A Miss transforma concursos de beleza em reflexão sobre liberdade e pertencimento
Divulgação/Olhar Filmes
A Miss transforma concursos de beleza em reflexão sobre liberdade e pertencimento
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A Miss transforma concursos de beleza em reflexão sobre liberdade e pertencimento

Em sua estreia na direção de longas-metragens, Daniel Porto demonstra uma surpreendente maturidade narrativa ao conduzir A Miss como uma dramédia que encontra sua força justamente na delicadeza com que aborda temas complexos. O filme parte de uma premissa aparentemente leve, o universo dos concursos de beleza, para construir uma história sobre expectativas familiares, identidade e a liberdade de trilhar caminhos próprios. O diretor compreende que o humor não precisa anular a profundidade dramática; pelo contrário, ele se torna o mecanismo ideal para suavizar as tensões e permitir que o espectador se aproxime emocionalmente dos personagens antes que os conflitos mais densos se revelem. Essa estratégia torna a narrativa acessível sem jamais diluir sua relevância temática, fazendo de A Miss um exemplo de como o cinema popular pode dialogar com questões sociais contemporâneas sem perder o frescor do entretenimento.

A Miss transforma concursos de beleza em reflexão sobre liberdade e pertencimento

Grande parte do impacto do filme nasce do trabalho do trio protagonista formado por Helga Nemetik, Pedro David e Maitê Padilha, que constroem personagens profundamente humanos, com imperfeições, inseguranças e afetos reconhecíveis. Helga Nemetik interpreta Iêda com um equilíbrio admirável entre comicidade e vulnerabilidade, evitando transformar a personagem em uma caricatura da mãe controladora. Sua atuação revela, aos poucos, que por trás do desejo de ver a filha vencer um concurso de Miss existe uma tentativa desesperada de preservar um passado que lhe oferecia reconhecimento e sentido. Já Maitê Padilha traz uma naturalidade tocante à Martha, representando com autenticidade a angústia de jovens que precisam corresponder a expectativas familiares que não refletem suas próprias aspirações. Pedro David, por sua vez, oferece ao filme alguns de seus momentos mais sinceros ao construir Alan como um personagem que atravessa o processo de descoberta pessoal sem que isso seja tratado de forma didática ou excessivamente expositiva — sua jornada é vivida, não explicada.

O roteiro encontra um de seus maiores acertos ao estruturar a trama a partir do plano improvável dos irmãos, que decidem permitir que Alan concorra ao título de Miss sem o conhecimento da mãe, com o apoio do carismático “tio Athena”, interpretado por Alexandre Lino. A ideia poderia facilmente escorregar para o terreno da comédia farsesca, mas Daniel Porto prefere utilizá-la como ponto de partida para discussões mais amplas sobre gênero, expectativas sociais e os modelos de sucesso que são impostos dentro das próprias famílias. O humor surge, então, como consequência das situações e das personalidades dos personagens, e não como uma sucessão de piadas gratuitas, o que preserva a coerência emocional da narrativa e permite que os momentos dramáticos tenham maior impacto quando finalmente emergem.

Outro mérito evidente de A Miss está na forma como o filme trata a temática LGBTQIA+ com sensibilidade e naturalidade, sem recorrer a discursos explicativos ou à necessidade de transformar cada cena em um manifesto explícito. As descobertas de Alan são apresentadas como parte de um processo maior de amadurecimento, que também envolve Martha e a própria Iêda, criando uma dinâmica em que todos os personagens estão, simultaneamente, aprendendo a rever certezas e a reconstruir suas identidades. O resultado é um retrato familiar que reconhece as fraturas emocionais causadas pela incompreensão, mas que também aposta na possibilidade de reconciliação por meio do afeto e da escuta — elementos que o filme enfatiza sem sentimentalismo excessivo.

Visualmente, a produção aposta em uma estética simples e funcional, priorizando a proximidade com os personagens e os ambientes cotidianos, o que reforça a sensação de intimidade narrativa. Essa escolha estética conversa diretamente com o tom do roteiro, que prefere trabalhar pequenas transformações emocionais em vez de grandes reviravoltas dramáticas. Assim, quando os confrontos familiares finalmente acontecem, eles carregam uma força emocional acumulada ao longo da história, fazendo com que cada diálogo tenha peso e significado reais.

No fim das contas, A Miss é um filme que encontra sua grandeza justamente na simplicidade com que observa seus personagens. Ao falar sobre concursos de beleza, Daniel Porto não está interessado na competição em si, mas no que ela simboliza: as expectativas herdadas, os sonhos projetados pelos pais e o difícil, porém necessário, processo de se libertar dessas imposições para construir uma identidade própria. Entre risadas, tensões e reconciliações, o longa se revela uma dramédia sensível, inteligente e profundamente humana, daquelas que não dependem de grandes espetáculos para permanecer na memória do espectador. É um trabalho de estreia que já sinaliza um olhar autoral promissor e que merece ser visto e debatido dentro do atual panorama do cinema brasileiro.

Com distribuição da Olhar Filmes, A Miss estreia no dia 26 de fevereiro nos cinemas.

3.5

BOM

Entre risadas, tensões e reconciliações, o longa se revela uma dramédia sensível, inteligente e profundamente humana, daquelas que não dependem de grandes espetáculos para permanecer na memória do espectador. É um trabalho de estreia que já sinaliza um olhar autoral promissor e que merece ser visto e debatido dentro do atual panorama do cinema brasileiro.

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