A Fúria do Pantera Negra

O Pantera Negra sempre foi um caso curioso na Marvel Comics. Primeiro super-herói negro, foi criado por Stan Lee e Jack Kirby em 1966. Sua primeira aparição foi nas páginas da mais bem sucedida revista da editora, o Quarteto Fantástico. Sua história de origem e seu país natal, a nação africana supertecnológica Wakanda, são apresentados juntos. Pouco depois Roy Thomas o coloca nos Vingadores, onde em pouco tempo se torna líder do grupo.

É estranho pensar que, apesar de todo esse cartel e do grande apelo do personagem, ele passou a maior parte do tempo sem uma revista própria, e por isso possui poucos arcos próprios de sucesso.

O Pantera Negra só foi ganhar um título próprio quando a Marvel revitalizou a revista Jungle Action, da década de 1950, primeiro reimprimindo trabalhos anteriores e depois aventuras do Pantera com os Vingadores. Foi na edição 6, de setembro de 1973, com roteiro de Don McGregor, junto com desenho de Rick Buckler e arte-final de Klaus Janson, que iniciaram a revista solo do personagem. E iniciaram com um arco extenso e intricado, que muitos se referem como a primeira graphic novel da Marvel Comics, A Fúria do Pantera Negra.

Um clássico da Nona Arte

A Fúria do Pantera Negra é um arco em 12 edições, que vai da Jungle Action 6 a 18, com início, meio e fim. T’Challa volta a Wakanda após um tempo ausente, e percebe que seu reino não é o mesmo que deixou, e que ele mesmo não é mais o mesmo. Surge a ameaça de Erik Killmonger, que deseja tomar o reino para si, e se reforçou com uma galeria de capangas, com os mais diversos poderes e habilidades.

É importante perceber que Wakanda, mesmo antes, não era um reino de paz. O tempo de reclusão cobrou seu preço, e o wakanianos são representados como um povo xenófobo, que despreza o mundo exterior e suas inovações. T’Challa é mal visto por seu período fora do reino, e sua namorada americana, Monica Lynne, é ostensivamente desrespeitada. O rei cientista trouxe inovações tecnológicas ao país, mas uma grande parte da população se recente com isso, como quando vemos uma mulher com medo de tomar uma injeção, e que prefere ir ao herbalista da tribo a visitar o hospital.

É nesse ambiente instável que o Pantera Negra vai agir, precisando lidar com a ameaça externa de Killmonger e a ameaça interna de sua corte, onde muitos não respeitam o rei e o desafiam abertamente. T’Challa vai precisar viajar até os cantos mais inóspitos de Wakanda, para conhecer os mistérios de seu reino e lidar com seus inimigos (visíveis e invisíveis), que cada vez mais apertam o certo, usando de traição, intriga e violência.

Influência de Steranko

O uso da narrativa dentro do título
Quando usada por Steranko

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jim Steranko foi um quadrinista que revolucionou a indústria dos quadrinhos no início dos anos 1960, principalmente pelo seu trabalho em Nick Fury: Agente da SHIELD. Suas páginas duplas, ângulos ousados e combinação de texto e desenhos mantém sua energia e frescor ainda hoje.

Enquanto McGregor se manteve escrevendo o roteiro sozinho, a Fúria do Pantera Negra teve diferentes desenhistas, Buckler, Billy Graham e, por apenas uma edição, o então já veterano e reconhecido Gil Kane (um dos criadores do Lanterna Verde da Era de Prata).

Todos eles mantiveram um estilo bem característico na revista, onde podemos sentir uma influência pesada do trabalho de Steranko. Os títulos da história se misturando com o cenário, páginas duplas exuberantes, longas sequências sem diálogo ou texto, perspectivas diferentes. A arte, por si só, já faria valer a pena ler esse clássico.

Um clássico incompreendido

Várias cenas diferentes dentro de uma página dupla

É difícil saber porque A Fúria do Pantera Negra não tem o mesmo apelo que outros clássicos da época. A década de 1970 foi recheada de clássicos na Casa das Ideias: Homem-Aranha, de Gerry Conway; Capitão Marvel, de Jim Starlin; Vingadores e Capitão América, de Steve Englehart; A Espada Selvagem de Conan, de Thomas e John Buscema… A década terminou com a editora com dois carros chefe que marcariam a história da arte sequencial: X-Men, de Chris Claremont e John Byrne, e Demolidor, de Frank Miller.

Em algum lugar desse cartel, o Pantera Negra de McGregor se perdeu, não recebendo o destaque que deveria. Uma pena, porque em A Furia do Pantera Negra encontramos uma aula de arte sequencial,como resume Dwayne McDuffie, escritor de quadrinhos e de animações:

“Este clássico subestimado é provavelmente o épico de super-heróis em várias partes mais bem escrito da história. Se você puser as mãos nele… sente-se e o leia inteiro. Ele é praticamente impecável, cada edição, cada cena é uma parte necessária e essencial do todo”.

“Agora volte e leia qualquer edição individual. Você encontrará palavras e imagens perfeitamente integradas; personagens e situações introduzidos com clareza; uma recapitulação concisa (as vezes até transparente); relacionamentos entre personagens desenvolvidos belamente; pelo menos um vilão bacana; uma obra de ação atordoante que testa as habilidades do herói; e uma história que é sempre progressiva, levando em direção a uma conclusão definitiva e satisfatória. É isso que todos nós deveríamos estar produzindo todo santo mês. Don e seus colegas conseguiram com apenas 17 páginas de história por edição”.

Um clássico, obrigatório para todos os fãs de quadrinhos.

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