A Coleção Crepax: O Bebê de Valentina e Outras Histórias não é apenas a continuidade de um projeto editorial ambicioso da Pipoca & Nanquim, mas um verdadeiro mergulho definitivo na mente de um dos maiores revolucionários da linguagem dos quadrinhos. Ao reunir parte essencial da bibliografia de Guido Crepax, a obra reafirma por que seu nome ultrapassou as fronteiras do erotismo para se consolidar como sinônimo de inovação narrativa, experimentação gráfica e profundidade psicológica. Crepax não desenhava apenas corpos; ele cartografava desejos, medos, obsessões e sonhos, transformando cada página em um território de tensão entre o consciente e o inconsciente.

No centro absoluto dessa constelação criativa está Valentina Rosselli, uma das personagens mais emblemáticas da história dos quadrinhos europeus. Fotógrafa de moda, intelectual, independente e profundamente sensual, Valentina é construída como uma extensão do próprio imaginário de Crepax, funcionando quase como seu alter ego artístico. Ao longo das histórias reunidas neste volume, ela deixa de ser apenas um objeto de desejo para assumir o controle total da narrativa, roubando os holofotes não por submissão ao olhar masculino, mas por dominar esse olhar, subvertê-lo e devolvê-lo carregado de ambiguidade, erotismo e inquietação.
A coletânea se revela especialmente poderosa por apresentar Valentina “da cabeça aos pés”, respeitando sua evolução como personagem e como símbolo cultural. Desde sua primeira aparição ainda coadjuvante em A Curva de Lesmo, percebemos um embrião de algo maior: uma figura feminina que se impõe silenciosamente, mesmo quando o roteiro parece não girar em torno dela. Em Valentina, a Intrépida, a infância e a adolescência da personagem ganham contornos quase autobiográficos, revelando as camadas de formação psicológica que mais tarde explodiriam em seus sonhos, fantasias e conflitos adultos. Crepax demonstra aqui um domínio raro da passagem do tempo, algo que os quadrinhos raramente exploravam com tamanha sofisticação naquele período.
É impossível falar deste volume sem destacar O Bebê de Valentina, uma das histórias mais icônicas e perturbadoras da carreira de Crepax. A gravidez onírica da personagem funciona como metáfora poderosa da criação artística, do medo da perda de identidade e da relação entre corpo e mente. Tudo é apresentado em uma narrativa fragmentada, quase musical, na qual o erotismo deixa de ser explícito para se tornar simbólico, psicológico e profundamente inquietante. Não se trata de provocar pelo choque, mas de seduzir o leitor pelo estranhamento, algo que poucos autores conseguiram realizar com tamanha elegância.
Essa dimensão introspectiva atinge seu auge em Vida Privada, uma espécie de retrospectiva psicanalítica da trajetória de Valentina. Aqui, Crepax dialoga abertamente com Freud, com o surrealismo e com a linguagem do cinema experimental, desmontando a linearidade tradicional da narrativa em quadrinhos. Cada quadro parece um fragmento de memória, um lapso, um sonho ou um desejo reprimido. É nesse ponto que a obra deixa claro que Valentina não é apenas uma personagem: ela é um estudo profundo sobre identidade feminina, sexualidade e liberdade em uma Europa que ainda lidava com fortes amarras morais.
O encontro com Corto Maltese, em Anthropology, funciona como um verdadeiro evento histórico dos quadrinhos italianos. A colisão entre o universo introspectivo e erótico de Crepax e o espírito aventureiro e melancólico de Hugo Pratt resulta em uma narrativa carregada de simbolismo, respeito mútuo e diálogo entre estilos. Não é apenas um crossover; é um encontro de visões de mundo, no qual Valentina se afirma como igual — ou até superior — a um dos maiores ícones da nona arte.
Os extras presentes na edição elevam ainda mais o valor histórico e crítico do volume. O prefácio assinado por Umberto Eco não apenas contextualiza a importância de Crepax, como legitima academicamente sua obra, algo essencial para afastá-la de leituras rasas que a reduzem a mero erotismo. A HQ inédita que imagina o encontro entre Valentina e Drácula é um deleite conceitual, brincando com arquétipos do desejo, da imortalidade e da sedução. Já o texto sobre a relação de Crepax com o jazz revela muito sobre seu ritmo narrativo, sua fragmentação visual e sua obsessão pelo improviso, traços que definem sua identidade artística.
No fim das contas, Coleção Crepax: O Bebê de Valentina e Outras Histórias comprova que o erotismo de Crepax nunca foi gratuito. Ele é linguagem, é discurso, é ferramenta para acessar zonas da mente que outras formas narrativas evitam. A imaginação de Guido Crepax parecia operar em um plano onde o impossível se tornava cotidiano, onde sonhos, desejos e memórias se entrelaçavam de forma orgânica. Esta obra não apenas celebra Valentina como ícone cultural, mas reafirma Crepax como um autor fundamental para compreender a evolução estética e temática dos quadrinhos no século XX — e, sem exagero algum, da arte contemporânea.
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