Ponto Sem Retorno é o novo thriller pós-apocalíptico dirigido por Ridley Scott e baseado no best-seller de Peter Heller. A história acompanha Hig (Jacob Elordi), um ex-mecânico que trabalha em um aeródromo praticamente abandonado ao lado de seu cachorro, Jasper. Os dois percorrem os céus em um Cessna amarelo, partindo de seu refúgio em Erie rumo a Denver para buscar medicamentos destinados a uma colônia menonita próxima, liderada por Aaron (Benedict Wong), além de alimentos e combustível para Bangley (Josh Brolin), seu companheiro de sobrevivência. A rotina de Hig também funciona como uma espécie de ritual de luto: durante seus voos, ele aproveita para visitar a antiga casa onde viveu com a esposa, morta durante o colapso da sociedade.
O filme não perde muito tempo tentando explicar as origens do vírus ou construir uma mitologia excessivamente detalhada para justificar o apocalipse. A humanidade simplesmente entrou em colapso e aqueles que restaram precisam descobrir como continuar vivendo. Essa abordagem poderia favorecer uma narrativa mais humana, concentrada nas relações entre os personagens e nas marcas psicológicas deixadas pela tragédia. No entanto, Ponto Sem Retorno raramente consegue transformar seu cenário em algo dramaticamente significativo.
Ainda existe vida além dos poucos sobreviventes conhecidos por Hig. Cansado de vasculhar cidades destruídas em busca de suprimentos e, principalmente, de defender a pista de pouso contra pessoas tão desesperadas quanto ele, Hig começa a acreditar que a sobrevivência individual não é suficiente. Em determinado momento, ele capta uma transmissão de rádio vinda de Grand Junction e passa a enxergar o sinal como uma possível promessa de futuro. Talvez ainda exista uma comunidade. Talvez seja possível reconstruir alguma coisa.
Bangley, por outro lado, representa exatamente o oposto dessa esperança. Interpretado por Josh Brolin com a habitual presença física, o personagem acredita que a única forma de permanecer vivo é estar preparado para matar antes que alguém tenha a oportunidade de matá-lo. Seu mundo é regido por armas, munição e desconfiança. Para ele, qualquer estranho é uma ameaça em potencial, uma “barata” e qualquer tentativa de estabelecer vínculos pode significar fraqueza.
Hig representa a esperança de reconstrução, enquanto Bangley, a paranoia necessária para sobreviver em um mundo sem instituições. O conflito entre essas duas filosofias tem potencial para gerar um interessante estudo sobre a natureza humana depois do fim da civilização. O roteiro, porém, trata a questão de maneira superficial. Em vez de explorar as contradições de ambos, limita-se a colocá-los em lados opostos de um debate bastante previsível.

Quando Hig finalmente decide seguir o sinal de rádio de Grand Junction, a narrativa abandona a relativa segurança do aeródromo e assume a estrutura clássica da jornada pós-apocalíptica. No caminho, o avião sofre uma pane e ele é obrigado a pousar próximo a um rancho pertencente ao desconfiado Pops (Guy Pearce) e sua filha Cima (Margaret Qualley). Assim como Hig, Cima também carrega o peso de uma perda: seu marido morreu durante o colapso do mundo. Os dois, portanto, encontram um no outro uma espécie de compreensão imediata, baseada menos em afinidade genuína do que no reconhecimento de uma dor compartilhada. Naturalmente, o roteiro transforma essa conexão em um romance. Um romance bastante insosso, por sinal. O relacionamento entre Hig e Cima é tão previsível e pouco desenvolvido que acaba parecendo uma obrigação do gênero. Falta ao roteiro a sensibilidade necessária para fazer com que essa aproximação pareça espontânea, complexa ou emocionalmente relevante.
A situação piora quando uma horda de homens armados ameaça o rancho de Pops e Cima. O grupo é obrigado a fugir às pressas, dando início a uma nova etapa da jornada até Grand Junction, cidade apresentada como uma espécie de possível santuário, um lugar onde talvez os sobreviventes tenham conseguido construir uma nova sociedade. O destino, que deveria ser justamente o elemento capaz de fazer com que a vida voltasse a ser mais normal, não entrega o que os personagens esperavam. É aí que o filme deveria finalmente surpreende o espectador.
Porém, a revelação envolvendo Grand Junction é tão caricata que elimina qualquer possibilidade de tensão ou surpresa. Em vez de aprofundar as questões levantadas anteriormente, o filme opta por uma solução que parece pertencer a uma versão genérica e pouco inspirada do gênero. O suspense, que deveria nascer da dúvida sobre o que existe além do horizonte, transforma-se em uma sequência de acontecimentos bizarros e previsíveis.
O maior problema de Ponto Sem Retorno é que ele possui todos os ingredientes necessários para funcionar, mas quase nunca encontra uma maneira interessante de combiná-los. Ridley Scott é um diretor cuja filmografia demonstra enorme familiaridade com ambientes hostis, personagens isolados e histórias sobre sobrevivência. De Alien – O 8º Passageiro a Blade Runner, passando por diferentes momentos de sua carreira, Scott já demonstrou saber transformar cenários opressivos em elementos dramáticos. Mesmo em filmes menos bem-sucedidos, existe normalmente uma preocupação visual capaz de sustentar a experiência.
Aqui, entretanto, sua direção parece excessivamente automática. Os cenários devastados são visualmente competentes, mas raramente provocam fascínio. A paisagem de terra arrasada deveria transmitir a sensação de um mundo que perdeu sua identidade, mas frequentemente parece apenas um cenário funcional para que os personagens se desloquem de uma sequência para outra.
Também falta ao roteiro uma compreensão mais profunda do trauma de seus protagonistas. As atuações, por isso, acabam funcionando melhor do que o material oferecido aos atores. Nenhum deles, porém, recebe diálogos ou situações capazes de revelar contradições significativas. São personagens estoicos porque o roteiro determina que sejam estoicos, não porque suas personalidades tenham sido suficientemente desenvolvidas para justificar esse comportamento. O cachorro Jasper talvez seja o personagem pelo qual o espectador mais facilmente desenvolve afeto, justamente porque sua presença não depende de longos discursos sobre perda, esperança ou sobrevivência.
Ponto Sem Retorno acaba sendo uma experiência surpreendentemente morna. Ele fala sobre sobreviventes tentando encontrar um futuro, mas ele próprio parece preso ao passado do gênero. Reúne todos os clichês do pós-apocalipse sem encontrar uma maneira nova de utilizá-los e apresenta personagens que deveriam despertar empatia, mas que permanecem distantes do público.
Ponto Sem Retorno estreia exclusivamente nos cinemas em 27 de agosto, com distribuição da 20th Century Studios.
Regular
Ponto Sem Retorno reúne bons elementos do thriller pós-apocalíptico, mas não consegue explorá-los com profundidade ou originalidade. Apesar de atuações competentes, o roteiro aposta em personagens previsíveis, conflitos superficiais e um romance pouco convincente.