Pinóquio de Igor Voloshin tenta inovar, mas não encontra identidade

Depois de mergulhar no universo fantástico de Oz, o diretor Igor Voloshin retorna agora com sua própria leitura de Pinóquio, uma figura que atravessa gerações e culturas desde sua criação por Carlo Collodi. E é justamente nesse terreno já tão explorado que o cineasta russo tenta imprimir sua identidade, ainda que nem sempre com a força necessária para se destacar entre versões já consagradas.

O que mais salta aos olhos nesta adaptação é o forte DNA teatral que permeia toda a obra. Voloshin, com sua bagagem nos palcos, constrói um filme que parece, em diversos momentos, mais interessado na encenação do que na linguagem cinematográfica propriamente dita. Os cenários remetem a grandes espetáculos, os figurinos são meticulosamente elaborados e há um cuidado evidente na composição visual que dialoga diretamente com a tradição artística russa. Essa estética, embora fascinante em sua proposta, por vezes cria uma barreira: o filme parece existir em um espaço híbrido, onde teatro e cinema disputam protagonismo sem encontrar um equilíbrio pleno.

A narrativa segue a espinha dorsal clássica: o solitário Gepeto, ao testemunhar uma estrela cadente, deseja que sua mais recente criação ganhe vida. Quando o milagre acontece, inicia-se uma jornada marcada por descobertas, erros e amadurecimento, elementos essenciais da obra original. No entanto, o roteiro assinado por Aksinya Borisova, Alina Tyazhlova e Andrey Zolotarev opta por enfatizar a ingenuidade de Pinóquio como motor narrativo, o que resulta em sequências episódicas que, embora carregados de intenção moral, carecem de maior densidade dramática. Falta à narrativa um senso mais coeso de progressão emocional, algo que conecte o espectador não apenas à jornada do personagem, mas também às suas consequências.

Se por um lado o aspecto artístico se destaca, por outro, o filme tropeça em um elemento crucial para a imersão contemporânea: o visual digital do protagonista. Em tempos em que a tecnologia permite criações incrivelmente realistas, o Pinóquio aqui apresentado parece aquém do esperado, com um acabamento que denuncia limitações técnicas e compromete a suspensão de descrença.

No elenco, há lampejos de interesse que ajudam a sustentar a experiência. Mark Eydelshteyn, conhecido por sua participação em Anora, entrega uma performance curiosa dentro da trupe teatral comandada pelo vilão Barabas, vivido por Fyodor Bondarchuk. Este último, aliás, traz uma presença cênica que reforça o tom quase operístico da produção, ainda que seu antagonista não fuja muito dos arquétipos tradicionais. Há um esforço visível em construir personagens que dialoguem com a teatralidade proposta, mas nem todos conseguem ultrapassar a superfície.

No fim das contas, esta versão de Pinóquio encontra-se em uma posição curiosa dentro do vasto histórico de adaptações da obra. Não é um desastre, longe disso, mas também não alcança o nível de relevância necessário para se tornar memorável. O filme parece consciente de sua herança e respeita os pilares da história original, mas hesita em dar passos mais ousados que poderiam redefinir o conto para uma nova geração. Ainda assim, há mérito em sua existência: revisitar clássicos é também uma forma de mantê-los vivos, e mesmo quando não acerta plenamente, a tentativa de Igor Voloshin revela um olhar artístico que merece ser observado, ainda que com ressalvas.

Paris Filmes lança Pinóquio nos cinemas a partir desta quinta-feira, 16 de abril.

2.5

REGULAR

Revisitar clássicos é também uma forma de mantê-los vivos, e mesmo quando não acerta plenamente, a tentativa de Igor Voloshin revela um olhar artístico que merece ser observado, ainda que com ressalvas.

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