A HBO Max aposta em uma nova leitura contemporânea de Dona Beja para marcar um novo capítulo das novelas feitas por streaming. Homenageando a versão anterior e apresentando uma versão mais ousada, o elenco da novela compareceu à uma coletiva de imprensa na terça-feira (27) em São Paulo, contando com a presença de Grazi Massafera e o autor Daniel Berlinsky.
Para Berlinsky, essa nova versão não se trata de um “remake”, e sim uma releitura de tudo que cerca a história de Dona Beja. “É uma releitura, não é um remake, isso é superimportante, mas não quer dizer que eu tenha pego a novela original e desrespeitado, alterado”, complementou o autor.
Baseado em fatos reais
Segundo consta em livros, Ana Jacinta de São José — ou melhor, Dona Beja — nasceu em Formiga (MG) e viveu entre 1800 e 1873. Dona de uma beleza arrebatadora, à medida que crescia chamava a atenção de todos por sua pele clara, olhos azuis e cabelos loiros. Seu avô a apelidou de “Beja” por considerar sua aparência tão rara quanto a flor beijo.
Com apenas 15 anos, Ana foi sequestrada por Joaquim Inácio Silveira da Motta, um homem de confiança do rei. Levado para a Vila de Paracatu, ela foi obrigada a se tornar amante de Motta. No entanto, após o imperador Dom João VI exigir o retorno de Joaquim ao Rio de Janeiro, Ana conseguiu se livrar do homem que a raptou e voltou a viver em Araxá.
Mesmo após retornar à cidade, sua vida não foi fácil. Julgada pelas mulheres da sociedade, que a consideravam impura, Ana foi marginalizada e condenada por um ambiente extremamente conservador. Determinada a se vingar daqueles que a menosprezaram, ela decide abrir um bordel com o dinheiro que Joaquim lhe deu. Assumindo definitivamente o nome “Dona Beja”, passa a comandar o local e a se prostituir na Chácara do Jatobá, fazendo questão de se relacionar com homens casados da cidade.
Por obra do destino, ela se reencontra com Manoel, seu primeiro e único grande amor. Após retomarem o relacionamento, Ana descobre que está grávida — o que não a impediu de continuar exercendo suas atividades e engravidar novamente, desta vez de outro homem. Por fim, Ana decide abandonar Araxá e partir com suas duas filhas para Bagagem, cidade de Minas Gerais. Tornando-se empresária do comércio de diamantes, viveu uma vida luxuosa e confortável até morrer de nefrite, em 1873.
Para Daniel, a Dona Beja retratada nessa nova leitura está longe de ser a retratada em contos, da primeira adaptação e da que nós – público – iremos criar dentro de nossa cabeça. “O que acontece aqui é uma mitificação da mitificação, da mitificação e é super importante. Mas o que se sabe sobre essa mulher, Ana Jacinta de São José, é muito pouco (…)”, complementa o autor.

Uma versão mais ousada
“Essa não é a primeira vez que Dona Beja é adaptada para a televisão brasileira. Em 1986, a Rede Manchete adaptou a história com Maitê Proença no papel principal. Assim como sua personagem, a novela foi marcada como “a frente do seu tempo” por justamente tratar de temas sexuais de forma mais aberta em uma época que o Brasil não via com bons olhos esse tipo de representação. Falei com a Maitê, ela me recebeu, fui pedir benção na gente. É minha musa. Uma inspiração, né? E foi incrível a conversa. e desde então a gente ficou amigas (…)”, revelou Grazi Massafera, que assume o papel da personagem após os 40 anos, agora apresentada em uma versão mais ousada.
Mesmo após dois séculos, a imagem da mulher ainda é julgada moralmente pela sociedade contemporânea, e essa nova adaptação de Dona Beja promete refletir essa realidade. A atriz Erika Januza, que faz a personagem Cândida do Serrado na novela, complementa: “Então é a mesma força que Beja teve que construir. É algo que eu prezo muito, de que a gente, por mais que seja difícil, precisa entender que não somos o que a opinião alheia diz e que as mulheres tem que entender que essa força interna parece uma ilusão falar sobre isso, mas que a gente pode sim passar por cima disso, mostrar que é melhor que isso, que é o que Beja faz independente de uma cidade inteira. Falando dela, ela vai lá e faz e faz direito. Então, acho que cada mulher na sua vivência com sua potência pode fazer isso. Então espero que Beja passe essa mensagem para essas mulheres no dia a dia, que não é só ficção, que a gente pode vencer a opinião alheia (…)”.
Uma novela à frente do seu tempo
A representação feminina é uma, das várias, pautas de diversidade que essa nova leitura pretende abordar em sua narrativa. A história passa a ter uma nova roupagem, com novos temas a serem abordados e discutidos, como racismo, homofobia, sexualidade, machismo e desigualdade social, sem medo de repercussões negativas em redes sociais: “A gente sabe que vai incomodar, e o incômodo é bom. Sinal que eu estou fazendo alguém sentir, porque nós também fomos incomodar a gente escrevendo o texto (…) ela convida a gente a ficar em movimento. Não é água parada”, explica Berlisnky.
O ator David Junior, que dá vida ao personagem Antônio Sampaio, comenta sobre a importância da representação pelas imagens: “Uma coisa que me chamou a atenção é que desse primeiro capítulo vocês também viram que eu, enquanto corpo preto, estava andando a cavalo e não puxando um cavalo? Isso já faz uma diferença enorme no nosso imaginário, no imaginário do nosso país (…)”.
Dona Beja terá 40 capítulos e estreia na HBO Max no dia 2 de fevereiro, com os cinco primeiros episódios disponíveis.