformando a fotografia em uma poderosa ferramenta narrativa.

Mesmo com aproximadamente duas horas de duração, Cinco da Tarde jamais transmite a sensação de desgaste ou excesso. Curiosamente, acontece justamente o contrário. À medida que a narrativa avança, cria-se uma intimidade tão grande com aquelas personagens que o espectador passa a enxergá-las quase como pessoas reais. Quando os créditos finalmente surgem, a impressão não é de encerramento, mas de despedida.

Cinco da Tarde é um filme delicado, sensível e profundamente comovente. Um retrato honesto sobre o luto, a amizade e os encontros inesperados que surgem quando mais precisamos deles. Uma obra que entende que crescer também significa aprender a conviver com as ausências e que, às vezes, as conexões mais importantes surgem justamente nos momentos em que nos sentimos mais perdidos.

O longa estreia no dia 18 de junho nos cinemas brasileiros.

3.5

BOM

Cinco da Tarde é um filme delicado, sensível e profundamente comovente. Um retrato honesto sobre o luto, a amizade e os encontros inesperados que surgem quando mais precisamos deles.

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