Vencedor do Urso de Prata – Prêmio do Júri no Festival Internacional de Cinema de Berlim 2025, A Mensageira (El mensaje) confirma uma tendência cada vez mais evidente no circuito dos grandes festivais: o cinema latino-americano que prefere o silêncio à catarse, a ambiguidade à resposta fácil, e a dor íntima à espetacularização do sofrimento. O reconhecimento em Berlim não surge por acaso. O filme encontra força justamente em sua recusa ao excesso. Ele se debruça sobre a carência humana com uma delicadeza quase desconcertante, explorando a necessidade desesperada de quem busca uma última palavra, um sinal derradeiro, uma explicação espiritual para aquilo que a realidade insiste em deixar sem respostas.

Dirigido por Iván Fund, o longa é filmado em um preto e branco austero, que não apenas embeleza a imagem, mas a desidrata emocionalmente, como se cada quadro estivesse esvaziado de cor para refletir o luto silencioso de seus personagens. A escolha estética não é mero capricho autoral: ela reforça a atmosfera suspensa da narrativa e cria um distanciamento quase documental. Fund estrutura o filme como um road movie intimista, acompanhando uma família que percorre o interior argentino em uma pequena van, oferecendo um serviço peculiar — a suposta comunicação com entes queridos que já partiram ou estão à beira da despedida. É nessa travessia geográfica que se desenha a travessia moral.
No centro dessa engrenagem está a jovem Anika, interpretada com impressionante maturidade por Anika Bootz. Sua presença em cena é magnética porque nunca se impõe — ela simplesmente existe com uma naturalidade quase desconcertante. Há algo de profundamente inquietante na maneira como a personagem oscila entre a leveza infantil e uma melancolia precoce, como se estivesse aprisionada em uma responsabilidade que não escolheu. Bootz constrói uma protagonista que parece compreender mais do mundo do que deveria, mas que ainda preserva pequenos gestos de brincadeira que denunciam sua idade. É nesse contraste que o filme encontra sua tensão mais potente.
Ao seu redor, os pais vividos por Mara Bestelli e Marcelo Subiotto acrescentam camadas fundamentais à ambiguidade moral da obra. Não se trata de vilões oportunistas explorando a dor alheia de forma caricatural. Pelo contrário. O roteiro trabalha com a ideia de que o oportunismo aqui nasce como estratégia de sobrevivência. O que vemos é um núcleo familiar improvisado, frágil e movido por necessidades econômicas e emocionais. O filme nunca entrega ao espectador uma resposta definitiva: eles acreditam no que fazem? Ou apenas aprenderam a performar a fé porque alguém precisa pagar a gasolina da próxima cidade?
A Mensageira aposta todas as suas fichas nessa brecha emocional onde o oportunismo deixa de ser vilania explícita e passa a ser negociação constante entre ética e necessidade. O longa nos coloca diante de um desconforto silencioso: se uma mentira conforta alguém em luto, ela continua sendo apenas mentira? O cinema de Fund não aponta o dedo, não julga, não condena. Ele observa. E, ao observar, nos obriga a reconhecer que fé, afeto e manipulação podem habitar o mesmo espaço com naturalidade perturbadora.
Entretanto, é justamente nessa aposta na contemplação que reside o maior problema do filme. O ritmo é excessivamente lento, por vezes quase inerte. A melancolia que deveria envolver o espectador acaba, em determinados momentos, afastando-o. Há sequências que parecem prolongar o silêncio não para aprofundar o drama, mas para reiterá-lo. O minimalismo, quando mal dosado, corre o risco de se tornar repetição. E aqui, em alguns trechos, a narrativa parece estagnada, como se a estrada percorrida pela van não encontrasse novos horizontes dramáticos.
Ainda assim, reduzir A Mensageira a seu ritmo arrastado seria injusto. O filme permanece como uma experiência sensorial e ética rara, dessas que ecoam dias depois da sessão. Seu impacto não está na explosão emocional, mas na infiltração silenciosa. Ao final, o que fica não é a resposta sobre a veracidade das “mensagens”, mas a constatação de que o ser humano, diante da perda, está disposto a acreditar em quase qualquer coisa — desde que isso ofereça um pouco de consolo.
E talvez seja exatamente essa a maior força do vencedor do Urso de Prata de 2025: lembrar que, no cinema e na vida, a verdade nem sempre importa tanto quanto a necessidade de continuar seguindo pela estrada.
Com distribuição do Filmes do Estação, A Mensageira estreia no dia 19 de março nos cinemas brasileiros.
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E talvez seja exatamente essa a maior força do filme vencedor do Urso de Prata de 2025: lembrar que, no cinema e na vida, a verdade nem sempre importa tanto quanto a necessidade de continuar seguindo pela estrada.