Sacrifício coloca milionários e idealistas em rota de colisão às vésperas de um possível fim do mundo. Tudo começa com Joan (Anya Taylor-Joy) supervisionando o funeral da própria mãe, que talvez ainda esteja viva quando a cremação tem início. A jovem lidera um grupo que parece uma milícia adolescente saída de A Aldeia dos Amaldiçoados e tem uma missão bastante clara: ela precisa purificar o mundo com fogo, para que um novo mundo melhor possa nascer. Em paralelo, o astro de cinema Mike Tyler (Chris Evans) participa de uma luxuosa festa beneficente na Grécia, organizada por uma empresa que afirma ter descoberto uma nova fonte de energia capaz de salvar o planeta — embora sua exploração dependa da mineração do fundo do oceano.
Mike está tentando retomar a carreira após um período afastado dos holofotes. Cerca de um ano antes, sofreu um colapso nervoso que viralizou nas redes sociais. Na ocasião, o ator, conhecido por interpretar o protagonista de um épico cinematográfico, gritou que não era um herói enquanto destruía tudo ao redor com um lança-chamas. Agora, acompanhado de seu agente (Sam Richardson), tenta dar a impressão de que está virando a página. Sua maior preocupação, porém, parece ser o possível início da calvície. Desconfortável com a própria presença no evento, Mike demonstra ceticismo em relação às motivações dos convidados e não hesita em expor suas impressões em um discurso no evento, que em seguida vai parar nas redes sociais. A tensão aumenta quando ele confronta Ben Bracken (Vincent Cassel), o bilionário ambientalista que é a principal atração da noite, e questiona a hipocrisia por trás de seu discurso.
Também estão presentes Gloria (Salma Hayek Pinault), esposa de Bracken e estrela pop cujo álbum mais recente foi concebido sob a perspectiva de uma inundação, e Katie (Ambika Mod), uma dançarina que parece ser a pessoa mais sensata daquele ambiente. O filme ainda reserva uma performance musical visualmente impressionante de Charli XCX, que interpreta uma estrela pop fictícia em uma representação da Mãe Natureza.
A festa é interrompida quando um grupo de terroristas liderado pela misteriosa Joan e seus dois irmãos invade o local. Convencida de que recebeu uma mensagem divina, ela acredita ter sido escolhida para salvar a humanidade. Um vulcão nas proximidades está prestes a entrar em erupção, e Joan afirma que apenas ela e seus seguidores compreendem a dimensão da catástrofe iminente. Segundo as crenças da líder do grupo, para impedir um evento de extinção em massa, três pessoas precisam ser lançadas em um vulcão ativo.
Segundo Joan, os escolhidos devem representar três figuras essenciais: um rei, um herói e o verdadeiro amor de seu irmão, interpretado por Jonatan “Yung Lean” Leandoer. O diretor e roteirista Romain Gavras conduz essa premissa mística de maneira a manter uma dúvida central: e se Joan estiver certa? Aos poucos, essa possibilidade também começa a inquietar Mike Tyler, que passa a considerar se o papel de herói que sempre rejeitou poderia ser, afinal, sua verdadeira vocação. Os escolhidos para o sacrifício são Ben, Mike e Katie.
Inicialmente, o caráter ostensivamente extravagante da festa faz com que os convidados demorem a perceber que os invasores não fazem parte de alguma atração performática. Só quando o sangue começa a correr é que a gravidade da situação se torna incontestável. Nesse momento, Mike está no banheiro, tentando se recuperar de mais um episódio constrangedor que viralizou e ameaça prejudicar ainda mais sua carreira. Transformado em refém, ele reage à situação com uma mistura de incredulidade e distanciamento, como se tudo não passasse de uma encenação absurda.
Quando Joan conduz os reféns para longe da festa, o filme muda gradualmente de direção. A sátira dos excessos da elite dá lugar a uma jornada que aproxima, de maneira inesperada, a líder extremista e Mike. No percurso, surgem revelações sobre o passado de Joan, enquanto a narrativa passa a explorar questões como fé, privilégio, responsabilidade e o verdadeiro significado de lutar por uma causa.
As atuações estão entre os principais méritos do filme. Chris Evans sustenta o papel de Mike Tyler com uma vulnerabilidade surpreendente, sobretudo diante das reviravoltas narrativas e das mudanças bruscas de tom. Seu personagem é um retrato de insegurança disfarçada de arrogância, alguém que tenta administrar a própria imagem enquanto questiona o sentido de sua fama. Evans encontra nuances nesse conflito e impede que Mike se reduza a uma caricatura de celebridade.
Anya Taylor-Joy, por sua vez, funciona como um excelente contraponto. Com expressão impassível e uma seriedade quase absoluta, ela constrói uma Joan inquietante, cuja aparente serenidade torna suas convicções ainda mais ameaçadoras. Sua atuação mantém a personagem envolvente e imprevisível, mesmo quando o roteiro não oferece profundidade suficiente para sustentar todas as suas motivações. John Malkovich também aparece em um papel que, por alguns instantes, parece oferecer uma voz de sensatez em meio ao caos, enquanto Vincent Cassel se encaixa bem na figura do bilionário egocêntrico, acostumado a confundir influência com virtude.

As alfinetadas são evidentes, mas frequentemente divertidas. Há algo genuinamente nauseante na presunção de certas celebridades contemporâneas, convencidas de que sua simples participação em causas sociais ou ambientais representa uma contribuição significativa para o bem comum. O filme encontra um alvo fácil e, em muitos momentos, certeiro, na transformação do ativismo em espetáculo e na tendência de indivíduos privilegiados a converter boas intenções em instrumentos de autopromoção.
O problema surge quando a história deixa para trás o ambiente de ostentação e exposição midiática que alimenta sua sátira. Fora desse universo, Sacrifício parece perder parte da segurança demonstrada no início. O humor cede espaço a um drama mais sério, mas Gavras não consegue estabelecer com clareza como o espectador deve se posicionar diante dos acontecimentos. A narrativa oscila entre a provocação, o absurdo e a reflexão existencial sem encontrar um equilíbrio convincente.
Os debates entre ciência e crença, evidências e convicções inabaláveis, tornam-se repetitivos. Em vez de aprofundar os dilemas apresentados, o roteiro frequentemente retorna às mesmas questões sem acrescentar novas camadas de significado. O resultado é uma história que parece prometer uma reflexão complexa, mas nem sempre consegue ir além da superfície de suas próprias ideias. Embora parta de uma premissa instigante e conte com atuações envolventes, o filme acaba prejudicado pela sátira excessivamente explícita e por uma narrativa irregular. A crítica ao ativismo performático das celebridades e aos excessos dos bilionários é pertinente, mas raramente surpreende. Algumas situações divertem, porém os desdobramentos previsíveis e as reviravoltas emocionais pouco desenvolvidas comprometem o impacto da experiência.
A discussão sobre hipocrisia ambiental também é oportuna, sobretudo diante da contradição entre discursos de preservação e práticas que reproduzem a exploração dos recursos naturais. Ainda assim, a mensagem frequentemente se mostra mais evidente do que perspicaz. O filme parece confiar tanto na identificação de seus alvos que nem sempre se preocupa em aprofundar as contradições que pretende expor.
No fim, fica uma pergunta relevante: o que significa realmente sacrificar algo por uma causa em um mundo no qual até mesmo o altruísmo pode se transformar em espetáculo? É uma questão que merecia um tratamento mais incisivo. Sacrifício oferece momentos provocativos, boas atuações e uma premissa capaz de despertar curiosidade, mas não consegue transformar esses elementos em uma obra tão contundente quanto gostaria. Interessante, por vezes divertido e ocasionalmente inquietante, o filme acaba sendo menos instigante do que promete.
Sacrifício estreia em 15 de outubro nos cinemas, com distribuição da Diamond Films.
Bom
Sacrifício satiriza com humor ácido a hipocrisia das elites e o ativismo performático, apoiado em boas atuações. É uma obra provocativa e visualmente marcante, mas irregular, cuja mensagem é pertinente, embora menos contundente e surpreendente do que promete.