O 11º Tripulante é a primeira de Moto Hagio no Brasil, tendo sido publicada originalmente em 1975. Considerada uma das mangakás pioneiras na formação do mangá shojo moderno (trabalhos voltados para o público feminino), e uma das principais figuras na ficção científica japonesa, ela foi responsável por influenciar inúmeros artistas desde a sua estreia em 1969 aos 20 anos de idade. Vencedor do Shogakukan Manga Award de 1976, esta obra se tornou um marco na história do mangá graças a abordagem pioneira de temas como papéis de gênero, classe e questões sobre o que significa ser humano.
O volume único de O 11º Tripulante, lançado pela Editora JBC, conta com duas partes. A primeira é um mistério de ritmo acelerado, ambientado em um local fechado, combinado com uma corrida contra o tempo para impedir a iminente catástrofe científica. Enquanto isso, a segunda parte é um drama político ambientado em um sistema solar onde dois planetas estão à beira da guerra devido a um golpe de estado caótico.
O 11º Tripulante, segue um grupo de astronautas de diferentes espécies da galáxia que estão prestes a começar sua prova final da Universidade Espacial Cosmos. Todos acabaram de passar pelas duas primeiras etapas do difícil processo seletivo e são colocados juntos para completar a terceira: sobreviver em uma nave espacial abandonada por cinquenta e três dias. O grupo com dez pessoas selecionadas pela Universidade deve cumprir a missão sem qualquer meio de comunicação com o mundo exterior, exceto por um botão de emergência. Porém, ao fecharem as escotilhas, todos se dão conta que existem onze pessoas no recinto. A maior preocupação imediata passa ser descobrir quem é o décimo primeiro tripulante, um possível impostor. Sem saber o que isso significa ou como afetará o resultado do exame, o grupo agora também precisa evitar o pânico. Isso é mais fácil de dizer do que fazer, já que todos estão sob enorme pressão, seja por serem o jovem rei de uma nação, um órfão tentando encontrar seu passado ou alguém cujo futuro inteiro depende de concluir o teste com sucesso.
Os personagens são apresentados um por um ao passarem por um teste conduzido por Tada, que possui poderes intuitivos. Porém, todos parecem legítimos, o que não impede que eles briguem o tempo todo. Tada é confrontado o tempo todo pelo Rei, que acredita que ele é o infiltrado por sempre saber como se locomover dentro da nave. E Frol, um personagem ainda sem gênero definido, mas que tem o desejo de se tornar um homem, passa o tempo todo grudado em Tada, normalmente tentando arrumar alguma briga com ele. Então, descobrir quem é a pessoa a mais na nave e as pequenas discussões passam a ter menos importância quando problemas maiores surgem e eles precisam lutar juntos para estabilizar a órbita da nave em que se encontram e combater uma doença misteriosa que pode acabar com a missão.
Nessa história, dois personagens são intersexuais e isso é bastante relevante para a trama. Knume permanecerá intersexual para o resto da vida e não tem problemas com isso, considerando a cultura de seu planeta. Já Frol, deseja desesperadamente ser homem devido à forma como as mulheres são tratadas em seu planeta, já que todas elas devem se casar em sua sociedade polígama e espera-se que tenham filhos. As questões de gênero de Frol se tornam uma importante fonte de desenvolvimento de personagem, enquanto luta para não se apaixonar pelo protagonista, Tada, e para lidar com as expectativas de feminilidade com as quais foi criado.
Mesmo buscando explorar conceitos mais amplos de gênero, a obra permanece com uma visão mais antiga sobre o assunto e que alguns leitores hoje em dia podem considerar um pouco problemáticas. Mas é preciso lembrar que esta história foi escrita nos anos 1970 e aborda os papéis de gênero daquela época. A espécie e a cultura de Frol são projetadas para nos fazer refletir sobre a injustiça da desigualdade de gênero e o quanto é ruim para um indivíduo ter seu potencial limitado simplesmente por ser quem é.
A história continua em Horizonte Do Leste, Eternidade Do Oeste. Nessa segunda metade do livro, os alunos seguem caminhos diferentes, seja na escola ou em outros lugares, e precisam se apoiar novamente em uma situação tensa do mundo real, onde o resultado é tudo menos certo. Tada e Frol, agora noivos, precisam visitar o país do Rei como parte de seu trabalho para a Universidade. Quando chegam lá, acabam envolvidos em um golpe político para destronar o Rei e iniciar uma guerra com o país vizinho.
Em ambas as partes, quando deixadas por conta própria, as crianças conseguem resolver problemas, enquanto os adultos não conseguem fazer o mesmo devido a seus preconceitos e crenças. O 11º Tripulante é uma demonstração de que o preconceito é aprendido, não algo inato, e que o método da Academia Cosmos de fomentar a compreensão desde a infância é o caminho mais viável para a paz na galáxia. Questões como racismo, gênero e a sede de poder são domínio daqueles que nunca aprenderam que pessoas são apenas pessoas. Apesar do mundo ter mudado significativamente desde que a obra foi lançada, algumas de suas mensagens permanecem atuais. Por esse motivo e por ser uma obra muito divertida, ele se torna um clássico que usa do gênero de ficção científica para explorar temas humanos. Vale a pena incluir esse mangá na coleção.

Com capa com orelhas e verniz localizado, o volume único de O 11º Tripulante inclui páginas coloridas, marcador de brinde e pôster encartado. Garanta seu exemplar na Amazon.