Virtuosas mergulha no terror e na hipocrisia por trás das “mulheres perfeitas”

Virtuosas, longa dirigido por Cíntia Domit Bittar, que também assina o roteiro junto a Fernanda de Capua, mergulha no universo de um grupo de mulheres cristãs selecionadas para participar de uma imersão VIP dedicada ao fortalecimento da feminilidade e à busca pela “melhor versão” de si mesmas. O retiro é organizado pela influenciadora Virginia Heinzel (Bruna Linzmeyer), uma figura extremamente popular entre suas seguidoras e apresentada como a personificação da mulher perfeita. Devotas de seu estilo de vida, elas disputam a oportunidade de participar dessa experiência exclusiva.

Durante um de seus eventos, uma mulher da plateia, que mais tarde descobrimos se chamar Germina (Maria Galant), demonstra uma determinação incomum ao tomar de outra participante a rosa que lhe garantiria uma vaga na mentoria de Virginia. Ao conseguir o tão desejado acesso, ela passa a integrar o grupo formado também por Lorena Canollo (Juliana Lourenção), Bárbara Rossi (Sarah Motta) e Gorete (Brisa Marques).

É a partir de Germina que acompanhamos boa parte da narrativa e, aos poucos, descobrimos suas verdadeiras intenções ao participar do retiro. A revelação pode não ser exatamente o que o espectador espera, mas também deixa algumas questões importantes no ar. Afinal, o que ela teria feito caso não conseguisse a rosa? E por que, depois de conquistar a vaga, não parece se esforçar tanto para demonstrar que realmente deseja estar naquele lugar?

Embora Germina seja a personagem pela qual o público acompanha a história, ela está longe de ser a figura mais interessante do grupo. Esse posto pertence a Virginia, especialmente graças à atuação de Bruna Linzmeyer, que consegue prender a atenção do espectador do início ao fim. Por trás da imagem cuidadosamente construída da mulher perfeita, Virginia esconde segredos e contradições. Ela vende às próprias seguidoras um modelo de vida no qual sequer acredita, transformando essa aparente perfeição em um produto altamente lucrativo.

As demais participantes também carregam elementos que despertam curiosidade. Gorete funciona como uma espécie de assistente de Virginia, mas logo descobrimos que ela própria guarda um segredo. Bárbara, por sua vez, tenta construir uma carreira como influenciadora e tem Virginia como sua principal referência. É talvez a menos problemática do grupo, embora sua obsessão por fama e dinheiro revele que também está profundamente inserida naquela lógica de exposição e consumo.

Lorena é esposa de um político conhecido por sua postura antivacina. Ela leva o filho do casal para o retiro, e o bebê passa boa parte do tempo chorando, provocando desconforto entre as participantes. Virginia, entretanto, parece pouco incomodada com a situação. Sua tolerância pode ter menos relação com empatia do que com interesses pessoais, já que ela parece enxergar em Lorena uma possível aproximação estratégica com o universo político e, quem sabe, uma oportunidade de fortalecer uma futura candidatura.

A sátira de questões sociais e políticas por meio do terror não é exatamente uma novidade. O gênero frequentemente recorre ao absurdo para discutir temas como o ultraconservadorismo, o fundamentalismo religioso e, mais recentemente, a cultura das chamadas “tradwives”, mulheres que defendem nas redes sociais um modelo de vida baseado na submissão feminina, na maternidade e nos papéis tradicionais de gênero. O desafio, portanto, é encontrar uma abordagem capaz de acrescentar algo a discussões que já foram exploradas inúmeras vezes.

Embora Cíntia Domit Bittar demonstre compreender o fenômeno que pretende satirizar, o filme raramente transforma essa compreensão em algo verdadeiramente provocador. Há boas ideias espalhadas pela narrativa, mas poucas delas são desenvolvidas a ponto de produzir o impacto que poderiam. A devoção à maternidade (ou a expectativa de que toda mulher deva necessariamente ser mãe), a obediência, a renúncia aos próprios desejos em nome de um homem, o abandono da individualidade e a submissão são temas presentes ao longo do filme. O problema é que eles acabam sendo apresentados de maneira superficial, sem que a narrativa encontre uma perspectiva particularmente nova ou contundente para explorá-los.

Também existe uma certa artificialidade no comportamento das personagens. Em diversos momentos, o espectador percebe que há algo potencialmente perturbador prestes a acontecer, mas o filme parece hesitar justamente quando poderia mergulhar de vez no absurdo. E essa hesitação pesa ainda mais porque Virtuosas constrói, desde o início, a expectativa de que aquele ambiente aparentemente perfeito está prestes a desmoronar.

É apenas na segunda metade que acontecem os momentos mais insanos da produção. Quando finalmente decide abandonar parte da contenção inicial, o filme se torna mais interessante e encontra um caminho mais próximo daquele que sua premissa parecia prometer. O problema é que demora demais para chegar lá. Considerando a duração do longa, Virtuosas passa tempo demais preparando um terreno que poderia ter sido explorado de maneira mais direta. Em alguns momentos, fica difícil não imaginar se a história não teria funcionado melhor como um curta-metragem.

O desfecho pode compensar parte dessas limitações, sobretudo para quem estiver disposto a embarcar na proposta até o fim. O filme tem um tema relevante, personagens com potencial e uma protagonista interpretada com bastante força, mas parece constantemente hesitar entre a sátira, o terror e o absurdo. Ele sabe exatamente o universo que deseja criticar, mas nem sempre encontra uma maneira suficientemente ousada de fazê-lo. O resultado é uma obra com boas ideias e momentos interessantes, mas que poderia ter ido muito mais longe justamente nos lugares em que escolhe permanecer contida.

Virtuosas chega aos cinemas em 24 de setembro de 2026, com distribuição da Olhar Filmes e Filmes do Estação.

3

Bom

Virtuosas parte de uma premissa promissora ao satirizar o ultraconservadorismo e a submissão feminina, mas pouco acrescenta a temas já bastante explorados. Bruna Linzmeyer se destaca como Virginia, enquanto a narrativa oscila entre o terror e o absurdo sem aproveitar plenamente o potencial de suas ideias.

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