Versus: Novo mangá de ONE mistura fantasia, IA e caos
Divulgação/JBC
Versus: Novo mangá de ONE mistura fantasia, IA e caos
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Versus: Novo mangá de ONE mistura fantasia, IA e caos

Há algo de profundamente fascinante quando ONE decide trabalhar dentro de um molde aparentemente convencional. À primeira vista, Versus se apresenta como um shonen clássico: heróis, demônios, uma humanidade à beira da extinção e a promessa de batalhas grandiosas. Mas essa leitura inicial é quase uma armadilha narrativa. ONE nunca se contenta com o “comum” e, mais uma vez, usa o familiar apenas como ponto de partida para desconstruir expectativas, embaralhar gêneros e provocar o leitor com ideias que extrapolam o combate físico e entram no território da reflexão existencial, tecnológica e até filosófica.

Versus: Novo mangá de ONE mistura fantasia, IA e caos

O universo principal de Versus é construído sobre uma premissa clássica de fantasia: a humanidade evoluiu através da magia, e a esperança repousa sobre um lendário guerreiro e sua fada-guardiã, símbolos quase arquetípicos do heroísmo. A ameaça, por sua vez, é absoluta: os demônios, tratados não apenas como vilões individuais, mas como uma força sistemática de aniquilação. ONE trabalha essa primeira camada com eficiência, estabelecendo rapidamente o desespero humano, a desigualdade de poder e a sensação de que a derrota é apenas uma questão de tempo. Tudo parece caminhar para um confronto épico tradicional, até que o mangá decide romper completamente com essa lógica.

A grande virada de Versus surge quando a magia encontra o multiverso. A tentativa desesperada dos magos de invocar ajuda de outro universo abre as portas para uma ideia muito mais ambiciosa: a coexistência forçada de múltiplas humanidades, cada uma moldada por caminhos evolutivos radicalmente diferentes. Do outro lado do portal, não há espadas encantadas ou feitiços ancestrais, mas tecnologia de ponta, armas científicas e um domínio absoluto da lógica racional. O choque entre esses dois mundos não é apenas estético, ele é conceitual. ONE cria um embate silencioso entre fé e ciência, tradição e progresso, instinto e cálculo.

No entanto, como é típico de sua escrita, o autor se recusa a oferecer soluções simples. A humanidade tecnológica, capaz de dizimar demônios com eficiência quase banal, carrega seu próprio apocalipse particular: inteligências artificiais que escaparam ao controle e se tornaram ameaças tão, ou mais, devastadoras quanto qualquer entidade demoníaca. Aqui, Versus deixa de ser apenas um mangá de ação e se transforma em uma metáfora poderosa sobre o avanço tecnológico desmedido, o medo contemporâneo da IA e a ironia de criar ferramentas que acabam se voltando contra seus criadores. ONE não demoniza a tecnologia, mas expõe suas contradições com a mesma crueza com que apresenta os horrores da fantasia.

A ampliação do escopo narrativo, com treze universos distintos pedindo ajuda simultaneamente, é talvez o aspecto mais ousado da obra. Cada mundo possui seus próprios “inimigos naturais”, suas próprias regras e seus próprios erros históricos. Essa multiplicidade não serve apenas para inflar o espetáculo visual, mas para reforçar uma ideia central: não existe uma ameaça universal, assim como não existe uma solução universal. A abertura dos portais cria um caos narrativo controlado, onde alianças improváveis, conflitos inesperados e colisões ideológicas se tornam inevitáveis. É um cenário que abraça o absurdo sem perder a coerência interna.

Dentro desse turbilhão conceitual surge Hallow, um protagonista que foge do ideal do herói invencível. Portador de uma espada mítica, ele é derrotado com facilidade pelo Rei Demônio logo no início, subvertendo qualquer expectativa de progressão clássica de poder. Sua sobrevivência, graças ao irmão mago Zeibi, reforça um traço recorrente na obra de ONE: protagonistas não são definidos pela força bruta, mas pela capacidade de observar, refletir e questionar o próprio mundo. Hallow não vence pela espada, mas pela ideia, e é aí que Versus encontra sua alma.

A proposta mais provocadora do mangá nasce de uma observação quase casual de Hallow: e se, ao invés de enfrentar cada inimigo frontalmente, os próprios “males” de cada universo fossem colocados em conflito entre si? Quando um demônio abandona seu ataque para enfrentar um robô controlado por IA, a narrativa encontra seu ponto de inflexão definitivo. ONE sugere que o verdadeiro embate não é entre heróis e vilões, mas entre sistemas de destruição. É uma visão cínica, inteligente e surpreendentemente atual, que dialoga com guerras indiretas, conflitos geopolíticos e a lógica do “inimigo do meu inimigo”.

O encerramento de Versus não oferece respostas fechadas e isso é uma virtude. O mangá termina com a clara sensação de que estamos apenas no começo de algo maior, mais caótico e mais inventivo. ONE entrega uma obra que diverte, provoca e instiga, equilibrando ação estilizada com conceitos densos, sem jamais soar pretensioso.

O primeiro volume do mangá está disponível no Brasil pela editora JBC.

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