Há personagens que nascem para ser amados. Outros, para virar meme. E existem aqueles raros casos em que o público sente um ódio tão visceral que isso se transforma em admiração pelo ator. Foi exatamente esse sentimento agridoce que tomou conta do último dia do SANA 2026 – Parte 1, quando Jack Gleeson, eternizado como o sádico Joffrey Baratheon em Game of Thrones, subiu ao palco para encontrar, pela primeira vez, seus fãs brasileiros.

E sim: a recepção foi histórica.
Entre risadas, memórias de bastidores e reflexões surpreendentemente maduras sobre carreira e atuação, Gleeson mostrou ser o oposto absoluto do rei mimado que marcou uma geração de espectadores.
Primeira vez no Brasil — e já apaixonado
Logo nos primeiros minutos do painel, Jack não escondeu o entusiasmo com a viagem. Disse ter se encantado com Fortaleza, elogiou a energia do público nordestino e fez questão de comentar algo que conquistou qualquer cearense na hora: a comida local.
Segundo ele, experimentar a culinária típica foi uma das melhores partes da viagem — e já deixou claro que quer voltar em breve.
Esse tipo de conexão espontânea com o público fez o auditório reagir como um show de rock. Não era só um ator de uma série famosa. Era alguém genuinamente feliz por estar ali.

O vilão perfeito para odiar (e o desafio de interpretar o mal)
Gleeson falou com franqueza sobre o peso de ter interpretado um dos personagens mais odiados da televisão moderna.
“Joffrey é o tipo de personagem que força uma reação forte do público. E eu gosto disso como ator.”
Para ele, o desafio nunca foi ser “malvado”, mas tornar o personagem crível. O ator explicou que buscava nuances reais, fugindo do caricatural. Talvez por isso Joffrey funcione tão bem até hoje: ele não é um vilão fantasioso — é cruel de um jeito desconfortavelmente humano.
O próprio Jack brincou que ficou receoso sobre como os fãs reagiriam quando a série explodiu, mas a repercussão veio rápido demais — “escalonou muito rápido”, como definiu. De repente, ele fazia parte de um fenômeno cultural.
A cena mais difícil de gravar
Entre tantas mortes icônicas da série, ele destacou a do próprio personagem como o maior desafio emocional e técnico.
A famosa cena do casamento — gravada na Croácia — exigiu equilíbrio para não soar artificial.
“Eu não queria que parecesse fake. Precisava ser convincente.”
O silêncio respeitoso da plateia durante o relato mostrou como aquele momento ainda é marcante para quem acompanhou a série.
Encontros, sonhos e “e se?”
Durante o evento, Gleeson conheceu o dublador brasileiro Charles Emmanuel, voz nacional de diversos personagens icônicos. O encontro rendeu fotos, risadas e aquele tipo de crossover cultural que fã de dublagem adora.
Ele também comentou sobre colegas de elenco com quem quase não contracenou. Citou Emilia Clarke como alguém com quem gostaria de ter tido nas cenas.
E embarcou na brincadeira clássica:
Se Joffrey encontrasse Daenerys?
Resposta rápida:
“Ela intimidaria ele. Ele é covarde. Sairia chorando. Ela venceria fácil.”
O auditório veio abaixo.
Qual casa ele escolheria?
Em tom leve, Jack disse que talvez fosse da Targaryen — embora considere os Stark, “apesar do frio demais”.
Outra confissão divertida: ele leu o primeiro livro da saga e depois pesquisou o destino do personagem na internet. Ou seja, já sabia o que o aguardava.
E ainda soltou a piada que virou manchete instantânea:
“A série meio que caiu depois que eu morri, né?”
Autocrítica + humor ácido = plateia conquistada.
Vida após Game of Thrones
Diferente do que muitos imaginavam, ele esclareceu que o afastamento da atuação não teve relação com reações negativas do público.
Pelo contrário: recebeu muito carinho.
O motivo foi pessoal. Precisava respirar.
Durante esse período, fundou uma companhia de teatro na Irlanda com amigos, explorou outras áreas criativas e tentou redescobrir o que queria fazer artisticamente.
Agora, sente falta das telas.
TV e cinema voltaram a chamar.
Ele também comentou que aguarda novidades sobre House of Guinness, série da Netflix que pode marcar seu retorno mais consistente — embora ainda dependa de renovação.
Um ator em paz com o próprio legado
Talvez o mais interessante de todo o painel tenha sido perceber que Jack Gleeson não parece preso ao passado. Ele entende o impacto cultural de Joffrey, respeita os fãs, mas também não quer ser definido apenas por um papel.
E isso é raro.
Alguns atores fogem de seus personagens.
Ele abraça — e segue em frente.
No fim das contas, o vilão mais odiado de Westeros saiu do SANA como um dos convidados mais queridos do evento.
Ironia perfeita.