Protocolo de Extermínio retorna a Moriarty, no Novo México, a mesma cidade onde David (Dan Stevens), de O Hóspede, se infiltrou na vida de uma família em luto sob o pretexto de oferecer proteção. A conexão com o filme anterior de Adam Wingard é mais do que geográfica. Novamente, o diretor parte de uma cidade aparentemente banal para transformá-la em laboratório de uma violência militar que rapidamente escapa ao controle. Desta vez, porém, a experiência é maior, mais grotesca e, infelizmente, menos interessante.
A protagonista é Celeste (Adria Arjona), uma veterana do Exército que administra um parque de trailers e parece ter escolhido deliberadamente uma vida distante das convenções sociais. Sua rotina é apresentada de maneira bastante eficiente: ela passa o tempo praticando tiro com armas pesadas em abóboras de Halloween e tenta descobrir como se relacionar com Daisy (Blake Kennedy), sua filha, que aparece inesperadamente para passar um fim de semana com ela. É uma personagem marcada pelo trauma, mas o roteiro parece mais interessado em sugerir essa condição do que em explorá-la de fato.
Entre os moradores do parque estão Kovacks (Eric Wareheim), um policial bêbado, desleixado e irritante, e Josiah (Reginald VelJohnson), um veterano da Guerra do Vietnã que funciona como uma espécie de contraponto emocional para Celeste. É nas interações entre os dois veteranos que o filme encontra seus momentos mais humanos. Existe uma cumplicidade construída por provocações, experiências compartilhadas e pela compreensão silenciosa de quem já esteve em situações que não podem ser facilmente explicadas.
Enquanto isso, Hans Kammler (Dan Stevens) conduz experimentos humanos que parecem ter saído de uma mistura particularmente perversa de ficção científica militar e horror corporal. Ele é eficaz como o cientista grotesco, sobretudo porque o filme não tem qualquer pudor em transformá-lo em uma figura repulsiva. A careca artificial de aparência duvidosa, as roupas impecavelmente brancas e os gestos depravados completam um personagem que parece ter sido concebido para provocar desconforto antes mesmo de abrir a boca. O problema é que Protocolo de Extermínio apresenta personagens e situações mais interessantes do que aquilo que efetivamente faz com eles.
Quando três soldados gigantescos escapam da instalação de Kammler e chegam a Moriarty, o filme finalmente abraça sua vocação de espetáculo ultraviolento. As criaturas são praticamente máquinas de matar que não sentem dor, resistem a tiros e avançam sobre qualquer pessoa que tenha o azar de cruzar seu caminho. É uma premissa simples, mas com potencial suficiente para sustentar uma boa peça de horror de ação. Wingard sabe filmar violência física. As coreografias são vigorosas, a ação tem impacto e algumas mortes são construídas com uma crueldade bastante eficiente. O problema é que, conforme o sangue aumenta, a narrativa diminui.
A segunda metade transforma aquilo que poderia ser um thriller de ação brutal e enxuto em uma sucessão de explosões de violência que pouco acrescentam aos personagens ou à história. O filme parece acreditar que aumentar a quantidade de sangue equivale a aumentar a intensidade dramática, quando acontece justamente o contrário. Depois de um início que sugere possibilidades interessantes, a trama vai se tornando cada vez mais previsível, enquanto as ideias potencialmente mais provocativas ficam apenas na superfície.
Essa falta de desenvolvimento também prejudica Cyrus (Drew Starkey), apresentado como o responsável pela “limpeza” após o desastre. O personagem surge em uma casa de swing, sob efeito de ecstasy, mas o roteiro nunca encontra uma função dramática convincente para ele. Cyrus observa, circula e acompanha a carnificina, mas raramente parece interferir nela de maneira significativa. É como se o filme tivesse criado um personagem para uma história que nunca decidiu contar.
Rebecca Hall sofre de um problema semelhante. Sua presença como a esposa elegantemente dominadora de Kammler desperta curiosidade, mas o roteiro praticamente não sabe o que fazer com ela. A atriz é reduzida a uma figura secundária quando poderia ter ajudado a ampliar o componente conspiratório e perturbador da narrativa. É justamente Adria Arjona quem consegue extrair mais do material disponível. Celeste não é uma personagem particularmente complexa no papel, mas Arjona lhe confere uma vulnerabilidade que impede que ela se transforme apenas na típica heroína de ação.
Protocolo de Extermínio funciona melhor quando abraça sua natureza de filme de ação brutal e grotesco. Quando tenta construir algo maior, porém, revela a fragilidade de sua própria história. Wingard demonstra novamente domínio sobre a fisicalidade da violência, mas falta ao filme uma ideia narrativa igualmente poderosa para acompanhá-la. Resta a impressão de um filme que tinha ingredientes para ser muito mais interessante do que efetivamente é. Há um conceito provocador, uma protagonista carismática, atores capazes de criar figuras memoráveis e algumas sequências de ação bem executadas. O sangue está lá. A brutalidade também. O que falta é uma razão suficientemente forte para que tudo isso importe.
Protocolo de Extermínio chega aos cinemas em 1º de outubro, com distribuição da Diamond Films.
Regular
Protocolo de Extermínio começa com uma premissa promissora, misturando horror, ação e experimentos militares, mas perde força na segunda metade. Apesar das boas coreografias e da violência bem executada, a trama é fraca e não explora todo o potencial da história.