Muito além do que se espera de um filme de super-herói, Cara-de-Barro chega aos cinemas com uma proposta diferente: um body horror intenso, que remete a clássicos do gênero, como A Mosca.

Na trama, acompanhamos Matt Hagen, um ator em ascensão que decide retornar à sua cidade natal, Gotham City. Durante uma festa, o astro acaba se envolvendo com um criminoso que desfigura seu rosto após um ataque. Com a mídia promovendo uma onda de mentiras para destruir sua reputação e seus contratantes e amigos lhe virando as costas, Hagen decide se tornar cobaia de um tratamento experimental capaz de restaurar sua pele sem deixar marcas. No entanto, o procedimento, que inicialmente parece um sucesso, provoca efeitos colaterais que afetam sua aparência e alteram sua percepção do mundo.
A escolha de trazer um filme de terror com classificação indicativa para maiores de 18 anos ao universo dos super-heróis foi uma jogada arriscada, mas que até compensa no resultado final. Pode ser que Cara-de-Barro não se torne um sucesso de bilheteria, mas isso pouco importa diante do resultado positivo que a produção está tendo nas primeiras exibições.
Temos uma história de origem clássica, que segue padrões já bastante comuns nesse tipo de filme. Do ponto de vista narrativo, a produção não se diferencia de tantos outros títulos do gênero.
O que mais chama a atenção em Cara-de-Barro são as cenas de horror. Aqui, vale pensar na diferença entre terror e horror: o longa não aposta em uma atmosfera sombria e assustadora, mas investe em cenas gráficas e situações desconfortáveis, principalmente na primeira metade, quando encontramos os momentos mais impactantes de horror corporal. A utilização de efeitos práticos é, sem sombra de dúvidas, um dos grandes acertos da produção. São eles que tornam essas cenas tão convincentes e capazes de provocar o desconforto e a agonia necessários para transmitir seu impacto ao espectador.
Apesar disso, o filme parece apostar mais no impacto visual do que na construção de uma experiência verdadeiramente perturbadora. Com um personagem e uma classificação indicativa que permitem explorar temas mais complexos, a produção perde a oportunidade de aprofundar o horror psicológico e construir uma atmosfera capaz de inquietar o espectador mesmo quando não há nada de explícito na tela. Afinal, estamos falando sobre um personagem que foi desconfigurado e agora pode copiar a aparência de qualquer pessoa ao seu redor, o que poderia ser usado de forma mais efetiva em diferentes momentos do filme. A impressão que fica é que na metade do caminho os executivos do estúdio precisaram lembrar os realizadores que aquele era um filme “de herói” e por isso tiveram que aliviar as cenas. O resultado final está muito longe daquilo que foi mostrado nos teasers iniciais.
Além dos efeitos práticos do horror corporal, é importante destacar a grandiosidade de Gotham City, que assume um papel tão importante quanto o próprio vilão. Inspirada no expressionismo alemão, a cidade é violenta e decadente, mas também boêmia e pulsante, com bares, teatros, usinas e uma infinidade de letreiros de neon. Essa representação de uma Gotham viva, que se diferencia bastante daquela apresentada em Batman (2022), ajuda a construir as relações entre seus habitantes e a evidenciar as consequências de sistemas falhos e da corrupção sistêmica em uma sociedade.
Essa construção da cidade funciona especialmente bem quando colocada em paralelo com a história de Hagen. O roteiro não tenta revelar um lado bom do vilão nem força o espectador a sentir simpatia por ele. Em vez disso, acompanhamos a transformação gradual de alguém que acaba se tornando justamente aquilo de que tentava fugir. Não há uma lição de moral explícita em Cara-de-Barro, mas consequências de escolhas e uma demonstração de como a mente pode ser corrompida pela dor, pelo desprezo e pela injustiça.
Tom Rhys Harries, intérprete do vilão, foi uma escolha surpreendente para o papel. O ator consegue explorar as diferentes facetas do personagem sem torná-las caricatas. Sua linguagem corporal e seu olhar são suficientes para transmitir o que Matt Hagen sente e revelar como sua mente se torna cada vez mais perturbada.
No fim, Cara-de-Barro é uma surpresa agradável. Apesar de não reinventar as histórias de origem, o longa encontra no horror corporal uma identidade própria. Ao combinar efeitos práticos, uma Gotham City decadente e uma transformação marcada pela dor e pelo desprezo humano, a produção constrói uma experiência que vai além da fórmula tradicional do gênero, ainda que não explore todo o potencial de terror de sua proposta.
Mais do que apresentar um novo vilão, o filme demonstra que o DCU pode experimentar diferentes linguagens cinematográficas sem abandonar sua identidade. Resta saber se outras produções do universo seguirão esse caminho e terão coragem de se arriscar para além do já desgastado modelo de filme de super-herói.
MUITO BOM
Cara-de-Barro encontra no horror corporal uma identidade própria ao combinar efeitos práticos, uma Gotham City decadente e uma transformação marcada pelo desprezo humano. O filme vai além da fórmula tradicional do gênero, ainda que não explore todo o potencial de terror de sua proposta.