Razão e Sensibilidade, um dos romances mais marcantes de Jane Austen, ganha uma nova adaptação para os cinemas. No filme, acompanhamos as irmãs Elinor (Daisy Edgar-Jones), Marianne (Esmé Creed-Miles) e Margaret Dashwood (Bodhi Rae Breathnach), que, após a morte do pai, se veem diante de uma mudança radical em suas vidas: a perda da segurança financeira e do lar em que cresceram.
A Sra. Dashwood (Caitriona Balfe) e suas três filhas, que antes viviam confortavelmente em uma bela propriedade em Sussex, são obrigadas a se mudar para a modesta Barton Cottage, em Devon. De acordo com as convenções da época, o patrimônio da família passa para o herdeiro masculino, John Dashwood (Tom Brooke), que assume a propriedade ao lado da esposa, Fanny (Stacy Martin). Sem grandes escrúpulos, o casal toma posse da casa, deixando as mulheres da família em uma situação de vulnerabilidade.
Antes da mudança, Elinor conhece Edward Ferrars (George MacKay), um jovem tímido, íntegro e oriundo de uma família abastada, por quem se apaixona. O sentimento parece ser recíproco, mas as convenções sociais e as expectativas familiares ameaçam o futuro do casal. Preocupada com a situação das filhas e com a possibilidade de serem vistas como mulheres interessadas em fortuna, a Sra. Dashwood insiste em partir para o oeste do país o quanto antes.
É na nova morada que Elinor passa a refletir, angustiada, sobre os motivos que impedem Edward de lhe pedir em casamento. É também ali que Marianne, impulsiva e romântica, torce o tornozelo durante um passeio e acaba sendo levada de volta à casa de campo pelo charmoso Sr. Willoughby (Frank Dillane). Enquanto se entrega à paixão por ele, Marianne demora a reconhecer as qualidades do Coronel Brandon (Herbert Nordrum), um ex-militar gentil e íntegro que nutre por ela um amor profundo e sincero.
O amor, afinal, raramente segue um caminho simples. Em sua busca por ele, as irmãs passam os dias refletindo diante da lareira, caminhando pelos bosques, compartilhando momentos de intimidade. Quando descobem que ambos os partidos estão em Londres, elas paretm para a cidade na companhia da generosa, embora intrometida, Sra. Jennings (Fiona Shaw).
Daisy Edgar-Jones entrega uma atuação belamente contida, incorporando a natureza reservada de Elinor sem jamais apagar a intensidade de seus sentimentos. Seus olhares, carregados de dor, alternam entre a vulnerabilidade e a tentativa de manter uma aparência de neutralidade. É uma interpretação que compreende bem a tensão entre aquilo que Elinor sente e aquilo que acredita precisar demonstrar. Sua química com George MacKay também funciona muito bem, tornando convincente o afeto entre os personagens e fazendo com que o público torça para que encontrem uma maneira de ficar juntos.
Esmé Creed-Miles, por sua vez, transita com naturalidade entre a melancolia introspectiva e a efusividade arrebatadora. Recusando-se a viver seus sentimentos pela metade, Marianne se entrega às próprias emoções sem reservas, ainda que isso a leve, por vezes, à imprudência. Juntas, as irmãs representam diferentes maneiras de experimentar o amor: de um lado, a contenção de quem aprende a sofrer em silêncio; do outro, o ímpeto de quem não consegue esconder o que sente. O elenco masculino também se destaca ao conferir personalidade e nuances a seus personagens, evitando que sejam reduzidos a meros interesses românticos.
Uma das surpresas mais agradáveis do filme é a Sra. Jennings, interpretada com vivacidade e um irresistível senso de humor por Fiona Shaw. Por trás de sua indiscrição e de seu jeito expansivo, existe uma mulher genuinamente generosa, cuja presença oferece às protagonistas algo tão importante quanto o amor romântico: acolhimento. Sua personagem se transforma em uma bela representação da solidariedade e da amizade entre mulheres, temas que atravessam a obra de Jane Austen e continuam encontrando ressonância no presente.
Sob a direção de Georgia Oakley, o filme apresenta uma atmosfera um pouco mais sombria do que aquela que habitualmente se associa às adaptações de Jane Austen. A cinematografia é belíssima, e a composição visual contribui para recriar o período sem transformar a história em uma peça de época excessivamente distante ou rígida. Há pequenas liberdades que aproximam a narrativa de uma sensibilidade contemporânea, mas elas não comprometem sua essência. Pelo contrário, ajudam a ressaltar a atualidade dos conflitos enfrentados pelas personagens, sobretudo em uma sociedade que insiste em determinar o destino das mulheres a partir de sua posição social e de suas possibilidades de casamento.
Adaptar uma história com duas protagonistas tão distintas exige um equilíbrio delicado. Em alguns momentos, a trajetória de Marianne ameaça ofuscar a de Elinor, justamente por ser mais expansiva e dramaticamente evidente. Enquanto uma exterioriza suas emoções, a outra precisa encontrar maneiras de escondê-las, o que torna sua jornada menos ostensiva, mas não menos dolorosa. Ainda assim, a direção consegue conduzir ambas as histórias a desfechos satisfatórios, respeitando suas diferenças e reconhecendo que não existe uma única maneira de amadurecer ou de encontrar a felicidade.
Razão e Sensibilidade é um filme que acolhe o espectador sem ignorar as dores que acompanham o amor. Há algo de profundamente reconfortante em acompanhar essas mulheres tentando encontrar seu lugar em um mundo que tantas vezes lhes nega autonomia, enquanto descobrem que sentir intensamente e agir com prudência não precisam ser atitudes incompatíveis. Elinor e Marianne não precisam se tornar uma à outra para alcançar a felicidade; precisam, antes, compreender a si mesmas e aprender a lidar com aquilo que sentem.
É justamente nessa convivência entre opostos que a história encontra sua força. A razão pode proteger o coração, mas não deve condená-lo ao silêncio; a sensibilidade pode dar sentido à vida, mas também precisa aprender a reconhecer seus próprios limites. Ao final, o filme deixa a agradável sensação de ter passado algumas horas em companhia de personagens que, apesar das convenções de seu tempo, continuam surpreendentemente próximas de nós. Mais do que uma história sobre encontrar o amor, esta é uma história sobre aprender a vivê-lo, sem deixar de lado a própria essência.
Razão e Sensibilidade tem distribuição da Universal Pictures e estará disponível nos cinemas a partir de 29 de outubro, também em versões acessíveis.
Ótimo
Uma adaptação sensível e visualmente deslumbrante do clássico de Jane Austen, Razão e Sensibilidade explora os conflitos entre razão, emoção e convenções sociais. Daisy Edgar-Jones e Esmé Creed-Miles se destacam ao retratar irmãs que vivenciam o amor de maneiras opostas, mas igualmente intensas. Com atuações envolventes, o filme reafirma a atualidade da obra.