Resident Evil chega aos cinemas com uma proposta que, à primeira vista, pode parecer contraditória para uma franquia tão conhecida, pois ao mesmo tempo em que resgata elementos fundamentais dos videogames, o filme de Zach Cregger (A Hora do Mal) evita seguir o caminho mais óbvio. Em vez de transformar a história em uma sucessão de referências, personagens conhecidos e grandes sequências de ação, o diretor aposta em uma experiência mais direta, brutal e, surpreendentemente, divertida. O resultado é um filme de terror frenético que entende que o mais importante não é necessariamente reproduzir os jogos cena a cena, mas capturar a sensação de estar preso em um pesadelo do qual não existe uma saída fácil.
A principal diferença está no protagonista. Bryan (Austin Abrams) está muito distante do arquétipo do herói de ação associado à franquia. Ele não é um soldado treinado, não possui experiência com armas e muito menos sabe como enfrentar criaturas mutantes. É apenas um entregador que aceita um trabalho extra para ganhar algum dinheiro extra e acaba envolvido em uma situação completamente fora de sua realidade. Essa escolha é fundamental para o funcionamento do filme, porque transforma o espectador em um companheiro nos momentos de desespero do personagem.
A história começa quando Bryan aceita uma entrega de última hora. Ele deve transportar uma encomenda de alta prioridade pelas montanhas até o Hospital Geral de Raccoon City. O que parecia ser apenas mais um trabalho rapidamente se transforma em uma noite infernal quando ele atropela uma mulher na estrada. O acidente, inicialmente apresentado como uma situação que poderia ser resolvida com algum bom senso, logo abre caminho para uma sucessão de acontecimentos cada vez mais absurdos e assustadores. E o filme não demora para deixar claro que não pretende perder tempo.
O primeiro zumbi aparece antes dos dez minutos de projeção e, a partir daí, Bryan praticamente não tem oportunidade de respirar. Cada tentativa de compreender o que está acontecendo dá origem a uma nova ameaça. Quando parece que encontrou uma maneira de escapar, surge outro problema. Quando finalmente consegue algum tipo de vantagem, percebe que talvez tenha cometido um erro ainda maior. Essa estrutura mantém o longa em movimento constante e combina perfeitamente com sua curta duração de apenas 95 minutos.

Austin Abrams é, sem dúvida, um dos maiores trunfos do filme. Bryan é interessante porque o público consegue se identificar com ele. Diante de uma criatura monstruosa, sua primeira reação não é sacar uma arma e partir para o ataque. É entrar em pânico. Quando precisa utilizar uma arma pela primeira vez, não demonstra a precisão de um agente treinado. O ator consegue transformar medo, confusão e desespero em elementos de humor sem fazer com que Bryan pareça simplesmente um personagem cômico. Há uma diferença importante entre ser engraçado e reagir naturalmente a uma situação absurda. Ele entende essa diferença e utiliza o próprio desconforto do personagem como fonte de humor.
Bryan passa longos períodos praticamente sozinho em cena. Como o elenco de apoio não permanece por muito tempo, Abrams precisa sustentar boa parte do filme com suas próprias reações. Em alguns momentos, ele conversa consigo mesmo, narra o que está fazendo ou simplesmente tenta encontrar uma explicação racional para acontecimentos que claramente não possuem nada de racional. É uma tarefa difícil, mas o ator consegue manter o personagem carismático. Bryan nem sempre toma as decisões certas. Muito pelo contrário. Em vários momentos, suas escolhas são questionáveis e até irritantes.
Zach Cregger demonstra um controle bastante eficiente do ritmo. O diretor entende que o terror não precisa ser constantemente sombrio para funcionar. Pelo contrário: alguns dos melhores momentos surgem justamente quando o filme coloca o público em uma situação de extrema tensão e, no último instante, transforma aquilo em uma situação engraçada. Essa imprevisibilidade é uma das características mais interessantes do longa. Durante boa parte da projeção, existe uma dúvida genuína sobre o que vai acontecer quando Bryan entra em determinado ambiente ou encontra uma nova criatura. A cena pode terminar em um susto, em uma morte grotesca ou em uma situação completamente absurda. O humor, portanto, não parece simplesmente inserido para aliviar a tensão, ele faz parte da própria linguagem do filme.
Se existe um elemento que aproxima Resident Evil de suas origens nos videogames, é o design das criaturas. Cregger demonstra um evidente interesse pelo horror físico e utiliza os monstros não apenas como obstáculos, mas como parte essencial da identidade visual do filme. As ameaças vão ficando progressivamente mais estranhas e perturbadoras. Conforme Bryan avança, ele encontra criaturas cada vez mais grotescas, com características que parecem ter saído diretamente de um pesadelo criado para testar os limites do protagonista.
O trabalho do diretor de fotografia Dariusz Wolski também contribui para essa sensação. A fotografia ajuda a transformar os ambientes em espaços ameaçadores, utilizando a escuridão e a composição dos enquadramentos para esconder informações do espectador. Muitas vezes, o que assusta não é aquilo que está diante dos olhos, mas aquilo que pode estar esperando logo depois. A equipe também encontra uma maneira inteligente de aproximar a experiência cinematográfica da experiência dos jogos. A câmera frequentemente acompanha Bryan de uma maneira que remete à perspectiva em terceira pessoa dos videogames. Isso cria uma sensação interessante: o público não está simplesmente observando um personagem atravessar um cenário, mas parece acompanhar seus movimentos como se estivesse controlando-o, escolha que também favorece o suspense.
Talvez uma das maiores qualidades do longa seja justamente não depender do conhecimento prévio da franquia. Quem conhece os videogames certamente encontrará elementos familiares, referências e situações que dialogam com aquele universo. Isso é particularmente importante porque adaptações de videogames frequentemente caem na armadilha de tentar agradar exclusivamente aos fãs. Quando isso acontece, personagens e acontecimentos podem ser introduzidos mais como referência do que como parte orgânica da história. Resident Evil escolhe outro caminho. O filme utiliza a mitologia como ponto de partida, mas constrói sua própria experiência.
Algumas escolhas podem dividir opiniões, especialmente entre aqueles que esperavam uma adaptação mais tradicional, mas Resident Evil chega com uma história simples de sobrevivência, conduzida com um ótimo ritmo, criatividade e uma boa dose de humor. Zach Cregger demonstra segurança na construção da tensão, encontra maneiras interessantes de dialogar visualmente com os jogos. Mais uma vez o diretor entrega um dos filmes de terror mais legais do ano.
Resident Evil estreia dia 17 de setembro nos cinemas, com distribuição da Sony Pictures.
Ótimo
Resident Evil é um filme curto, direto e surpreendentemente divertido, que consegue equilibrar terror e humor sem perder de vista o que tornou essa franquia tão querida.